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Olha-me todos os dias em meio a seus livros não catalogados, diz somente o necessário para que nos suportemos sem palavras. Meu maior desejo, Querida, a única coisa que posso fazer para a humanidade é o meu amor-ausência, posso dar somente essa minha ausência, essa falta de movimentos que deixam minhas pernas atrofiadas. Não me entendo nas ruas, nos sorrisos largos dados ao luminoso sol de outono. Parto todas as manhãs para o silêncio, àquela imensidão de personagens construídos, para os dramas com lirismo que a realidade vivida destrói. Parece que a cada dia decido deixar de existir. Cada qual utiliza seu método, eu no momento decidi eliminar um por um dos que poderiam me trazer vida. Triste? Ainda não consegui fazer a análise dos meus ganhos, mas me alivia pensar que devo dar amor a alguns poucos. Penso ainda na tal prisão, nesse amor jaula que me leva todas as manhãs para aquela empoeirada biblioteca mal usada buscar pela intermediação das teorias a única vida que sei viver. O amor, Querida? Encontrei em linhas, o romantismo encontrei em épocas. A vida? A vida ainda não sei, estou pensando sobre ela, estou estudando e arrumando teorias para bem argumentar o meu afastamento corpo-a-corpo com esse todo movimento. Acho que amo poucas pessoas também pelo completo medo da solidão, acho que seleciono poucos para que não me cobrem o amor que não posso dar. Disse-te ontem, o único amor que poderei dar é o meu trabalho, a minha pesquisa dos planos cinematográficos e as estratégias de inscrever o subdesenvolvimento como característica fílmica. É contraditório, amor incompreensivo para os que no momento cercam-me, mas estou em fogo, ardendo nessa possibilidade de um encontro que só se realizaria dessa forma. Eu e teorias, eu e centenas de frases que me fogem e as quais desejo dominar, um fio que leva a outro, uma bibliografia que puxa a outra. Saímos para jantar ontem, estávamos três, conversávamos dos corriqueiros temas entre pessoas de nacionalidades diferentes. Queria dizer sobre toda a minha paixão pela intelectualidade, pelas bibliotecas de madeira de Paris, mas decidi me controlar, devia esconder a minha paixão, pois toda a intelectualidade parece pedante e eu não queria ser. Porém, queria mostrar o meu amor que ficou perto de se perder pelos deslumbres das noites do glamour da moda paulistana. Sempre tão em dúvidas se deveria seguir essa vida que aos olhos da minha juventude parecia tão sem cor, tão acinzentada, sem a luminosidade instantânea dos tecidos acetinados. Há alguns anos tinha medo de deixar tudo de lado para seguir esse trajeto que via como desistência de vida, no entanto, hoje não consigo pensar que exista outra vida que possa ser a minha vivida. Não vejo mais como desistência, vejo como escolha satisfeita, realização da única atividade que poderei praticar com todas as emoções concentradas. Teorizo o amor, tento convencer os que me cercam e aos quais devo alguma explicação pelas sempre ausências, de que poderia arrepender-me do amor dado a uma única pessoa, mas nunca poderia arrepender-me do amor dado à humanidade. Não discurso em teor messiânico, só estou tentando entender o tipo de amor que quero e posso dar aos Homens. Tantas teorias para nos entendermos e mesmo assim não nos entendemos. Engraçado, Querida, mas mais uma vez as fantasias são os únicos meios utilizados para viver. Lembra-se dos devaneios que fazíamos das nossas próprias vidas, das conversas de encontros misteriosos e casuais, das viagens em que sempre chegava um misterioso desconhecido? Quando te escuto falar vejo que mantém para si essa fantasia concreta (que contradição uma fantasia concreta, não é mesmo?) a qual eu nem mais consigo chegar perto. Até a fantasia decidi teorizar, decidi transformar em corpus de estudo por meio das narrativas cinematográficas. Se algum dia acreditei na intensidade de um encontro como aquele entre Harvey Keitel e Holly Hunter em O piano, hoje acredito somente na sua possibilidade em filme. Não que acredite na sua completa inexistência, mas na impossibilidade de me oferecer a ela. Não me dou. Talvez seja isso, a minha arrogância faz com que desacredite nos sentimentos humanos sem intermédios das teorias. Talvez seja tão prepotente com essa história toda de intelectualidade que não consiga assumir a minha própria humanidade. Quero dizer que o intermédio das ficções elabora os sentimentos, como uma espécie de peneira que filtra as baixezas dos homens. A palavra baixeza fica meio deslocada, mas não sei ao certo definir esse repúdio com o meu humano. Escrevo para criar argumentos fortes que sustentem esse quase forçoso ritmo de bibliotecas solitárias, dando explicação para as minhas frustrações sociais, para os desentendimentos que me põe longe do outro e que ao mesmo tempo aproxima-me da forma que mais gosto e sei. Parece individualismo o fato de apegar-me nesse momento com tanta força às teorias. Diriam sobre o meu carreirismo, sobre a ambição acadêmica dos postos, dos concursos nas universidades. Poderia até mesmo afirmar que sim, que estou necessitando de vida confortável e até mesmo luxuosa, mas diria ainda com certa tristeza e ao mesmo tempo orgulho, que não sei viver outra vida que não essa. As crianças me fartam, os homens me exploram, os amigos me cobram e eu tendendo a caminhar para o conforto do silêncio ao lado do bibliotecário amável que todas as manhãs me acolhe somente com um Bonjour e o faz da melhor forma, quieto, sem conflitos, sem desentendimentos, pois não permitimos amor suficiente e intimidade para a perda de respeito que o amor sempre, ao meu ver, acaba esfacelando. Talvez seja essa distância que tomo da humanidade para preservá-la. Acho que acabo, nessas palavras soltas, entendendo mais ainda a minha impossibilidade de grandes aproximações como entendemos no sentido cristão. Essa quebra do individualismo que impõe quase todas as formas de amor leva-me ao encontro solitário com o único amor que devo entender, aquele dado à humanidade, o que persiste na história como conhecimento e que ultrapassa as relações pessoais diretas. Não devo saber amar diretamente e para justificar o meu fracasso devo usar o amor à humanidade como pretexto para suavizar essa monstruosidade que se forma em mim. Gostaria, Querida, que fosse mais fácil amar o próximo dessa forma cristão-burguesa, mas infelizmente não consigo sem muitos recuos. Ando preferindo o intermédio para me aproximar do humano, digo o intermédio das teorias, o pretexto das artes para entrar em contato com o que não consigo em vida. Essa tela opaca que separa o autor da obra, o apaziguamento de todas as imperfeições, a mais pura beleza a qual pode se debruçar o homem, sua disciplina incansável, seu trabalho apaixonado. A arte Querida, uso a arte para amar os homens, para entendê-los da única forma que tenho paciência. Triste? Como disse, ainda não fiz o balanço das minhas infelicidades. Ontem na mesa do restaurante organizando uma indesejável festa de 30 anos dei-me conta que chamaria somente duas ou três pessoas para dividir o envelhecimento dos meus fracassos. Senti-me um pouco isolada, impotente, pois não poderia chamar a cátedra dos meus artistas mortos, mas aliviada por não precisar estabelecer diálogos que não me interessam, e nos quais devo interferir para evitar os constrangimentos. Ainda se tivesse dinheiro suficiente para as garrafas de whisky, aceitaria ébria os mortais que naturalmente tenho dificuldade em conviver. Culpo-me pela prepotência, assumo que o defeito está em mim, a desconfiança e a pouca crença está em mim. Se ao menos conseguisse desenvolver conversas de elevador e ter pessoas em doses homeopáticas. Mas não consigo, não sei a medida do coleguismo, não me interessam essas relações que não são densas, prefiro não mantê-las, prefiro reservar meu tempo nas salas de cinema, intermediaria entre a ficção e a realidade, na passividade frente ao humano, analisando de longe, nas frestas, na espreita sem envolvimentos. Assim que vivo talvez o amor, na observação, no afastamento, pois para amarmos precisamos nos desnudar de toda a prepotência. Por isso, ainda tento, busco teorias, desculpas bem formuladas para a minha impotência perante esse amor humano que ainda julgo tão baixo. Para amar preciso me rebaixar e sei que estou pouco disposta, mas para disfarçar essa falta decidi discursar que estou em paixões pelas teorias.
Escrito por annacbt às 19h22
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Precisava triturar essa massa concretada, aliviar-me dos ditos sem sentindo. Andamos falando de morte, dos suicidas, da impressão de fraqueza que expressa o absurdo. Disse-me: Loba solitária, disse-lhe: Ah, já estou tão longe dessa colocação! Uma garrafa de vinho e uma passagem para Portugal. Andar silenciosa pelas ruas dos romances de Eça de Queiroz, procurar os tais pasteizinhos de Belém e a atmosfera encontrada por Camões para escrever versos cuja força é maior que a própria vida. Quis a morte, quis deixar a minha existência não pensando no suicídio. Escolhi dormir, não atacava a humanidade, não inquietava mamãe se a opção fosse o sono, mesmo sendo ele sono de morte. Carol, você são as gentes! O Bem me disse que não preciso de justificativas para desamar. A gente desama sem precisar se justificar. Desamei e mantive a escolha do desamor, entende? Deve estar lá pelo jardim de Gaspar escutando os barulhos matinais dos pássaros como dizia escutar no meu jardim. Contou-me que controlava a vontade de passar uma vida em silêncio de frente para aquele movimento calmo da cidadezinha. Imaginei-o sentado numa cadeira simples, sem inclinação, branca de metal enferrujado num domingo ensolarado. Não queria confundir os fatos, deixar os gostos atrapalharem as vivências. Era abissal a passagem entre essas duas torres opostas da igreja medieval, éramos nós num primeiro jardim de flores quase secas do longo outono. Pierrô e colombina, sem grandes afinidades óbvias. Conheci-o no limite para enxergar somente a perfeição. Pedi que voltasse logo na semana posterior, queria observar mais a delicadeza que acentuava as minhas agressividades. Enjoaria? Disse-me:- Loba solitária. Disse-lhe: Estou tão longe disso. E aceitei as partidas e as vindas esperando as outras vindas. O mundo improvável, dos acasos que trancados pelo lado de fora da casa temos chance de viver. Fechei todas as portas nessas diversas cidades por onde passei, tranquei-me, mas para o lado de dentro, impedindo o fluxo. Na verdade estava lá, olhando a janela e observando a dança dos vizinhos, deitada na cama escutando o sexo da vizinha. Vivi sempre na superficialidade das águas. Uma película forte das ligações de hidrogênio que mesmo fluida e transparente escondem a intensidade das interações. Estou tão presa quanto essas moléculas que se separam com aparente facilidade. Líquidas, derramadas tomam a forma que damos a elas, mas intimamente, presas, sem a verdadeira disposição para a separação. Sem temas, ando sem temas para colocar-me na vida, sem vontade de compartilhar as pequenices do dia a dia. Corto os legumes, procuro as simetrias, as larguras perfeitas dos bastõezinhos de cenoura, ficando mais tempo quieta na cozinha. Pico as abobrinhas em cubos pequenos para completar uma tigela grande. Apoio os pés um sobre o outro para amenizar a dor nas costas de horas passadas em frente ao calor do fogão. Ali, misturando os temperos esqueço que ando sem graça, esqueço das partidas que antes davam sons aos móveis. Rangiam as janelas, dançavam as molas, mergulhavam os lençóis e nós em meio à bagunça de um quarto vivo. Continuo tirando as cascas dos tomates para não se desprenderem nos preparos, pico a cebola e aproveito-a como desculpa. Perdia o ânimo tendo que construir uma novidade, mas não vejo temas, fogem as letras, fogem os livros e a ambição de extrair a máxima. Não quero mais contar histórias às próximas gerações que me seguirão, não acho graça nas infrações que os excêntricos orgulham-se em recontar. Andei aceitando um jardim também silencioso em que pudesse passar a vida sem o constante esforço das descobertas, dos arranjos que essa desconhecida vivência proporciona. Morreria de tédio, enjoaria, estragaria todos os seus discos de música clássica e essa história de Haendel. Puxaria outra cadeira enferrujada para observar os ciclos dos animais, mas sentiria um desconforto toda vez que a revista ao lado aberta por acaso mostrasse a imprevisibilidade do mundo que o gramado cercado distancia. Enjoaria? Nesse momento poderia convidar-lhe, diferente de todas as outras vezes, para duas ou três taças de vinho e uma partida a Portugal. Descobriríamos talvez os sons dos navios que atracam no Porto e experimentaríamos os corais das igrejas milenares nas quais nunca iria sem a interação dessas moléculas que vão sendo compostos pelas pequenos átomos. Poderíamos repetir as noites gostosas de calor em Saint Michel. Beberíamos vinho e voltaríamos para casa com as habituais palavras já ajeitadas aos vocabulários, com a sincronia da intimidade que por um instante penso dar o maior prazer à vida. Foram todos esses quilômetros, todas essas distâncias que desvendaram o meu imenso prazer em ser formulada por essas interações infinitas que enfrentam doloridos processos para um pouco de separação. Não quero as novas falas, não me esforçarei para a conversa banal na cozinha em busca de combinações satisfatórias. Criei esses vínculos quando ainda podia dedicar-me aos prováveis descompassos. Hoje nego as descobertas e com dor assumo a integridade com os laços já bem reforçados. Enjoaria, vestiria-me de preto, pegaria o cigarro imaginário que nunca experimentei e chamaria Ildinha para uns tragos e algumas conversas sobre as durezas. Quando vejo Ildinha, o incomodo é que vejo a mim, as roupas escuras afastando as delicadezas de fêmea subordinada dos jardins provincianos. Meio solta entre um cigarro e outro, um escândalo e outro, um rigor exagerado e outro. - Tenho sempre medo de sexo querer virar amor. Um mínimo de envolvimento, uma não repulsa física e diálogos que se criam somente entre os amantes. Intimidades dos silêncios que nunca são constrangedores porque há o toque. Minha querida, vai caminhar como Hilda, Hilda Hilst dessa vez, essa linguagem comportada em meio ao quintal florido não te cabe. Vai estar sendo sem ter sido com Hilda. Esquece a delicadeza.Vai esperar a vida toda a companhia esporádica que te mostrará um pouco mais das multiplicidades do mundo. Vai ser solta na vida, minha querida. Passar o tempo olhando a leveza das abelhas sobre a imponência das rosas? Se possível continue, mas o provável é passar essa euforia dada pela calma desse amor descompassado. Não ando me entendendo nesses copos que nunca transbordam de fato, das ruas que nunca estão lotadas de gente cujos movimentos representam essa velocidade que é a minha. Continuo, Ildinha, seguindo as escatologias da nossa velha Hilda. Vendo sempre mais do que preciso para me aceitar como algo desprezível. Ah, como ser quem somos aceitando o distanciamento das regras, a liberdade dos desprendimentos que soam como esquisitices. Tudo o que pensei ser absurdo... Como ensinar-lhes que estamos bem assim? Como convencer a nós mesmas de que estamos bem assim? Disse-me: Loba Solitária. Lala anda pelos vales, sente a terra entre os dedos dos pés e eu estou numa anestesia que descubro ser. Sou essa anestesia, não estou, o que me desespera, já que essa nuance dos verbos parecem-me gritante agora. Estar não é constância, ser é infinito e sou anestesia infinita, sem sentir os grãos entre os dedos dos pés, o calor da areia quente daquele deserto em que andava. Carole déprime? Não permito as paradas para os fôlegos, percebem o meu desinteresse pela vida. Disfarço, não quero. Deixo o corpo em movimento e o que encontro é sempre uma pressa para depois ter a calmaria, o silêncio e a simetria dos legumes dentro da panela. Corto os talos de couve, como os desiguais para esconder a imperfeição da natureza, dos meus gestos, da minha vida. Logo pela manhã começo com Secreções, excreções e desatinos e termino o dia escondendo os desejos. De um dia para o outro nunca posso dar certezas, solidez na mudança do começo para o fim da semana, constrangimentos com as promessas as quais nunca consigo cumprir.
Escrito por annacbt às 14h07
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Convenções, ando aceitando as convenções, quase sem saída, sem vontade, pensei que pudesse me distanciar, mas me trancar, levar a prepotência ao extremo, à solidão? Escolher meia dúzia de pessoas e relacionar-me somente com elas, trabalhar em alguma coisa que evite o contato humano para o choque da surpresa não me maltratar. Lembro naquele filme bobo, ela dizendo que poucas pessoas a surpreendiam, quase sempre a chocavam. Devo estar incorporando tudo isso, esse choque, esse desespero de olhar para os lados e minha prepotência permitir ver somente a mediocridade. Às vezes penso que existe as descobertas, as surpresas, o deslumbramento com o outro, mas quase sempre a queda, a revisão das minhas expectativas, essa tristeza dos índices negativos. Olho ao redor, seleciono 5, lembro-me da Querida e penso no nosso isolamento, no fio de telefone cortado, na campainha não atendida, na porta aberta para 5 ou 6. Que desespero todas essas minhas crenças escorrerem assim fácil das mãos. Injustiça ter tristeza por nada, injustiça amuar-me na cama sem olhar as possibilidades. Não tenho energia para as ruas desconhecidas, não necessito de mais palavras que as habituais, recuso as amizades momentâneas. Desisti da viagem, as férias com toda sua seriedade. Volto às visitas dos sábados em que quase sempre se sentia incomodado com a minha visita. Somos assim. Um trago para suportar todas as falas, desânimo no fim das incansáveis conversas, monólogos não interrompidos, cansaço das escutas. Ir pra onde? Rolo na cama como atividade mais desejada, abrir as cortinas e ver que recomeço. Anos bissextos acontecem de quarto em quarto anos, o dia solitário do calendário, o desespero, esse prazer pela dor como alento de vida. Permissão para deixar as janelas fechadas, essa ânsia. Férias, para que o descanso? Afasto-me não pelo outro, mas do que projeto no outro. Somos tão estúpidos. Perdi-me nesses rabos presos dos subordinados, na delicadeza dos fracos. Pois sim, os delicados têm essa fraqueza que não permite a exposição dessa podridão íntima. Podre! Minha delicadeza demorou a deixar que a consciência sintetizasse esse conceito. Somos todos muito podres. As velhinhas perfumadas cuja cortesia pede o desolé, o excuse-moi, pardon. Podre. Podridão é conceito. A incoerência é sua? A velhinha elegante de cabelos bem pintados, as vestes muito bem colocadas, os esmaltes impecáveis nas unhas dos pés, os gestos calmos e planejados. Dia bissexto tranco-me nessa dispensa de alma, reflito rolando na cama. Machado de Assis com suas teorias, o grande Medalhão. Sarney deve saber da teoria do Medalhão, coisa de filme, essas estratégias que achamos existir somente nos blockbusters, imundices que as delicadezas escondem. Deus, ando perdida, aguçando demais as percepções, bebo vinho, cerveja, umas doses de vodka para adormecê-la. Essa apatia deve ser o meu estado natural. Disfarço-a como os bons fracos para não expor a raiva. Prendem as palavras na faringe, controlam os peidos colados na parede do intestino, preservam a cortesia com medo da exposição do que os fazem podres. Somos todos podres, esses odores dos pés, as secreções dos olhos, os suores das axilas, os líquidos das vaginas, a boca adormecida, a merda acumulada. Excrementos da alma, mesquinhez que me faz feder, somos todos tão podres! Tento assim como a velhinha, as gentilezas para disfarçar essa baixeza humana, desolé, excuse-moi, pardon. Hipocrisias. Se pudesse, se tivesse coragem e forças para ser honesta com todos que me cercam e comigo mesma, diria que peidassem, diria inconveniências para que tivessem raiva de mim. Estou cheia de dedos, com cuidados para nunca interferir o espaço do outro e fujo, evito os encontros, não quero as conversas, fujo aos monólogos. Desejo maior, lançar toda esse excesso de absurdos que acumulo em mim. Peidem, peidem! Talvez se fossem mais publicas essas baixezas do corpo, seriam mais expostas as baixezas da alma. As regras sociais, todos esses alicerces inúteis que me fazem querer esse quarto silencioso, as conversas quase mudas com a Lê, as brigas com a Michelle. Seleciono com tristeza duas ou três pessoas, a pouca paciência com os cuidados das amizades frágeis acabaram. Não podia continuar, não era franco, entende? Penso que mamãe diria: Aquela lá é esquisita mesmo, de repente sumiu. Falariam isso de mim, devem pensar nas minhas esquisitices que para dar charme tento chamar de excentricidades. Por que essa decisão? Por que sempre se afasta? Não é a primeira vez, já fez isso antes com quem amava. Precisei ter cautela, fiz para preservar. Evitaria estragos maiores se continuasse a aproximação. Como o olharia, como a olharia? Como, se via nele não mais aquele de sempre. Tínhamos um segredo o qual a aproximação revelaria uma das minhas baixezas, e no mais ficaria difícil saber que éramos ambos, cúmplices que aumentavam os afetos. Afastei-me, não quis saber de nada, afastei-me perdendo a escolha. Às vodkas, um dia desses de vodka. A gente se perde com tempo, as vias se multiplicam, os caminhos bifurcam e quando vemos estamos longes, preservando somente as lembranças de tantas coisas compartilhadas. A questão é que decidi seguir levando poucas pessoas no trajeto, prepotência, esquisitices, não me abro com facilidade, irritam-me os diálogos interrompidos, a não escuta, a falta de importância que tem o outro. Sentia-me como uma dama de companhia, um cachorro de luxo, um colo forte em que se depositam as frustrações e não precisam devolver os cuidados. Parece que te vivi tanto que não fantasio as situações. Três semanas para voltar às convenções, justo eu que não queria mais as perdas. Te deixaria também? Frustraria-me ao ponto de querer me encontrar novamente só? Nesse tempo raso, dessas manhãs ensolaradas te conservaria como nunca quis antes, te aceitava como deslumbramento da surpresa, das mãos delicadas das quais nunca imaginei surgir carinhos. Espero não ter te conhecido somente ao ponto de não ver imperfeições inaceitáveis. Sou eu quem ando mal, sou eu quem julga com mais força do que todas as inquisições, sou eu a austera que não tolera os erros. Prepotência assumida, não me orgulho, mas aceitar os encontros cujo vazio se acentua? Esse sol que brilha mais que o habitual, esse movimento entediante dos que vivem somente para si, recuso os grupos, tolero as perdas para aceitar esse silencio que descobri gostar na solidão. Teria movimento demais para mim mesmo te amando, seria pouca companhia, mas pedi sem grandes afeições iniciais que ficasse, que me desse palavras nunca escutadas e seguisse durante apenas três semanas junto a mim, mesmo que para a volta tivesse os planos de sete anos de relação estável. Essa apatia toda, a necessidade do silêncio, as tantas partidas, estou cansada, precisando das companhias de sempre, aquelas do tom correto, da espontaneidade, o bairrismo do café conhecido. Cansei das aventuras, da esperança dos encontros surpreendentes, cansei das novidades, dos choques, quero o silêncio dos hábitos, do conforto que somente o toque ou o tempo proporciona. Volto para encontrar a casa...
Escrito por annacbt às 11h34
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Há dias ando acordando à noite, pesadelos e mortes, ando sobrevivendo a tiros, resistindo ao esfacelamento dos corpos. Abri a janela para tentar silenciar aquele maldito barulho de assobio de trem. Deve ser criação da minha cabeça, não pode existir até aqui esse barulho vago da morte da tia Girlei, a casa da Erica com a piscina sem águas, a lenda da casa da Erica da morte na piscina. Não dormi. Acordei no meio da noite para acabar com o amarrado na boca. Disse que escolheria comédias românticas, esses filmes rasos que dão prazer, onde os dias parisienses são sempre claros, as gentes sempre rindo. Escolhi Enter the void. Péssima referência, nada de romance. Assistiu Irreversivel ? Viu aquela morte com o extintor de incêndio? Anda com pesadelos, Carol, vai aumenta-los vendo esses filmes. Encontrei-me às 22h em Chatelet no cinema sozinha. Assustei-me Querida, o filme era um tédio, riam no cinema, tive tempo para pensar em mim ali. Deu uma solidão danada, a solidão era maior do que aquela quando ia só ao cinema da Augusta. Estava mais só do que antes. Tive a dimensão do meu isolamento. Todos, ou quase todos naquela sala compartilhavam de um mesmo universo, uma mesma identificação cultural. Já lhe disse que às vezes não acredito que os oceanos separam tanto as gentes assim? Às vezes, pelo contrario, vejo-me monstruosa diante dessa comunidade. Se existisse uma guerra ali, naquele exato momento, se existisse um desentendimento entre mim e qualquer um deles provavelmente eu seria a acusada mesmo se estivesse certa. Senti um medo, uma solidão de combatente de guerra. Sai no meio do filme, um pouco em tom de protesto. Hoje decidi dar-me o dia, deixei as aulas de lado, não arrumei a cama, ando dormindo depois da uma da manhã, acordando tarde, permitindo-me à preguiça, à sujeira, ao relaxo com as normas. Queria ter paz com essas todas repetições, preciso da rotina, mas sempre essa insistente vontade de questiona-la e rompe-la. Como ficam em paz com a rotina? E os vinhos para escrever essas palavras todas tão entaladas. Dou forma as frases, escapam-me as ordens, uma introdução virou conclusão, não sei respeitar muito as normas, deve ser arrogância, não posso ser analítica como exigem de mim. Era mais livre. Sonhava mais, não esses pesadelos, mas quando menina deitava sempre uma hora antes para planejar a vida como a queria. Buscava como a moça do conto a casa perfeita que sempre me fugia, buscava como o moço do conto o rapaz perfeito, que sempre me fugia. Esqueci de buscar as coisas perfeitas – realismos. Deixei de buscar – tristezas. Tem objetivo na vida? Viver para desconstruir todos os dias vividos, acho que é isso. Vou escrever essa porra como a querem. Analítica, objetivo de ser analítica, plana, sem grandes dimensões. Ando diminuindo a alma para ser feliz. Coisa de Pessoa, parece que nessa vida sistemática a gente é obrigado a diminuir a alma, entende? Dizer sobre revoluções, aceitar as surubas, achar que os casais podem ter a interferência de estranhos...não acredito mais. Procurei-o de novo. Fomos ao museu, deixei que escolhesse, como um teste, queria saber qual seria a sua escolha. O outro queria o Contemporâneo, esse o da Idade Média, errava no primeira, errava muito mais no segundo. E o show de rock, quem me levaria? E as noites nas espeluncas do Zé? Lobotomia, Skatarentos, Muzzarellas, Cólera e essa porrada de shows toscos. Ando tão distante. Achei que pudesse divertir-me no museu da Idade Média! Essa coisa de francês é meu desafio. Não cresci em museus. Mamãe deixava-me na frente da televisão por falta de entretenimento. Era a Sessão da tarde, filmes estúpidos longe das visitas ao museu. Como querem que me adapte tão rápido à elegante postura desses homens afeminados? Ainda bem que esta aqui. Sabe que trouxe-me a mim? Tenho vergonha de me apresentar como estou. Tenho vergonha de não mais acompanhar as intermináveis noites de bebedeira em que me metia. Queria continuar aceitando esse espontâneo rompimento que ainda vejo em você. Já disse antes, esse medo de me distanciar, senti isso da primeira vez, senti que poderia mudar de língua mesmo falando a minha. São já quase dois anos distante, são quase dois anos pedindo visitas que me tragam a mim. As florzinhas se desprendem das arvores e vão passeando com leveza pelos ares das minhas duas janelas. Vão tão sem culpa pela liberdade. Omiti a minha ausência, não disse que fugiria de tudo hoje para observar essa dança das florzinhas rosadas. Estive tão atenta por esses meses que amiudei a alma, respeitando tudo o que me cercava, infiel a mim. Hoje não quero. Aquelas palavras tão entaladas vão ganhando tanta vida por aqui. Decido gasta-las só na liberdade, sem introduções, conclusões e partes estabelecidas. Não sigo subdividida, não subdivido os assuntos, retomo aos temas, acusam-me de prolixa, defendo-me com continuidades – a espiral a que tudo volta. Volto, falo das flores, dos sonhos, dos fracasso. Sigo nesse dia de desordem, da louças acumuladas, das roupas sujas, da cama revirada, dos encontros sempre fracassados. Ando com essa obsessão pelos estranhos, criar-me como desejo, sentar numa mesa de bar e distorcer-me como me quero. Posso fazer, são todos tão distantes. E eu sempre desconfiava que mentiam. Sou eu quem quer mentir-lhes, criar realidades, dar força para os traços da minha personalidade amiudada, exagerar os meus orgulhos, auto-suficiências. Aprendi a mentir e gostei, mentir para estranhos. Não importa, são estranhos mesmo. Tive namorada para um, fui apaixonada para outro, larguei-o porque apavoravam-me os filhos. Estava mentindo, não tinha clareza, mas estava mentindo e a alegria em vê-los era a minha possibilidade de mentir. Estamos tão longe que a mentira não era um desrespeito. Fazemos companhias num dia em que os casais estão à dois. Dão-me informações, aprendo sobre livros, espaços, burocracias francesas, nomes de ruas desconhecidos, mas é sempre meu jogo, não sabem de mim, não faço questão. São as interrogações, acham-me estupida. Não me importo. Procuro a distância. Posso mentir, posso ser mãe, rica, divorciada, ingênua e nunca vão saber. Só quero um dia, uma caminhada pelas ruas, uma conversa em que permito que me corrijam a língua. Hoje fugi de tudo para saber um pouco mais desse eu que reinvento, essa farsa ridícula de uma vida cujo objetivo são só os rompimentos. Troco os museus, troco as viagens, trocos os diversos sabores para saber um pouquinho mais das gente. Um elefante, meu familiar desconhecido andou por aqui, alegrou-me os dias, deu-me de mim, levou-me para onde não iria, mas as noites continuaram agitadas, o sono interrompido pela morte, pela resistência à morte. Matavam-me com balas, meus dentes saiam líquidos nas mãos, mas não morria, enfrentava, gritava com aquele homem de chapéu que atirava insistentemente, mas não lembro de ter morrido, lembro dos dentes vermelhos nas mãos, na perplexidade da não morte. Acordei assustada para silenciar o assobio do trem fechando a janela e descobri que ainda estava viva com feridas que não eram de balas, mas eram os rastros das minhas escolhas, borrões de medo, não pude voltar. Não queria acordar sozinha e ao mesmo tempo não sabia como me livrar da solidão. Amanhã recomeço - um novo museu, um novo esforço e o amesquinhamento da alma que permite a continuidade.
Escrito por annacbt às 08h35
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Eu não vou ser puta nem vagabunda. Nunca. O que é uma pena.
Escrito por annacbt às 09h10
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Olhar de onde se ja estou tão longe? Entender o Brasil como querem entendê-lo daqui, da Paulista à Faria Lima. Carol, a arquitetura brasileira é inspirada na arquitetura francesa, os monumentos brasileiros são importados da Europa. Parei, irritada, daquelas vezes em que mais me odeio, parei irritada e quase sem nenhuma paciência, num medo de explosão. -- Arquitetura de que Brasil? Nas casas de minha infância o reboque das paredes era terminado lentamente, os tijolos acumulavam-se nas calçadas sem uso, faltava o dinheiro para o cimento, os arquitetos eram os proprios pedreiros, pedreiros de fim de semana. Querida, ando com medo dessa distância, ando com medo da subordinação aos métodos, metodos nos quais não acredito. Queria te contar, entende, queria que sentassemos na mesa de bar la daquele habitual centro de São Paulo pos expediente para que eu te contasse o que ouço por aqui. Por que sabemos olhar as coisas somente do nosso lugar. Orgulho-me de você pois talvez seja a unica, a unica que conheço que se desloca e rompe essa barreira cristalizada que construimos em torno de nos. Ando com medo das minhas preocupações, medo de perder-me no banal prazeroso da vida. E puxa se pra ca, e puxa se pra la, e meter essas malditas virgulas em lugares pré-dispostas. Nem toda teoria da conta da vida, você não acha? Nem toda teoria nos tira do caminho do engano. Tenho uma memoria de merda, tudo me foge. Decorar para reproduzir, talvez nunca poderia – questionamentos. Tenho essa fluidez que é permitida somente aos tolos. Falta-lhe metodo, Carol, método com a porra da vida. Anda apavorada com os erros, esta acoada com o peso dos anos, como se não os permitisse apos os 30. Querida, disseram-me que o tempo é curto, mais curto para as mulheres. Uma amiga, Querida, uma amiga de 40 disse-me que o tempo para as mulheres é mais curto. Sente-se sozinha, presa ao companheiro por medo da solidão. Tem medo porque acredita não ser interessante. Fiquei apavorada, como não se apavorar com os erros se o tempo é curto? Paranoias, paranoias, mas o que fazemos quando perdemos o tal rosto arredondado? Ando lendo paginas pelos numeros, tudo tão desinteressante. Até o Antunes, Querida! Não posso lê-lo agora porque corre o tempo, entende? Olhei o garoto ao lado, deveria ter 23, enfiava a caneta na boca e a mordia num desespero, numa ansiedade. Quis a aproximação, provavelemente seria a unica vez que o veria. Tive vontade de consumi-lo, tirar um pouco dele o que o tempo anda tirando de mim. Mas como doeu. Deveira profissionalizar os carinhos, facil assim, profissionalização de carinhos e rompimento de mais uma dessas ideologias catolicas em que me fizeram debruçar. Cinismos nenhum, clareza. Trocas de favores. Tenho o que quer e tem o que quero. Simples assim, relações trabalhistas sem engano. Rompimento de limites. Se me tornasse uma puta, puta paga, distanciaria qualquer fantasia de casamento burguês. Teria a marca, entende? O estigma na memoria. Permitir uma cama burguesa? Livraria-me de todas as fantasias que atormentam os planos. Um pouco de engano é bom, não acha? Estou longe do que pensei de mim, gosto disso, mas me orgulharia em desmasia se aceitasse o sexo pago, orgulharia-me porque so assim essas todas fantasias de lar feliz que ouvi mamãe reproduzir seriam rompidas. Sexo pago seria o meu orgulho. Engraçado, as pessoas orgulham-se da fidelidade e eu com a plena consciência de que me orgulharia da putaria trabalhista. Não, não, sem fetiches, estou falando em crenças. Essa espera pela vida pré-estabelecida entortam meus planos. Quando o encontrei perdi o interesse pelos rompimentos, deixe que os conceitos fluissem sem questionamentos. Agora, indo embora, decidi fechar-me, sem chance de aproximação, nesse universo desconstruido e no qual coloco todas as minhas crenças. Atormenta-me o fato de saber que cada pessoa que entra afetivamente em mim, leva-me um pouco. Quero ir por vontade propria e continuar. Ando chateada, não posso falar de Alexandres, Abelardos, Penelopes, não os conheço. Essa formação de merda. Queria escrever incluindo os amores de Inês, mas não os conheço. Não dou conta de conhecê-los. Ja deveria saber, mas me interesso em demasia pela vida dos ordinarios. Interesso-me pelos que se relacionam a mim. Abelardo deveria ser laço de amor, trata-lo com familiaridade, ter propriedade para esmiuçar seu falo capado. Os movimentos na piscina, como poderia ter movimentos perfeitos se a falta de instrução não os permitiu? Como nos diferenciamos. Se estivesse em meu pais não saberia contar-lhe a historia como me contou. Não saberia o significado dos monumentos, não teria, provavelmente o menor interesse em sabe-los. Você sabia. Andava desde moleque pelas ruas de Paris com os professores que lhe dispertava a curiosidade. Fui no zoologico de Bauru conhecer a onça sem dignidade. Não é justo. Direi, não perca a estratégia. Noites de wisky com clientes aposentados cheios de necessidade de explicar a quem demonstre um minimo de interesse. Pagariam pelo meu interesse. Pagariam pelas partes inteligentes de mim. So precisariam da fala, seria corpo ausente, mas ouvidos que desfarçariam a pouca atenção. Sempre uma exclamação é marca de desejo. Pagariam pelas minhas todas exclamações, preencheria a fala com as interrogações. Saberia fazer bem o serviço. Querida, parece que assim voltaria para perto de mim mesma, entende? Ando na neurose da saude, olhando os corpos trabalhados que somente a rigida disciplina constroi. Ando querendo perto de mim essas estruturas de organização, mas rompê-las com noites de wisky talvez me dariam um puta orgulho. As noites poderiam ser a tentativa de destruir esse metodismo sem método em que venho me afundando. Talvez precise dessa culpa estimulada pela consciência do corpo usado, tudo tem valor de uso, não tem? Você dizia que o Marx dizia. Eu acredito. Paris são os meus dias particulares, uma mornidão, uma paz estupida e uma sensação de que as coisas estão em seus lugares corretos. As canções não tem o mesmo ritmo por aqui. Os vinhos não tem a mesma alegria, as conversas não seguem sempre...
Escrito por annacbt às 09h10
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Dependência de imagens tão vagas, dependência de discursos construidos. Assumi porra, assumi essa medicridade sujeitando-me ao cotidiano silencioso que não tenho forças para combater. So escuto, escuto admirada por conseguirem dar conta de tantas palavras. Eu amiudada nos cantos inexistentes sem interrogações. Não posso pronunciar grandes palavras, responder? Responder o que se não ha mais perguntas? Escolhi a mediocridade para continuar, seguir regras, saca, seguir essas coisas de manuais que existem pra tudo. Chega, estou cansada, cansei, entende? Estou cansada de lutar para não ser média, relutar pra ca? Esta ridicula, tira essas excentricidades que te dão um ar tão adolescente, teria coragem dos tais sapatinhos vermelhos? Então, essas excentricidades ja não combinam. Percebe, anda com aquela marca de expressão que as mulheres ganham apos os 30. Moulan Rouge, La feline, Gambetta, todos os encontros. O que fazia ali? O que faço nesses cantos imaginados do mundo que deixei de possuir? Não existem mais os cantos, estou sem as paredes em que poderia apoiar as mãos entre o quadril e a tinta fresca. A Phung me disse que o azar, acaso, sei la come traduz todas essas palavras que ja não percebo a distinção, é o que traz o conhecimento. Pensamentos nas coisas que acontecem sempre menores do que o meu desejo. Delirios? O Munch esta la do lado de Madalene, atormentado, cores misturadas e meus interesses amiudados, submissa à todas as regras, sem o desprendimento anterior que me fez estar aqui. Quer estar aonde, Carol? A seguridade, entende, quero estar aonde a seguridade esta. Aqui sou tão segura, cheia de aparatos que deixam todas as mortes mais suaves. Preocupo-me com isso, de onde venho as mortes são mais tristes. Não entenderia, a fome não é a sua questão, não entenderia por que em meu pais as mortes são mais sofridas talvez. Você era meu igual, estava em reflexo, não gostei, tão tive orgulho, não o tenho de mim agora, talvez não possa mais ir sempre, entende? Eu podia ir sempre, eu podia, porra! Estava indo, entendi essas portas 139, 45, 67ª, entendia. Senhora, sua poltrona foi ocupada, chegou atrasada, desolée! Essas tardes infurnadas, que injustiça. Estou desentendendo as contradições, rasa, plana, unilateral, todas essas vertentes da mediocridade. Mas decidi ser como você? Longe de qualquer média e trabalhando de porteiro em hotel de luxo? Dignidade, dignidade se aceitasse essa superioridade que os talentos hipotéticos te dão. Como posso aceita-los? Superioridade desnecesaria. Pensei, peguei o metrô pensando na minha postura e reafirmei essa consciente mediocridade que ando assumindo para abolir essa superioridade absurda. Não passo de pretensões e defesa à fragilidade. Mas cadê você, querida. Ja lhe disse, não me mantenho sem você. Ja lhe disse quantas vezes, você me nutri, longe de você sou assim, média. Você me impurraria, faria dores com suas clarezas e entenderia todos os meus absurdos. O que faço se cresci com essas malditas perseguições burguesas? Por que diria, não é média, vê Carol, vê a dialética de tudo isso. Querida, parte perdida não se reestabelce com o outro, estou procurando essa parte de mim perdida que nem sei na verdade se de fato a perdi, entende? Talvez seja esse meu falo, perdi meu falo, o meu falo! Nada dessas historias de lesbianismos, mas era meu falo. Nesses dias longos fecho as cortinas antes do sol cair para tentar encontra-lo, reestruturar o que com a idade parece ter sido destruido. É, como vê, ando com crise de idade, crise de falo, não sei ao certo. Aos vinte possuia essa petulância potencial que parece ser dada somente aos falos. Um falo forte e poderoso, desses que não envelhecem, tão cruel, e a solidão desse peso feminino aumentando. Eu que sempre fui apta da liberdade so desejo punição para os que andam incentivando o poder dessa extensão de carne rigida. Caio-me sobre o Schiele, sobre o Munch, deixo suas imagens de desespero atras da dupla de taças vazias procurando a embreagues. Ando patética fechada nessas bibliotecas restringindo os sujeito – eu, sujeito restringido na décade de 30, sem poder nem ao menos ter a liberdade de interromper a tarde num surto de Pessoa, num surto de Mia, num surto de Sartre, todos essas falos, falos malditos. Deixei meu falo quando te encontrei, falo perdido naquelas noites estupidas de carinho. Sabia que o sujeito literatura brasileira sempre começa com 8. Ando so nesse 8, sem poder rever o Bergson que nunca visitei, sem poder ver o homem absurdo do Camus ou as maluquices verbais de Antunes. Ando pensando no peso dessa coisa de ser feminina. As mulheres e suas disponibilidades, sempre mais disponiveis do que eles. Quer continuar, Carol? Vai optar pela solidão. Michelle tem falo, Cristina deve ter falo, Dilma com suas saliências nos vestidos de seda. Carla tem teta, teta excitada que chama atenção do mundo, ao contrario, falinhos de tetas. Esses dias longos estão me pondo a loucura, olho o Schiele na parede, a plantinha amarelando por falta de sol, devo estar com esse aspecto também, meio de doente, meio sem vida, planta meio morta por excesso de noites. Periodos curtos, noites alongadas para não ver o sol. Falar do que se o que vejo são essas paredes brancas, as estantes que escondem o sujeito 8. E toda a vida, porra? O maior problemas atual, Carol, é a religião – disse-me. Não, com prepotência disse, não, porra! De onde você esta vendo o mundo? Carol, tratando-se de religião, não existe acordo, a fome, se existir vontade, pode ser resolvida. Que vontade? Que vontade se temos tudo e a fome continua existindo? Sabe o que mais gosto em seu pais, são os supermercados. Primario isso tudo, né? Comer é tão elementar para que dê essa tamanha importância a ela. Estupidez, absurdos. Discutir uma questão tão primaria e elementar. Estupidez, Carol. Não, não passei fome, mas sabia que mamãe fazia aquela compra de 15 dias dando um cheque sem fundo. Sabe o que é ter culpa em comer? Mas a fome é tão primordial, tão primario ter fome. E os seus supermercados repletos dessa variedade da qual não quero me separar. Não, a fome não se resolve tão facilmente. Basta ter vontade para se resolver a questão da fome que se resolve a fome. Questões tão primarias. Resolve meu problema, um problema tão primario também. É a minha fome, fome de algo que aqui não falta. Reclamar, como posso reclamar dessa vida sem fome, ter raiva? A unica raiva que posso ter é desse conforto que me faz perder os limites de cada vez querer mais. Esses restaurantes com espelhos por todas as partes, essa cafonice de esbanjar dinheiro da um prazer danado. Anda comprando taças frageis. Elas vão quebrar e vai ter que reestitui-las e reestitui-las. Não lembro, escolhi a taça fina, sem pretensões, num exagero de prepotência. Coloca-se em seu lugar, esta numa posição outra, você era bagajista em hotel de luxo e essa escolha pelas fragilidades que devem ser restituidas te consome. Fico curiosa, eu sempre curiosa e barrando as curiosidades Pintura, você pinta? Pintura atormentada como essas do Schiele que me espiam?Pode fazer meu retrato com cores distorcidas como ele fazia das sua bailarinas doentes. São todas meio doentes, não acha? Gosta do Schiele? Não, não gosto do Monet, Renoir? Muita delicadeza para esses dias longos que estão me pondo louca. Pode me pintar nua, mas exijo meu falo. Bailarina delicada de falo escondido pelo lenço floral. Faremos um contrato, quero o retrato, substituo o Schiele atras das taças vazias, distorce meu rosto, uma coisa meio deploravel, entende? Olha, essas damas de salão do Renoir me põe em desespero. Escuto aqueles instrumentos de sopro e desejo que estejem a menos de um milimetro do meu ouvido para ver se alguma bizarrice silencia esses dragões. OS vizinhos devem perceber, as noites mais barulhentas, as janelas fechadas até mais de meio dia, as portas que abrem e fecham e o som alto na cantoria que alivia. Devem perceber. Podemos fazer um contrato, bailarina de falo. Imagem delicada essa, é so para lembrar que posso pelo menos em imagens, reestabelecer-me. E além disso teria alguns cafés no tédio da semana, poderia até dizer meu signo ja que é critério para essas modelos doentes que encontra pela rua. Por favor, nada de rosas e tons pastéis, prefiro essas cores que numa olhadela se encontra. Podemos fazer um trato, restabelece esse falo que escondi com os tecidos espessos e teremos um café na quarta-feira antes do trabalho. Sem complicações, esses dias longos ja estão me colocando em prantos demais.
Escrito por annacbt às 10h45
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Esta querendo percorrer o caminho rapido demais. Existe uma distância, não pode percebê-la em duas conversas. Ha segredos que não pode desvendar assim. Não te disse, não queria escutar, teve que ouvir da boca dele o que não queria escutar. Te avisei: Vai com calma, tem segredos que não devem ser assim tão rapidos revelados. Olha, se continuar buscando tantas verdades, vai sofrer. Não queremos ouvir, tem momentos que não queremos, entende? A cautela permite que essas lacunas não sejam preenchidas. Nem todo mundo quer preencher essas lacunas. Existe o mistério, existe o segredo de nos para nos mesmos e existe graça nisso, percebe? Por que quer sempre as explicações, quer sempre entender e dar substância ao insolito? Gosta dos zodiacos, acredita e presa as cartomantes, mas parece que aceita o mistério da vida somente nessas coisas. Percebe que a distância entre as pessoas é um mistério assim tão genial como as revelações das cartomantes? Vai ter suas pernas entrelaçadas as dele, mas nunca podera desejar que essas lacunas sejam preenchidas. Deixa, é a lacuna da individualidade. Te disse para respeitar as logicas, a sua vale pra você, a dele, para ele. Vai estar entrelaçada em suas pernas, mas vão existir as lacunas. Quer que não exista, pois achara que sera sinônimo de proximidade? Pode estar enganada. Vai estar colado a você e mesmo assim haverão lacunas enormes que essa proximidade das carnes não darão conta. Mas é esse o mistério. Dai que vem as paixões! A curiosidade por essas crateras de informação. Percebe o que viemos fazer? Estamos aqui nesse abismo linguistico que nunca vamos preencher de sentido, viemos por essa paixão não revelada que os mundos escondem. Estamos todos escondidos também. Diria individualidade burguesa, diriamos preservação do que ja doi demais. Olha, o mundo nos doi demais na maioria das vezes e tem segredos, esses também bastante doloridos que fazemos questão de trancafiar em alguma parte dessa imensidão que se estende nessas nossas miudas formas fisicas. Você pode perceber em mim, todos podem perceber em mim, até posso saber que todos percebem em mim, mas faço questão de esconder de mim, mesmo tendo a clareza de que todos percebem. Não sei, situação hipotética. Mas às vezes percebo as obviedades que são um mistério alheio. As vezes decido colocar-me para mostrar pedantemente a minha percepção, às vezes decido esconder o que percebo e sei que não deve ser claramente revelado. Não queremos ser revelados, perdemos a magia se nos revelarmos por inteiro para nos mesmos. As poesias, o que fariamos das poesias se tudo fosse obviamente revelado? Não existiria. O que seriam das paixões? Ah, as paixões! São sempre essas lacunas que aos poucos vamos preenchendo como itens até que se esgotam, pois perdemos a energia antes do todo ser preenchido. Deixa essa falta de informação para perder a completa racionalidade dos casos. Ja existe ciência demais por ai. Veria somente com toda magia os vôos dos passaros se a fisica não explicasse sua aerodinâmica. Olha, aqueles todos moveis velhos são o seu segredo. Não esta em Moçambique, esta na França e o acesso é sempre facil para o consumo. Mas aqueles todos moveis são as lacunas que me deixou. Não entendi, mas essa não compreensão atiçou o desejo de descobrir o porquê daqueles moveis velhos. Se perguntasse diria sucinto – Não me preocupo com acessorios. Perguntaria por que não se preocupa com acessorios e responderia provavelmente algo como: Sei la! E as perguntas não se cessariam, mas nunca preencheriam esse meu desejo de acabar com os mistérios. Se acabasse com os mistérios acabaria com a paixão, pois sabe que não viemos aqui a toa. Eu dou espaço para a incompreensão, mas você vai cansar-se de fazer perguntas sem obter o fim dos mistérios. Em toda a compreensão existe essa zona indefinida que nos mantem nessa distância por hora exagerada . Você perguntando e eu fugindo para deliciar-me com as todas suposições. Ja fiz muitos caminhos para entender os moveis velhos, ja deduzi historias e dei conclusões a elas. Você perguntou. Ficamos diferentes? As duas no mistério, cada uma ao seu modo. Mas as perguntas expostas ou não foram colocadas. Esta vendo a magia dessa coisa toda? Veio longe pra que? Para sentir os mesmo cheiros que sentia ao abrir a janela do seu quarto no domingo de manhã? Não, não veio pra isso. Veio para deixar, morrer um pouquinho e fazer dessa morte, um abismo preenchido por mistérios. Te revelo ao seu proprio desconhecido. Estou lhe jogando na cara o obvio que ainda anda tão obscuro pra você mesma. Evidente pra mim e um segredo pra você. Tem mais aventura do que caberia naquelas manhãs de domingo. Vejo. So tenho cautela ao lhe expor. As vezes ausento-me, sei que não quer ouvir tudo. Sabe que um dia escreveu-me que lhe dizia verdades até machucar? Engraçado, ausento-me tanto delas. Ausento-me por respeito, sei que não quer escutar sempre, ninguém quer verdades sempre. A negação vira. Não, imagina, esta enganada. E a duvida vem ao passo que as aguas quentes do banho caem-lhe à cabeça. Não posso revelar todos os seus mistérios, seria pretensão. Deixei de lhe falar para evitar as magoas. Entende que temos que evitar as magoas e as falas, as conversas podem interferir nessa delicadeza que deve estar presente em todas as relações? Onde aprendeu que todas as conversas solucionam os desentendimentos. Não tenho a estupidez de achar que sempre mereço o silêncio, mas todas as conversas não são necessarias. E os mistérios, entende? Esse silêncio é a enganação necessaria para as continuidades. Pode tocar com cautela. Individulaidade excessivamente burguesa? Não, magia das falas duvidosas das cartomantes, desse lusco-fusco que existe no espaço que separa uma pessoa da outra. Esse caminho é longe da obviedade de qualquer conversa. Você viu, quanto mais quis discutir para entender, mais teve necessidade da discussão. Esta esquecendo, perdendo-se diria, desse mundo sensivel, das percepções que não precisam ser verbalizadas para tornarem-se verdade. Sempre duvidei das falas de todos, mas um dia dei-me conta que precisava minimamente escutar a fala dos mais velhos, fossem letras ou iletrados, contavam com essa experiência sensivel que as palavras possivelmente não dariam conta. Como comunicam-se se não ha um vocabulario em comum, além, como se gostam se não ha um fio coerente de dialogo? Como podem se gostar se não se compreendem? Esta vendo, existem as lacunas que todos os significados não explicam. Não pode querer verbalizar e definir as almas se as palavras nunca darão conta de o fazer. Sei que um dia poderei entender tudo pelo cheiro, pela visão, assim mesmo como fazem os animais. Ando pensando tanto nessa irracionalidade que vem acompanhada por um mundareo de palavras. Ando definindo-me por elas sem que consiga atingir um terço do sentido. Posso dizer escrevendo sobre meus sentidos adormecidos, mas o que lhe chegara sera somente uma vaga idéia do que anda acontecendo em mim. As aguas quentes que me envolvem e acalmam-me vai ser sentida por você somente ao deparar-se com essas mesmas aguas. Não adianta esforçar-me para definir esssa calma que sinto se não se jogar nessas mesmas aguas. Esta vendo, como rasga esse tecido espesso tão bem fabricado com algumas palavras? Vai sofrer se tentar todo o entendimento. Não se rasgam assim facilmente. Poderia tentar os acidos, mas causariam queimaduras. Tem coisas que devem ser deixadas quietinhas, um pouco de molho em agua doce para que lentamente se abram, rasgando-se sem esforço dolorido, entende? Mesmo assim, ferida exposta, aposto que lhe faltara a conclusão final. Digo: a ferida esta exposta, fresca, encontra-se fragilizado. Alguns, garanto, nunca deixarão a aproximação, preferem os mistérios que os separam do outro. Ja te disse que é imensamente dificil ser humano? Acho que não compreende essa dificuldade de ser humano porque pra você, sê-lo é tão simples! Querida, não queira a mesma humanidade que vive para os que lhe rodeiam. É essa a forma do mistério perverso que faz das relações um constante desafio.
Escrito por annacbt às 18h28
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Bonachão e falico, aprendi com ele. Achava palavras dificeis, jamais escutadas. O dono do restaurante, um italiano bonachão, a torre que crescia em direção ao céu, torre falica. Entrava nas manhãs de sexta-feira com suas camisas xadrez surradas, um pouco grunge, um pouco rocker decadente. Deveria ter seus 32 anos, ficava em cima do meu irmão para que soubesse mais informações que viria do amigo em comum. Não me lembro ao certo se foi de cara ou se demoraram algumas aulas para que eu estivesse completamente obsecada. Chegava com seus textos digitados as pressas, gesticulava sem parar e tremia aquelas mãos brancas que ficaram tão vivas na minha memoria. Era jornalista, minto, fazia jornalismo na universidade da cidade, tinha estudado em São Paulo, feito algum curso de cinema por la. Tinha jeito de quem vinha mesmo de São Paulo, deveriam ser as botas rusticas ou as camisas xadrez, não sei, tinha ares de quem vinha de São Paulo. Bonito? Não, bonito era o irmão, o qual anos apos iria encontrar pelos inferninhos paulistanos. Sextas-feiras eram especiais, esperava ansiosa para que entrasse naquela sala de aula. Esperava a semana inteira, entre as entediantes aulas do Card, as maçantes aulas do Harley, as longas aulas do Alcidez. Espera João Paulo entrar ainda meio bêbado das noites de festas universitarias para tirar-me do tédio da semana. As vezes não aparecia, o que me deixava furiosa, ia falar com a Dri : Liga pra ele, deve ter perdido a hora, mora tão perto, pode chegar em 20 minutos. Liga para ele, Dri, o Willian pode não gostar e despedi-lo. Ela me consolava e dizia que ja havia ligado e que o encontrava completamente bêbado. Eu sabia, meu irmão me contava, todos nos sabiamos, não ia na aula porque tinha problema com os excessos, enchia a cara – tinha problemas com droga, gostava demais de cocaina para dar aulas nas sextas-feiras de manhã. Quando chegava, percebiamos que estava bêbado, cheirando à cigarro, cheirando à balada. Ninguém ficava para ver suas aulas, somente eu e minha amiga, eu apaixonada e ela obrigada. Fazia com que assistisse às aulas dele. Pedia por compaixão, morria de do. So ficaria eu, não por motivos de qualidade, mas por paixão. As garotas talvez sejam levadas ao rock ou pelo irmão mais velho ou pelo amor. No meu caso foi por ele, queria saber do que gostava. Escutei Creep. Caralho, escutei muitas vezes Creep. Um CD inteiro gravado com Creep. Radiohead era Creep, Tom York era ele, eram parecidos, eram maniacos depressivos. A matematica, a fisica, a gramatica, tudo ali havia perdido o significado, so queria saber dele, controlava o meu tempo entre testes de vestibular e o britpop que aprendia por ele. Queria saber de geografia, historia, musica, cinema e tudo o que pudesse me ligar a ele. Economia? Não queria mais saber de Economia, queria entrar em Jornalismo, queria fazer o mesmo curso que fazia, queria saber das mesmas coisas que sabia, queria poder sentar numa mesa de bar e tomar um puta porre com ele e dizer minhas imaturas opiniões sobre o MST. Via-o do outro lado do bar, aquele na baixa Bauru, no inferninho antigo la do centro e a minha unica vontade era poder tocar naquelas mãos palidas que tinham tanto significado. Ainda era tão menina, estava tão deslumbrada por aquele amor que me levava a querer conhecer tantas coisas. Nunca sentei na mesa de bar com ele, nunca soube a testura daquela pele meio flacida que via suja de giz. Por coincidência ou inclinação a vagabundo mesmo, encontrei parte dele naquelas noites de porre com o seu irmão em São Paulo. Eram tão parecidos em suas diferenças, um meio Tom York e o outro Liam Gallagher. Mas as mãos eram as mesmas, o jeito de segurar o cigarro, o aspecto meio decadente - não sabia ao certo com quem estava – se um ou se outro – no meio imaginario eram o mesmo. Associava-os e perguntava com insistência por João Paulo, ele me respondia com compaixão, parecia que cuidava aquele irmão como se cuida de tesouros. Estavamos numa confusão danada. Eu era quase seu irmão na versão feminina, dizia as mesmas coisas que ele poderia dizer, acho que queria impressiona-lo pela familiaridade. Os alunos la do cursinho riam dele, eu tentava defendê-lo. Eu o entendia, não tinha lido Marx e essas porras todas de teoricos de esquerda, mas o entendia. Defendia-o e concordava com a sua insistente vontade de nos falar sobre utopia. Na classe, o desespero dos alunos era pelas provas de vestibular, o meu no começo do ano, também era, mas quando o conheci, aquele conhecimento de apostila de cursinho pré-vestibular, não fazia mais sentido. A merda os testes de vestibular, entendia que o conhecimento superava o vestibular. Eu precisava pensar o mundo como pensava, queria ler a Ilustrada e saber de musica, queria saber das revoluções, do italiano bonachão, do predio falico, das notas perfeitas de Tim Maia. O vestibular ficou tão pequeno perto daquela imensidão que se abria. Obrigava as minhas amigas a frequentarem o Pier House, o Wolverine, o Armazém, sei la o que mais, as festinhas de maconha da Unesp. Queria estar perto dele de algum jeito. Sabia de sua banda, era o vocalista doidão que ninguém levava a sério. Esquecia as letras, recitava poemas, colava os botões da camisa em suas casas erradas. Lembro-me do irmão, ainda nessa época, guardando-o como pedra rara, como bibelô de porcelana. Era fragil assim como eu também era. Ficava perto dele para protegê-lo. So eu conseguia admira-lo. Eu e seu irmão. Quando nos encontramos em São Paulo anos depois, eu ja nem tão fragil assim, nem amando mais Creep e Belle and Sebastian assim, nosso unico assunto, aquele que mais nos agradava, era João Paulo. Ainda queria saber como estava, queria saber sobre as drogas. Parou? Vi que ainda cuidava daquele irmão como um bibelô, sabia da sua fragilidade. Voltanto la do Outs, embaixo daquele toldo na Augusta molhada era eu quem lhe dizia coisas que poderiam ter saido da boca de seu irmão. Nesse momento dava aulas de redação, de argumentação de redação para um cursinho como João Paulo fazia ha quase 7 anos na ocasião em que lhe conheci. Não estava recebendo e estava numa dureza danada. Saia da minha boca coisa que ja havia ouvido da boca de seu irmão. Brigamos a noite toda e via que fumava porque não sabia o que fazer comigo e aquele monte de argumento aos quais não tinha resposta. Meio bêbada ainda não sabia com quem falava, era tão ligado ao irmão que sentia desabafar a ele o que deveria ter desabafado para o irmão. Estava confundindo as coisas, estava confundindo as mãos. Augusto fumava insistentemente porque não sabia reponder àquele encontro tão familiar. Sabia dele, sabia do irmão dele, sabia da casa dele, sabia de particularidades deles que estava presente, mas camuflada pelo meu segredo. Um dia, nas férias do cursinho, deixei uma rosa na portaria do prédio em que morava. Não escrevi nada, foi uma rosa de silêncio, queria saber a sua reação. João Paulo não é o tipo do cara que recebe rosas. Era duro demais, sem charme demais para ser do tipo que recebe rosas em casa. Nunca me esqueço, e por que não? O assunto da aula. O amor! Nunca soube se era coincidência ou sabia que eu existia la na sala. Ele dava aula de porra nenhuma, diziam que dava aula de porra nenhuma. Mas para mim, era quem falava de amor, era quem falava de coisas sérias, era para quem a aritimética não fazia nenhum sentido sem o amor. João Paulo falava de amor eu era a unica que entendia. As cabeças ali precisavam escutar sobre as estatisticas de candidato por vaga no vestibular e eu queria escutar algo de verdade - Fala do amor – era sobre o amor ao mundo que esse professor no limiar do ridiculo falava. Nem lembro ao certo o que disse sobre o amor, mas lembro que se preocupou em dizer sobre o amor. Não havia me enganado por quem me apaixonava, não havia errado de irmão. Eu e o outro não duramos 5 encontros, umas mesas de bar, umas conversas desencontradas sobre sistema de saude, umas discordâncias sobre bandas – Não gostava mais tanto assim de Creep, não gostava mais tanto assim de Belle and Sebastian, não entendia mais a ternurinha das bandinhas inglesas, Biônica era um puta porra. Queria ouvir coisas que faziam parte da minha realidade, escutava Garotos Podres, Racionais, Colera. Não era mais a garota dos vestibulares deslumbrada pelo professor doidão. Não duramos 5 encontros porque deve ter vista que precisaria, assim como fazia com o irmão, proteger-me daqueles que viriam com merdas nas mãos. Falavamos de amor em meio a cinematica, em meio às mitocôndrias e complexos de Golgi. Precisaria proteger-me das merdas que ouviria. Acho que percebeu que mesmo anos apos os encontros matinas das sextas-feiras com João Paulo, eu continuava com partes dele em mim. Menos por admiração e mais por compaixão, percebeu que seriamos agora dois a quem seus olhos deveriam ficar atentos. Não aguentou, não aguentei, tinha confundido os irmãos, discutia naquelas mesas de bar como deveria ter discutido ha 7 anos. Não eram o mesmo, eu não era a mesma, não deslumbrava-me mais com os discursos que viriam de João Paulo. Ele havia ficado como inicio, como impulso de uma trajetoria que seguiria sozinha, talvez mais rigorosa, mais sistematica, mas não menos apaixoanda.
Escrito por annacbt às 14h39
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Volto ao meu lugar, mansa, caminhando sozinha nas manhãs solitarias de Paris. Assim que me entendo. Vendo o mundo, sem planos coletivos. Não sou a dos planos coletivos, detesto os trabalhinhos em grupo, detesto as vizinhanças simpaticas. Volto a esse lugar do caminho independente. Mamãe e eu, decobrimos que temos os mesmos interesses nesses ultimos tempos. Decidimos ver o sol pelos raios refletidos. Andava não me reconhecendo por esse amor coletivo que invadia sem permissão. Perdia o meu outro coletivo que é tão meu. O mundo é minha coletividade. Vê-las na solidão não anda me perturbando. Decidiram assim e devem ser mais felizes com a decisão. Escolhemos Querida, esse caminho que deve ser seguido solitario, disse que deveria ser solitario, que esses planos coletivos a dois não nos eram possiveis. Tentei os passeios ocasionais para substituir a recusa de uma paixão e so encontrei essa tormenta estupida dos que relutam pelos sentimentos bastardos. Acho que o dia em que me revi foi ontem, me revi no domingo metodico organizando os horarios das indas e vindas, sem pensar em mais nada. Quis a casa silenciosa como estava, os livros começados em cima da mesa e me revi. Via-me naquele silêncio e aceitava com calma o que não aceitava ha meses. Não sou a da coletividade, não essa que me leva para o lar aconchegante e protegido. Ando em tempo distante, revendo a trajetoria escolhida desde então. As epifanias atrapalham a vida e nos tiram dos eixos para não sermos nos por um periodo de tempo. Não va procurar os romances nas ruas, os unicos que aceita são os da ficção. Meninas andam se machucando por acreditar tanto nessa coisa aparentemente coletiva tão idealizada. Eu por outro lado, ando apoiando-me naquilo tudo que havia esquecido. Ternura perdida. Não, ternura reencontrada ao modo que sempre procurei. Ternura dos livros, do conhecimento. Na Bahia posso encontrar meu espaço, la tem o mar, deve também ter um quarto com duas janelas, uma que da para a rua e outra que da para o mar. Os apartamentos devem ser mais espaçosos por la, os alugueis mais baratos, tem o mar e eu ando precisando tanto estar perto dele. Nem que não entre na agua, não gosto de banhistas pelados, mas quero ver o mar como a sempre possibilidade de chegar a algum lugar distante. Não quero ter essa coletividade, entende? Tão dolorida, não a aceito. Não me reconhecia desse modo, nessa submissão que somente as mulheres parecem ser capaz. Desculpe, não tenho velocidade para algumas coisas. Devo estar magoada e não consigo falar, não consigo nunca a comunicação obvia. Sempre esses textos, como uma Madalena tola, sempre essas folhas perdidas para aliviar esses dramas aos quais não consigo dar forma, sempre esse n’o me atormentando. Mas também, ele tinha razão, não vale a pena as conversas, o prolongamento de frases sempre interrompidas para não sair coisas demais. Brigas são às vezes continuidade, não quero a continuidade, prefiro esses nos de gargante a brigar para ajeitar o que desandou. Eu ando de volta, sem essas buscas femininas que nos enfraquece tanto. Pode ser dureza, vai endurecer, Carol. Vou prestar atenção às durezas. Não nego o amor e as maluquices necessarias para a sua realização, so não consigo me ver nelas, entende? A minha agilidade é outra, esse tipo de amor nunca foi prioridade. O mundo pega fogo, a Kate Moss acontecendo, o Haiti uma desgraça e eu querendo saber e estar nesse mundo de forma que sempre me vi, assim, centrada em mim, nas minhas andanças, não me reconheço de outro modo, sou a das andanças, das reclamações, do descomedimento. Andei tão comedida, não sou a do comedimento. Tudo anda fazendo mais sentido nesse momento. Clariaram as coisas numa manha dessas silenciosas que ando tendo por aqui. Estou bem sim. Posso não parecer, mas me vejo desse modo, rindo periodicamente, sem sair dessa organização que impus para viver essa coisa tão feminina que é o amor pelo mundo. Desse modo, não posso viver, não sei viver esse amor que as mulheres mesmo errando insistem em viver. Eu não posso e não quero. Onde colocaria a minha racionalidade. Esperam de mim frases tresloucadas, velocidade para saciar o que não vem da minha racionalidade? Desculpe, não posso. Por isso que dançamos tão diferente, em outro ritmo. Sei amar talvez como so os homens sabem, cheia de cautela. Que estupidez, e eu entendo de como os homens sabem amar? Eu quero amar a rua, as minhas duas janelas e as coleções de moda do entra ano e sai ano. Não saberia viver em meio a tanta divisão. Retomo métodos que havia esquecido. Vai caminhar, Carol! Vai para as aguas, espera o verão e vai descobrir novamente as ruas. Ama as ruas e é somente nelas que se entende. Em Salvador as ruas devem ser como as daqui, às vezes muito pequenas, estreitas nos lugares velhos e algumas largas para a passagem dos carros, estilo avenida. Pensei muito em explodir, criar um auê, xingar, chorar de raiva, mas por fim, a minha decisão é sempre o tempo. Disseram-me que com o tempo tudo se acalma, as coisas correm para os lugares de melhor encaixa, vão ganhando as suas habituais formas. Essas duas janelas, esse silencio que so os carros distantes podem estabelecer. Corri para o meu lugar e se não xingo, não berro, não digo, é porque desisti, mas desisti pois orgulhei-me do que descobri. Não saia dos eixos como pensava, retomo-me por inteira, livre, procurando os planos distantes que não são coletivos. Decidido, é Salvador a cidade. Deve ter apartamento com quarto de duas janelas, uma para a rua outra para o mar. Preciso ouvir os carros. Maluquice, as pessoas procuram o silêncios, mas eu preciso dos carros, do movimento para ganhar a segurança que a minha solidão esta sendo acompanhada a distância. Mas tem que ser a distância, é assim que entendo a companhia. Olha, eu levei alguns meses para me retomar. O bom é que soube te amar do jeito que me ensinou. A gente vai se encaixando à velocidade do outro, eu me encaixei bem a sua velocidade. Sei que gostei de você desse jeito masculino como não esperaria de uma mulher. Eu não posso amar com a subordinação das mulheres, não sou a da submissão prolongada. Tentei para dar a você o que sabia que buscava - amores tresloucados das mulheres que se perdem. Eu, ao contrario, amei na mesma proporção que você. Permitiu que eu fosse até um ponto, e fui exatamente até o ponto que me permitiu. Respeitei os seus limites, te amei como um homem porque amei como falou que eu deveria te amar, com limites. Eu, ao contrario das outras, não amaria você de um jeito muito feminino. Desculpe, mas ir correndo até você nas praias, nas baladas, te caçando de manhã. Não posso, não sei amar como mulher. As nossas velocidade são de origens diferentes e as suas reclamações seriam sempre quanto aos tempos. Quer que te amem desse modo feminino que eu não conseguiria. Frieza? Não sei, frieza seria se não existisse amor em mim. Mas ha amor em demasia, amo demias as ruas e o mundo para sujeitar-me a ama-lo como gosta de ser amado. Não seria menos amor, mas seria amor racionalizado mais parecido como amam os homens. Precisa de alguém que se centre em você, mas depois, talvez não ira respeitar quem se centre em você. Eu nunca poderia deixar-me sem esse centro que são as ruas, essas duas janelas que me fazem olhar por duas perspectiva. Você nunca entenderia que estaria amando assim como você. É inseguro demais para entender esse amor que poderia te dar, amor parecido ao que conseguiu dar a todas mulheres que amou. Precisa desse amor de mulher submissa. Você é muito devagar, Carol. Permitiu somente essa velocidade e não outra. Desculpe, mas esse amor descompassado que me deu e que me daria não permite nenhuma submissão, nenhum aumento ou desregulação das minhas velocidades. Vê, você sempre cobraria esse amor submisso das mulheres antigas. Desculpe-me, não poderia te dar esse amor. Talvez seja por isso que não brigo, não xingo, não desabafo – não acredito, entende?; Brigas são para ajustar os descompasso, mas entre nos, nada precisa ser ajustado. Mais uma caracteristica desse meu amor tão masculino. Não quero resoluções como exigem as mulheres, não quero conversas que ultrapassem as sempre do cotidiano. Não quero discutir a relação porque o que nos ficou foi esse carinho mutuo suficiente para as trocas cotidianas de experiência. Às vezes so esses ditados ridiculos de senso comum exprimem o que poderiamos dizer em poesia. Passamos, passamos como disse que passariamos. A incompatibilidade toda deve ter sido em relação às velocidades, somos assim, andamos em velocidades distintas. Precisa em demasia desse amor que somente as mulheres muito femininas podem te dar, eu, ao contrario, ando precisando somente dessas minhas duas janelas que direcionam meu olhar para perspectivas distintas. Aprendi muito bem esse amor de homem com você, aprendi e observei para que pudesse me proteger dessa recusa que viria quando percebesse que esse amor submisso, das mulheres femininas, não estava em mim. Olhei-me pelo seu olhar, deve ter sido domingo, deve ter sido ontem. Não consigo nem mais me ver como mulher ao seu lado. Perdemos os papéis, talvez sejamos so competição por posições nesse momento, por isso não brigo, não falo, não quero discutir, não tem o porquê o fazer. Desandamos, as coisas são assim, desandamos e por principios não quero te restituir. Vou a Salvador achar o quarto com as duas janelas e ganhar o mundo como o quero, assim, solitaria, ouvindo os carros de longe.
Escrito por annacbt às 16h13
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Um dia você olha e vê que você e seus amigos perderam o espirito punk. O telefone toca, uma noticia. Amigos recuperando o espirito punk, vem la da favela, vem la da Augusta. As bichas soltas convidando-me para os inferninhos. Em Brasilia, o polo punk forte sempre tentando no final de semana. Aqui por Paris, os que nunca foram punk querem escutar rock e ajoelhar na balada porque beberam demais. Os quartos acordam as vizinhanças proximas. Para o inferno as artes plasticas, moda é a unica arte que posso absorver no momento. Os temperos, os sempre temperos. La pela Italia a Florentina, em Amsterdã tem vida e eu nem sei o que comem por la. Tenho essas duas janelas, uma que da para a vida alheia. Acompanho os sonos, as horas e as putarias das coleguinhas que ainda não conheço e não faço a minima em conhecer. A outra, a que abro e faço questão de fechar quando a tristeza vem – essa é a da liberdade, a que da para rua. Por ela que me espiam. Anda fechada por esses dias, olhos demias, não quero. Mas é a da liberdade também. Contraditoria liberdade que esse periodo não punk – puta que pariu – Me leva para o rock, porra! Escolha da casa, sempre isso. Por que veio perturbar-me com essa historia. Nem tenho condições de ter uma cama, uma casa é demasiada pretenção. Carol, você precisa do Roberto. Não tenho pretensões, querida. Tive que ser assim, essa alma meio punk. Descobri as amiguinhas la na espilunca e ficamos assim, entre a Galinha Preta e as periferias. Cadê as pistas, Carol. Fabinho - liga para a cervejinha na Loca, vamos falar dos viados desfilando. Preciso dar risada. Chama a Jabiraca, a Carin, vamos falar mal de alguém. Pista virou restaurante japonês e eu virei as chatinhas amiguinhas das professsoras. Tudo bem, tem a Ildinha. Ildinha é a da pista. Ildinha deve ter sido punk, ainda é! Ildinha é meio podre, fuma tanto. O que esta acontecendo? Por que a gente se perde? Eu tenho medo dessa calma maldita dos velhos. Ainda sentaria numa sargeta, Carol? Traga o Chapinha e as porcarias todas que davam liberdade. Mar? Que imagem poetica esquecida. Liberdade me dão as ruas. Quero as ruas. Detesto essas proteções de vida saudavel francesa. Olha, não me deixem com essas frescuras de Omega 3 e Magnezium. A minha maior vingança é ficar bem na solidão. Me basto, essa é a merda que me faz adorar essas paredes que me separam das gentes. Posso andar sozinha por horas, ir e vir com o meu silêncio e os pensamentos que são sempre tão dispersos. Nunca dou lugar a eles, sempre tão longe. So penso o que faço quando perco a vontade de fazer revolução. O que se faz quando não se pensa mais em revolução? Nunca fui umas das que acreditou muito na vida burguesa e seus bibelôs, mas e agora que perdi até a possibilidade de fugir para qualquer budega onde pudesse caber. Não quero mais a budega e as minhas amigas não são mais punk. A gente escuta essas musicas punks, da vontade de sair gritando como antigamente, mas vê que ja não tem nem mais clima pra isso tudo. Umas andam tentando os rapazes mais novos para retomar a adolescência perdida, outras ja se entregaram completamente ao fato de terem que casar e ter filhos. E eu nessa confusão. Não me deixa longe de você, querida? Vou emburrecendo. Você sabe disso. Que medo de olhar o mundo com esse olhar limitado. Olha, admito, faço essas porras de trabalhinhos acadêmicos sem questiona-los; Estou escutuando o Pessoa, “técnico dentro da técnica”. Querida, fodam-se os trabalhinhos acadêmicos. Eu os faço acreditando que não são nada para essa carreira de vagabundo que escolhemos. Acho que é isso, Querida. Para não esqucermos a revolução temos que ser esses vagabundos que não possuem porra nenhuma. So assim não vou ter medo de perder. Que medo de perder esses aparatos que me financiam. Enfio o rabinho entre as pernas e a revolução por entre os orificios. Essa pausa é outra agora, pausa de revolução. Olha, é um tempo, acho que ando longe demais de você. Olha, estou so dando um tempo aqui. Quero ter raiva, saca? É a raiva que me move, tenho raiva mesmo, quero ter raiva. A carne esta impermeavel e não ralo em nada. Sem sangue e feridas, num conforto repugnante. Não estou aqui a toa. Querida, se deixar de ser punk revolucionaria perco essa coisa estupida de intelectualidade. Enfiar intelectualidade em todos os orificios. Que grande farsa, não? Intelectualidade é revolucionaria. Como entender de outro modo. Escutei uma dessas palestras estupidas ontem, estava tão longe. Mas eram tão patéticas as suposições sem suposições. Parecia tanta farsa que vi Ildinha dormir. Ildinha dormia, afirmava a sua revolução – quanta generosidade de Ildinha. Quantas suposições e intervenções estupidas. Deveria ter dormido como Ildinha. Mas fui atras de uma janela. Fui longe para as ruas. Eu ando pensando no que disse. Tem razão, na intelectualidade que escolhemos não cabem esses companheiros. O resumo, à solidão. Prefiro, sem correr para os cantos matando as carências. Desejo do corpo, isso vai. Estou tentando me conscientizar de que as coisas não se misturam. Talvez seja a maturidade. Tem esse desejo do corpo que não aquieta, mas tem a da alma. Parece que a da alma a gente tem que silenciar, é mais facil. Silencia-se para darmos conta da revolução, da intelectualidade e todas essas coisas em que quero colocar essa energia viceral que posso optar por colocar nos amores de alma. Decidi por não colocar viceras neles, talvez no corpo coloque, talvez não consiga controla-los, mas essas carências da alma. Dispersei demais nesses ultimos tempos. Aquietar as necessidades do corpo deve ser mais facil do que as da alma. Deve ter uma festa punk por aqui, daqueles tipo que acabamos de um jeito ou de outro no banheiro. Não vai tocar Replicantes por aqui, mas deve ter alguma banda londrina dizendo mais ou menos a mesma coisa. Pode ser que a festa punk vire restaurante em restaurante japonês em Saint Michel. Dificil admitir essa calma, dificil ver que nos colocamos no mundo de outra forma. Às vezes queria as espeluncas para saber que ainda estou viva do jeito que gostava de estar. Um showzinho do Lobotomia, uma imprudente jogação nos infeninhos fedorentos ou qualquer coisa que me faça pensar em outra coisa que não brindes regados à champagne e vinho de 40 euros. Onde estão as espeluncas por aqui? So preciso saber se ainda consigo encarar uma dessas. Carol, consegue virar a noite com cerveja vagabunda e coxinha requentada? Eu não sei se ainda posso. Devo ter perdido a alma essa coisa de alma Punk.
Escrito por annacbt às 16h12
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Acho que felicidade deve ser assim, deve ser como estouro de bolha grande. Estouro daqueles que espirram agua na cara. Explodi, explodi como aquelas bolhas improvaveis da infância. Com cuidado, preparo delicado, sopro lento para que as bolhas fiquem as maiores possiveis. Ver debaixo do nariz aquela pelicula fragil se alongando até o monumental estouro. Estouro, felicidade deve ser assim, estouro de bolha grande. É pelo amor que a gente sempre se descobre. Felicidade explode assim, a gente prepara delicadamente e num instante, como estouro daquelas bolhas da infância. Explodi! Nunca me faria uma parte dele. Seriamos companhias em jantares rapidos, meio fast food, praticos, entre um intervalo de uma aula e outra. Nunca me deixaria fazer parte dele, mas nos encontrariamos para conversar no trajeto da casa. Gastaria meu francês, você comeria e eu falaria insistentemente para que depois me corrigisse. Seriam melhores que as aulas de conversação la da faculdade. E além disso te faria companhia nos jantares fast food anteriormente solitarios. Detesto todas as coisas que ja foram inventadas. Iria se admirar com essas frases bombasticas no meu pior francês. Seriamos encontros de segunda-feira entre uma aula e outra, nessas lanchonetes juvenis em que se pede e paga pelas maquinas. Se quiser descartar todo o romantismo eu topo. Explodi assim, calma, como quem espera as aguas com sabão no rosto. Tudo tão rapido. A semana seria de segunda à sexta. Deve comer todos os dias nessas lanchonetes juvenis. Te acompanho. Enquanto come seu sanduiche lambuzado de catchup eu me eesforço para conjugar os verbos em seu tempo correto. Lembrei de Amor a flor da pela. Ando sem vontade de ver os filmes novos, queria rever os velhos, é mais certeza de agrado. Tantas novidades que os filmes, pelo menos os filmes, poderiam ser os mesmos. Os orientais são tão singelos, seria aqueles os nosssos encontros também, assim, singelos. Entre uma aula e outra, uma rua e outra. Não faria drama, charme, nem parte da sua vida. Seria diferente, tão desgastante as sempre comparações quando os espaços e as linguas não são mais as mesmas. Ando não comparando. Pra que comparar se é tudo tão novo. Sem medir valores, é tudo tão novo que reconstruo até mesmo os valores. Sabe, eu sempre achei que deveria confiar mais nas pessoas que fumam, que se empanturram de café e enchem a cara. Daria mais credibilidade a elas. Talvez quisesse ser uma delas, fumar e ter o cafezinho ao lado como sempre companhia para uma boa reflexão. Ildinha fuma, bebe café mesmo quando ja esta gelado e se embriaga de vinho sem puderos com as hierarquias. Confio tanto nela, sabia desde o inicio que podia confiar. Deve ser do tipo que tem muita historia pra contar, sei que tem muita historia pra contar. As vezes queria sentar com Ildinha novamente numa daquelas mesas de café parisiense para um porre de terça feira, daqueles que nos pegam desprevenidos, que acontecem sem termos porquê comemorar. Queria sentar com Ildinha e ter a amizade de lhe perguntar coisas intimas. Deve ter tanto pra contar. Estuda viagens. Bebe, fuma e estuda viagens. Deve ter mesmo muito o que contar. Ildinha deve ter conhecido muitos homens também. Não demonstra, suas vestes são contidas, bastante sobrias, somente os acessorios a denunciam, são sempre fortes, são sempre pesados e carregam certa agressividade. De prata envelhecido, coisas que não se compram em lojinhas passageiras. Peças que devem vir de familia ou compradas em loja cara em viagem à India. Ildinha deve ter dormido com muito homem. Sei que dormiu, sinto aquela força vital que vem das visceras. Não resistiria ao Antunes, disse ter sido dificil deixa-lo no carro. Não ficou por medo, medo de ser mais uma. Não quer ser mais uma, não foi para a cama com Antunes porque saberia que seria mais uma. Resistiu por dignidade. Queria que falasse – Por que não foi pra cama com o Lobo Antunes?. Mas Ildinha tem muita dignidade para ser mais uma. Preferiu não ser do que ser somente mais uma. Se tomasse mais um porre conseguiria ouvir que não foi por dignidade. Ildinha explode como eu, gosto dela em excesso. Posso observa-la por horas, na verdade o faço. E o que me intriga são os acessorios. Se não fossem eles talvez não veria as tais viceras. Mas sei que não os escolhe a toa. Parece que posso ver sua alma por eles, sensação esquisita, mas os escolhe com muito cuidado porque sabe, assim como eu sei, que são a representação da força que tem na alma, dessa coisa viceral que outras pessoas também devem enxergar. Deve ter dormido com muito homem. Chamam-na de “louca”,” pilhada” - Puts, essa cheira cocaina. Tem tanto movimento. Ah, precisava de mais um porre com Ildinha para saber das suas historias. A nossa, naquela mesa de fast food, tão diferente das viceras de Ildinha. Tão morno, sem nenhum charme, sem nenhuma maturidade, mas tão prazeroso também. Você seria meu segredo. Mesas de bar incompativeis. Ildinha e você, mesa sem duvida incompativel. Seria meu segredo entre uma aula e outra, uma caminhada para a casa, uma conversa pratica em restaurante fast food. Porque preciso dessas companhias masculinas em meio às viceras de Ildinha. São esses instantes em que as bolhas improvaveis estouram. Perdem a fina casca e deixam de existir. Preciso dessa infima felicidade para existir, felicidade de bolha fragil que estoura, felicidade de segundos, dessas que desaparecem rapido. Não Ildinha, não fiz a tradução, não tinha cabeça. Estava doente, percebo que esta doente, anda tossindo muito. Ando mal da alma, Ildinha. Entenderia se dissesse que a alma anda doente? Ando mal de amor, entende? Não tenho cabeça para as traduções, essas palavras longe das minhas ja obvias. Não ando com cabeça. Entenderia, somente você entenderia que estou mal da alma. Se dissesse que um resfriado me derrubou, perdoaria as minhas faltas? E se te dissesse que a alma anda doente porque sofre por amor, perdoaria as minhas faltas? Ildinha, percebe? Essa é a burocratização do mundo, por isso que brigamos naquela mesa de bar. Burocratização do amor, entende? Aliviaria as minhas faltas se te dissesse que ando doente de gripe, mas me puniria se lhe dissesse que ando mal de amor. Entende Ildinha, é essa a burocratização do amor a qual estou também entregue. Por isso brigamos na mesa do bar, entende? Eu sou uma burocrata do amor e também perdoaria uma gripe, mas um mal de amor, acho que não. Duas burocratas, somos no fundo duas burocratas. Tive que contar os dias, cerra-los, não permitir que tomassem meu tempo. Não leu direito Amor nos tempos do coléra, não leu direito, Carol. Nem eu nem você, Ildinha. Deveria ter ido com o ele, foi perda de tempo, foi orgulho besta, teve medo de saber que seria mais uma. Deixou que fosse embora, não deveria ter saido daquele carro, Ildinha. Ficou com medo de que a visse sem esses todos acessorios, não fico? Perderia a agressividade da qual eles te preenchem. Ildinha, arrumei um amor fast food, entre uma aula e outra, daqueles que tiram a gente de todo o risco. Burocratas, somos assim, ou a solidão ou o amor sem risco. Ele era risco em excesso pra você. Não entenderia as minhas faltas, a minha doença da alma, pois não pôde compreender também as suas. Por isso a solidão, esses domingos debruçada nos trabalhos escolares que acabam preenchendo a lacuna que aquele não encontro lhe deixou. Não perdoaria as minhas faltas, como eu não as perdoaria também. Por isso a pressa, a necessidade desse amor que distrai, entre uma aula e outra, um trajeto para a casa, um erro de conjugação e outro. Ildinha, você gostou de Amor nos tempos do colera? Conseguiu compreender? Os franceses podem entender toda a passionalidade que me parece existir so quando ha essa falta material que nunca deixa a vida completa sem os amores? Aqui amor é ainda mais secundario, ternura quase inexistente, jantares praticos entre um intervalo e outro. Devo encaixar-me melhor aqui, lamento esse meu excesso de pratica, a necessidade de cortar o processo dolorido que tem o seu sabor porque os dias não toleram as faltas. Mesmo velho, sei que disse que esta velho, esta mesmo velho, não o deixaria naquele carro. Ildinha, ele tem essa mesma força que emana de você, entende? Eu vejo, posso sentir em cada pagina virada. Sei que sente também. Como o deixou partir? Eu largaria meu amor fast food, entre uma aula e outra, uma coisa meio assim, longe de riscos, para ir com ele naquele carro ser apenas mais uma. Poderia ter ido beber um conhaque, era so uma bebidinha, como o deixou naquele carro, Ildinha? Não vi mérito nisso, não vi honra porque não quis ser mais uma. Devo faltar nas proximas aulas, ando sem cabeça para as traduções, essas palavras distantes que estou tentando a todo o custo dar sentido. Não irei às proximas aulas, Ildinha. Acho que devo fazer dele não esses intervalos entre uma aula e outra, quero que seja a propria aula, aquele lance de aprender pelo coração, entende? Vocês costumam usar isso por aqui – apprendre par coeur. Vou aprender pelo coração, dar significados verdadeiros a essas palavras, errar as conjugações por amor, entre um sorriso e outro, descobrir emsemble o que nunca poderia aprender com os livros técnicos de tradução. Ildinha, talvez suas viceras sejam somente esses acessorios pesados que carrega. As minhas estão na alma. Alias, os meus seriam somente os delicados, daqueles que confundem. Talvez seja por isso que brigamos bêbadas naquela mesa de bar. Talvez perceba mais do que você que esses acessorios são somente fachada para uma alma apavorada. Leu direito Amor nos tempos do colera? Não deve ter entendido nada, Ildinha. Eu, ao contrario, ao contrario de antes, não o deixaria mais sozinho naquele carro.
Escrito por annacbt às 10h50
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Ironias: Disse-me que o que lhe doia era o fim das saudades dele. Não era por ele que sofria, era pela certeza que ele ja lhe esquecera. Recuperada, lembra daqueles dias em que a Colombia deveria ser logo ali. Havia prometido, não falaria mais. Foi so conversa de dois minutos para esquecer a pilha de livros não lidos ao lado. Segunda-feira, os barulhos ao meu lado disfarçando a solidão, essa presença quase invisivel que me da uma ponta de esperança. As visões se alargando, os objetos tomando outro valor . A procura daquela musica que daria encaixe perfeito à emoção do momento. A garrafa de vinho comprada por estética, as ruas que escurecem e claream em questão de segundos, esses carros que estão mais longe do que costumavam estar. Dei-me conta do passado, so as musicas toscas da minha infancia me vem à cabeça para esses estupidos sentimentos. Meu, bem - um coração vermelho de chocolates vagabundos. Não olhem os amantes de longe, são mesmo horrriveis. Esperar as amigas para dividir aquele prato de coisas gordurosas às dez da noite e tentar sorrir nesse frio que corta, sorrir com as descontraidas conversas femininas. Ah, nesses dias ando tão feminina, essas coisas que assolam as mulheres quando quase chegam aos trinta. Uma compaixão uma com as outras, uma cumplicidade que chega quase para fechar o circulo entre elas e o mundo exterior. As unhas descascando de esmate vermelho exposta para que percebam a decadência que encontra-se também na alma. Por que não ama-las, é tudo tão charmoso, as coisas que se descascam. Ainda um gosto tão juvenil. A vizinha la do condominio engabelando o filhinho da amiga. Quanto bafafa, o reveillon e o quartinho onde a bixice foi revelada. Foi pro cafofo. Qual você levou? Eram identicos. Levasse os dois. Lembrou qual foi? As camisetas eram diferentes, mas eram identicos. Levou qual? La feline, na euforia, palco no chão, uma porrada de rockabilly, garotas de 40, topetudos de 30, as tatuagens reveladas de baixo dos casacos. Tudo muito fake. Eu gosto – tão viril. Cramps e Elvis nas paredes em cores, pés aos montes no banheiro, colagem tosca, robei um pé e levei embora. Naila era o nome da garota bonita de topete gigante – pai cantor de musica arabe, mãe professora de piano classico. Naila, 21 apaixonada por Cash. As vespas la na frente. Tudo fake – eu gosto. Aquele topete era horrivel. Horrivel ficaria sem ele. Era o charme. Ser fake? É o charme. É horrivel. Eu gosto. Não quero ser feliz e cafona, polpem-me. Prefiro o charme que esta ligado à sempre decadência e melancolia. Se para ser feliz tenho que ser cafona fico com essa minha melancolia e tristeza. Cafonice feliz, foi isso que escutei da Mi em relação à fotos achadas por acaso da filhinha de um ex-amigo que ainda deveria estar pelo interior. Mi, acha que ainda temos cara de feliz? Ah, a vida obvia. Ja prometi, não sei porque insisto em sair da minha vida obvia. Tão mais segura. Essa historia de filhos, viuvos, vamos deixar para os quarenta. Vamos para a Italia. Sempre disse que gostava da Italia. Vou aprender o verdadeiro sentido de TOSCANA. Sera que tosqueira vem dai?Tosqueira de Toscana. Vem dai? Não, descarto Veneza, haja romantismos – gondulas, operas , mascaras, Romeu e Julieta. Haja romantismo. Vou comprar pra Toscana. Você acha que vai encontrar o que por la? Rusticidade e azeite refinado. Deve ser mais calor também. Vai poder falar alto e descontrolar os gestos. Assistiu Beleza roubada? Ah, la deve ser a Toscana. Sempre me imaginei indo para a Italia escutando a Courtney Love no trem. Lembra da Liv Tyler logo na primeira cena do filme? Vi esse filme no minimo 15 vezes la no colchão da Augusta. Puta Carol, ta vendo isso de novo? As vezes acordo no meio da noite e sei que estou pensando em vc. Volto a dormir. E continua, guia de cego, reflexo da cidade, não para, não - vai lembrando, da sossego, não embola, pode fantasiar, mas calma, não amolece, e nem tenta, não vai gostar. O contrabaixo tinha que ser tão grande? Aprenderia o contrabaixo. Aquele som abafado me da uma euforia! Esse gosto pelas repetições, que coisa infantil – Je veux du lait. Mais de 15 vezes, Carol! Tão bonitinha a minha menina. Repito, cacete, gosto das repetições, tem mais intensidade, sabe? Fica mais poético. O seu vizinho não aguenta mais. Patético. É, patético. Segue. Me mostra pelo seu olhar aquela passagem? Alguns restaurantes que se encontraria poeira facilmente no pato com qualquer coisa. Bom preço, a gente nessa pindaiba pode. Sentaremos la, pedirei um vinho vagabundo – o cartão paga – joga para o outro mês. Pediremos sapo ou lesma, é fino isso por aqui. Vai pedir beringela, sei que vai pedir a beringela de novo. Acordei no meio da noite, revirei a barriga, cobri a cabeça, lembrei que lembrava de você e voltei a dormir. Sem informações, ostracismo de uma parte.Por que ainda ai sozinho, escuto tudo, sei que acorda e dorme, mexe na parece por alguns segundos, toma banho rapido e encontra os amigos no fim de semana. Tudo tão fake. Eu gosto. Gosta mesmo do fake?Gosto de cosmeticos, maquiagens, lakes, perfumes, tatuagens e tudo o que tira essa cor amarela da pele e o cheiro natural do corpo. Olha as minhas unhas. Acha que nasci de unhas vermelhas? Gosto do fake. Vou comprar as vitaminas C para evitar esses malditos resfriados que me derrubam. Acha que vitamina C em capsula é natural? Natural so casaco de pele. Por que estou falando de vitamina C, não era disso que queria falar. Desvia. Sera que cai nessa pista estupida de novo? Como sentar de cara limpa naquela mesa de bar? E as obviedades, sinto tanta falta do obvio. Sinto falta de você, mas todos os meus esforços, os mais patéticos, as tentativas de encontros com franceses fakes. Sinto sua falta e tenho raiva de saber que esta no obvio, no calor, nas calçadas decadentes. Eu estou tentando encontrar aquela musica da infância que daria conta dessas pieguices todas de sentimento românticos. Era a nuvem com lagrimas, vazio no peito, saudade palavra triste, cabelo no paleto. Sera que so a cafonice da conta desses sentimentos estupidos? Tudo tão fake. Sera que ainda temos cara de feliz? Vamos para a Toscana descobrir as tosquices, vai se animar. Vai ver de onde vem esses nossos gestos descontrolados.
Escrito por annacbt às 04h46
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Ele sabia que iria morrer, colocou o travesseiro no chão, acomodou-se confortavelmente, organizou a casa para receber quem o encontrasse. Não quis nenhum tratamento e conciliou a ulcera crônica com a falta de coragem para o suicidio imediato. Foi a ulcera a desculpa para silenciar os tais ventos levantes. Estava louco, mas não dessa loucura de fim de lucidez, mas a loucura dos que deixam de ter prazer pela propria vida. A ulcera foi o suicidio pelo qual nunca seria julgado. Melhor pensarmos que havia morrido de morte natural, mais cômodo e confortante para as três filhas acreditarem em tal hipotese. Contavam as vizinhanças pelas entrelinhas, que a tal ulcera crescia e lhe comia por dentro, definhava com dores insuportaveis e negava os tratamentos. Sem armas nem cordas, havia deixado de lado todos os remedios indicados e voltara com as doses diarias de conhaque. Perturbei-me quando de volta para casa, descobri que havia morrido. Estava morto, jovem, sem netos, estava morto pois havia perdido o interesse pela vida. Organizou a casa, arrumou a bagunça para não perceberem que ja não estava mais ali, jogou as centenas de correspondências não lidas e acomodou-se no chão para que a natureza se encarregasse do suicidio. Era loucura, talvez estivesse tomado exageradamente pelos tais ventos levantes, negou-se à moderna medicina, evitou as visitas ternas das três filhas para que não percebessem a decisão que era sem duvida a da morte. Devo chegar aos domingos ensolarados e encontrar as portas daquela perdida sorveteria aberta. Tenho medo de que desista como desistiu Inacio, tenho medo dos tais ventos levantes que atacam-me e que podem também ataca-lo. Ando tão tomada por todos eles nesses tempos, aqui estão ainda mais perto, chegam ainda mais quente, os desertos estendem-se logo abaixo e sinto sua invasão. Se pudesse contê-los, fechar as janelas sem nem ao menos escutar a sua presença - é o lado inverso, acima, mas chegam tão forte. Saio as ruas e a cada encontro é uma tormenta. Tenho que digeri-la, perco a paciência porque muitas delas não as quero. Não quero saber de tudo, é essa arrogância humilde que faz com que escute bem cheia de interesse porque somente nessa contradição de necessitar e negar é que me entendo. Preciso ter todas as curiosidades que não tenho, é uma cobrança. As perguntas ininterruptas são para dar conta de informações que não me são de longe importantes – é essa elegância dos timidos. Mas e se dissesse que so me interesso pelo amor, se dissesse que so me interessam as coisas que são intimas, as historias em detalhes que as gentes escondem com vergonha. Quero saber do amor, entende? Pode explicar-me o que teve vergonha de explicar até mesmo intimamente a você. O meu interesse são pelos detalhes das almas, das incoerências da almas. Deveria ler os guias turisticos, são humanos também esses guias turisticos, são historias, é riqueza e voltaria com tal grandeza que enchem os olhos. Mas como não me amesquinhar nesse unico interesse que são as intimidades. Fiz historia em conversas cerradas, em convites de cafés que negavam os grupos. Onde ha mais de cinco as conversas são amontoados de informações perdidas. Os guias que se vendem aos montes são também os amontoados de informações que matam toda subjetividade das coisas. Como explicar esse meu desinteresse e pouca facilidade em fazer o recorte do que realmente me interessa? Queria saber das intimidades, aqui são tão distantes pois as relações são ainda todas tão recentes. Eu falaria das minhas loucuras num primeiro café, falaria, e se encontrasse correspondência estaria aconchegada pela familiaridade. De fato, encontro-me mais com muitas informações, uteis, porém, desinteressantes, informações de iténs, diagramadas em pequenos quadrados, 5 minutos de informação, nada de palavras concentradas das poesias, nada da intensidade dos ritmos aceleradas que despertam os sentidos, são informações curtas, objetivas, que não me causam nada, a não ser repulsa, que talvez seja pior que o nada. Não acompanho o ritmo do que se segue. Vou como bola de poeira leve nesse emaranhado de novas palavras, nessa necessidade de saber a usagem e encaixes que antes eram tão obvios. Às vezes queria que tudo voltasse a ser obvio, entende? Perderam-se as obviedades, distanciei-me da familiaridade como desafio, mas fraquejo e escuto os ventos levantes no longo lusco-fusco – entre chien et loup - nesse indefinido desesperador vejo-me a cada dia mais delineada, contraditoriamente, nessas indefinições que descubro mais a minha existência. Ando tão pouco interessada pelos nomes de praças e pelos museus da cidade. Contem-me por favor sobre o amor, contem-me historias que despertam as perguntas sinceras. Quero saber os detalhes para que possa imaginar o extraordinario no ordinario, o magico em meio a burocracia, o banal que pela intensidade do vivido transformou-se em épico. Sem teorias, quero saber os casos, essas coisas que se contam nos segundos dos encontros casuais no caminho do ponto de ônibus à casa. Sem didatismo, quero imaginar, dê-me pequenos elementos depois encarrego-me para recria-los. Desse modo coloco-me atenta ao controle da ulcera, das doses de conhaque, da intensidade que dou ouvidos aos ventos levantes. Essas pequenas sutilezas e segredos dos homens fazem-me distante desse movimento conturbado das linhas, das cores que devem virar numeros, dos centros que se alteram e transformam as logicas - não estou mais na Sé, agora o cruzamento se da em Chatelet – não é mais a vermelha é a 4, a verde não existe, são os numeros por aqui. A Africa do Sul se aproximou e Joanesburgo são as proprias trombadas pelo corredor logo de manhã. Ha tanta informação por aqui, tanto cuidado para não escorregar nos resumos das noticias sem conhecer suas minucias, ha tanto esforço para seguir as noticias que pode ser superficialmente entendidas pelos titulos. Não quero distanciar-me de uma das poucas coisas que ainda se conservam inteira em mim. Não vou aceitar escutar e conhecer somente o resumo raso das historias, não me interessam notas feitas para cumprir as normas escolares, quero que venham com profundidade, com as vergonhas, com as indefinições, com todas as dorer. Contem-me as sutilezas da alma porque nos guias ja encontro bastante informação que não me despertam o minimo interesse, itens que obrigo-me a ticar sem espontaneidade. Queria ter vontade de enumerar fatos, mas o quantitativo da vida é somente mais uma obrigação que faço sem grandes graças. So quero perceber, não é nada demais, é so pra mim, que esses ventos levantes estão sendo escutados também por outras janelas.
Escrito por annacbt às 06h35
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Tentativa estupida de dar lucidez para as desordens. Ando lembrando tanto dela, daquelas tardes de domingo em que a porta da cozinha encontrava-se fechada e a musica longe avisava o pranto. Eramos somente três, nos domingos reduziamos a dois pois tinhamos que respeitar aquele seu ritual solitario que me inquietava tanto. Queria sempre saber o que estava acontencendo, porque queria estar assim, tão distante da gente. Não conseguia entender aquelas musicas todas repetidas centenas de vezes, aquelas mesmas musicas repetidas e repetidas até cair no sono. Amoleci as durezas, perdi admiração pela rigidez toda que desenvolvi naquele cotidiano em que deveria ser forte para ficar ao lado dela. Precisava estar ali como cão de guarda para controlar toda a fragilidade que trazia o significado que dava para a solidão. Aquele quintal imenso interditado nos domingos porque queria estar so na rede para remoer as dores que lhe vinha pelo futuro desandado. Ficava quente, sentia o meu rosto aquecendo, as minhas mãos impacientes, era tanta inquietação. Não entendia, queria entender porque demorava tanto naquele quintal enquanto estavamos ali na sala. Queria que estivesse ali, afinal, era domingo e eramos somente os três naqueles tempos. Ela não vinha e as musicas infernais continuavam até o momento em que pegava no sono. Sabiamos que dormia porque o som parava, o toca fita no repeat deixava de rodar. Olhava para a cara dele e entendia que também ficava infinitamente aliviado pois agora dormia e silenciava aquelas dores. Não compreendia porque aquele exilio se estavamos ali. Queriamos ela ali, mesmo em silêncio, mas queriamos ela ali na sala que se encontrava tão vazia. Quantos anos para entender essa distância que tomava da gente. Quantas dores também vivadas para entender que precisava das malditas musicas no repeat. Ruminava magoas que poderiam ser terminadas com mais vida. Acho que não entendia esses momentos em que nos dispomos a colocar os cabelos para cima e um vestido de cor diferente das sempre habituais para estabelecer como ritual, essas quebras da continuidade. Tentando dar lucidez para essa desordem momentânea estabeleci rituais para que me tirassem dessa saga de ruminar magoas. Desculpe-me querido, mas precisei te apagar de onde pudesse emanar uma parca vida de ti. Foi mesmo como as cafonas novelas mexicanas, fiz o que disse que faria. Tirei o skype, o msn, o orkut e toda essa parafernalha eletrônica que pudesse me trazer de você uma minima vida. Disse que eu faria e fiz. Foi esse o ritual, foi esse o dia em que decidi colocar o vestido de cor diferente para simbolizar a quebra da tal continuidade. Não quero ruminar magoas, entende? Se aparecerem, ja sei que estou velha para os dramas, aprendi cedo vendo-a no exilio dos domingos enquanto existia tanta vida la na sala – não quero os exilios enquanto ha tantas ruas. Nesses dias so quero a ausência, negar a sua existência, partir ao radicalismo para evitar as mesmas musicas no repeat. No metrô, Nostalgie tocando Bob Dilan - I want you. E pensei em você, na historia recente, na minha resignação declarada e no amor que poderia ter te dado e que as circunstâncias barraram. Ando curiosa, você sabe, inquieta-me o fato de existir essas milhões de linguas que ouço por aqui. Mas ajuda-me com as dureza não permitindo nem ao menos as fantasia que preenchem a solidão. É pratico e sensato, devo ter me apaixonado por isso, pelas suas durezas que são também as minhas. Desculpe-me pela forçosa ausência, talvez sejam essas tais durezas, mas não podia ver nem se quer um sinal de sua existência para entregar-me ao meu deslumbramento com todos esses vocabularios desconhecidos. Não consigo a poderação, ja devo ter te dito, tenho um puta problema com as ponderações e os radicalismos são sempre as melhores medidas. Não quero mais saber sobre o seu cotidiano, sobre as andanças do final de semana, sobre o clima de São Paulo. Quero começar a dar sentido para palavras que não fazem ainda o menor sentido. Tenho curiosidade, você sabe, preciso entender essas sutis diferenças que as fronteiras proporcionam. Os dialogos intimos em linguas que estavam antes tão distantes, os tais temperos, a textura dos tecidos roçando na pele que não são como as texturas ja conhecidas. Desculpe-me pela nunca tentativa de ponderação e o radical rompimento de cotidiano. Fiz por mim, pensei em mim e quis ter-me aqui desse jeito solto como não me via mais resignada por esse amor a você. Pedi para que mentissem se um dia não aguentasse de curiosidade e perguntasse sobre você, pedi mesmo que implorasse, que mentissem – Nossa, não sei. Pensou que faria assim, ja entendeu que faria mesmo assim. Desculpe-me querido, mas as ponderações, os comedimentos - ainda não os adquiri. Sentirei um universo de saudades suas, mas aquelas palavras que ainda me fazem sentindo sacudio essas dores acentadas e pôs-me a tentar tirar o tal vestido do armario. Foi como se esse ritual doloroso matasse não as realidades, mas todas as fantasias as quais estava aprisionada. No fim, lendo as palavras daquela carta te agradeci por libertar-me de uma ficção que estava até mesmo pra mim, mal formulada, incoerente e cujo roteiro distorcia todo o desfecho. Te carrego comigo, infinitamente comigo e sempre lembrarei de você como aquele que pela generosidade revestida de dureza, fez-me conhecer dialogos que talvez nunca conheceria. Porém, para isso, com toda essa minha falta de ponderação, tive que impedir a entrada dos minimos sinais da sua existência em minha vida. Desculpe-me, mas creio que ja soubesse que não agiria diferente.
Escrito por annacbt às 21h30
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