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Depois da tal pausa, ponho os pes no Brasil e revejo a vida. Alguns dias vegetando na frente das merdas todas da televisão, uns minutos disperdiçados com os planos para vereadora em 2012, umas cervejas nos balcões dos decadentes bares da Augusta e a vida voltando morta ao normal. Dia 7, religando o celular, limpeza nos antigos nomes, antigos caras – Armando, Marcelo, Renato, Fabricio – Deseja excluir esse telefone? Sim, pra que guardar o numero desses vagabundos todos, escolho pelos pinguins dos elevadores do Ministerio Publico agora. Mamãe disse para casar bem. Pinguins flacidos, barrigudos e donos de adoraveis contas bancarias que aos 37 morrerão de inferto decorrente da rica dieta alimentar que a boa vida proporciona.  Ah vida, fim  a todos os meus vagabundos, fim de todas as tosqueiras ...Tentei mesmo assim retomar Johnny, fiz esforço, comprei cartão telefônico, deixei recado, mas desisti. Johnny estava palpavel demais, perto demais e eu estava solitaria demais para reve-lo. Pinguins levam a gente para o Mexico, vagabundos para o Serasa. Mamãe, adoro os tatuados do balcão. Voltei ao cafofo, 28 anos, um colchão, um quarto de menos 3 metros quadrados e muitas lembranças –Ricardo.  Deus, vou morar numa casa com plantinhas verdes com um bebe careca e cabeçudo? Bebes são desculpas boas pra gente chegar a tal reta que é o caminho mais curto pra não sei aonde. A gente se entedia, pensa que tudo perdeu a graça e tem um bebe. Se distrair limpando merda de criança para não pensar na grande merda que também é a vida. Deus, dai-me um bebe careca e cabeçuda para eu sair da vida-morte a qual me encontro. Limpar merda para me distrair, acordar a noite para ficar cansada...Sabia que o Rodrigo pirou? Tenho medo de pirar também, fico pensando que ninguém tera coragem para me avisar. Até hoje fui a engraçadinha cheia de confusoes, a istérica cuja preocupação momentânea é  o seu proprio indice de risada, a louquinha que aparece com umas idéias meio constrangedora às vezes. Tenho medo, sabia? Estou tentando viver sem os dramas, correr na Paulista às 6 da manhã, casar com um promotor, ter um bebe careca cabeçudo que cague bastante. Estou tentando me ocupar com a merda de um bebê, com atividades repetitivas que me fazem anestesia, eu tenho medo de pirar. Eu pirei uma vez, sabia? Aos 15 me entupi de gorduras, doces, porcarias todas porque estava pirada. Ninguém me avisou. Tenho medo de não me avisarem. O Rodrigo, aquele que falava de Glauber Rocha, Bergman e esses malucos todos do cinema, pirou. Anda pela Augusta proclamando palavras que ninguém mais leva a sério. Tenho medo, sabia? Eu descobri que sou chacota entre os colegas por causa dos trocentos planos que mudam a cada semana. Estou dizendo que preciso de um promotor, de um bebê que cague bastante pra me ocupar e parar com essas idéias tortas de que existe centenas de formas de se viver.  Max, porque a gente não casou? Eu iria gostar de Sidney – limpinha e quentinha – perfeita.  A Augusta sempre foi tão decadente? Eu não lembrava, fiquei confusa, fedia mais do que eu lembrava, tinham mais tatuados do que eu gostaria. Eu tambem fedendo. Largar a faculdade, a Sorbonne, a Madame Penjon pela Repografia do Ministério Publico, maldita Repografia, maldita liberdade, maldita vida. Três oitão na cabeça, morte pra mim. Estou fedendo inteira com essas historias todas, entrando na procura de um bebê que cague muito para me ocupar dessa maldita escolha. Fica calma Carol, vc tem outras atividades, o sobe e desce da Augusta, os bares, a vida média e repetitiva que la da França você ficava proclamando. Max, me leva para a Australia? Existe o não lugar por la? Quero o vacuo para esquecer, o bebê que caga bastante. O Fabinho andou contando sobre umas historias dos ativistas que a sua professora andou ridicularizando. Ela criticava os que sempre devem se ocupar de alguma coisa. Deus, dai-me alguma coisa para me ocupar. Um bulldog francês que cague bastante, pode ser, eu compro uma Luis Viuton falsa na rua Direita para enfia-lo. Depois de largar a Madame Penjon o que me sobra é o ativismo, as atividades repetitivas e o fedô da rua Augusta.



Escrito por annacbt às 09h15
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Por que vc sai assim correndo ? Ja entendi tudo, Carol. Desculpa, eu nem sei o que dizer, escolhi por mim, esqueci de pensar em você, eram so três ou quatro dias a mais, e além disso, nunca achei que as pessoas sentiriam a minha falta nos aniversarios, por isso nunca ia mesmo. É normal achar que tudo bem partir as pressas, a gente poupa um drama, você entende? Meu pai partia sempre também e eu tinha que me acostumar, eu chorava também, me escondia, corria para baixo da cama no escuro para chorar, você sabe que choro mais do que você imagina? Você sabia que andei à Saint Lazarre aos prantos? Minha mãe nem me acordou da ultima vez que ele foi embora, viu? Eu ja estava acordada, mas não sai do quarto para falar tchau, so escutei. A gente ainda morava no Camélias, acho que essa era a terceria partida, eu não aguentava mais, era sempre a mesma coisa, era duro, viu. Esta entendendo que é dificil para mim as partidas? Da primeira vez eu era muito pequena e ele dizia que traria o mundo para mim e eu acreditei  e fiquei contente, achei que conheceria a Diney, ele disse que eu conheceria. Quando te deixei na Gare lembrei dele, você entendeu tudo, você disse que entendeu, estava falando dele, não estava? Você promete ficar bem sem mim aqui? Olha, ele nunca chorava, e nem eu. A minha mãe chorava muito e eu achava que não poderia ficar triste também na frente dela. Meu irmão estava feliz porque ele ia, mas deixava promessas de trazer o que a gente nunca teve, falava que iamos estudar em colégio particular e ter bicicleta de marcha. Ele sempre foi tão bom, queria dar tudo para gente, e a minha mãe mesmo não concordando, deixou ele ir. Acho que na verdade ele nunca ficaria mesmo, acho que somos parecidos nisso, você me disse, lembra? Carol, você não gosta de problemas. Acho que ele também não gostava, era facil ficar longe e não ter a preocupação dos afazeres de um chefe de familia, era so mandar dinheiro. Sei que ele também detestava la, mas talvez detestasse, mesmo bem silencioso, qualquer lugar. Ele também não gosta de problemas. Você entende que quis te ajudar e sabia que seria problema? Você sempre acha que eu nunca me preocupo. Eu estou quebrada por dentro, estou fracassada, sabe? Eu estou deixando os problemas, estou deixando para começar outros e vocë não entende isso. Eu prometi que seria companheira sempre, mas não consigo, não sou boa com essa historia de amor, acho que ele também não era. Ele ia embora sempre, descansava, se enchia do Brasil e ia embora de novo. Eu ja te contei que depois da sua primeira partida a gente foi num aniversario? Era num salão de festa num bairro afastado la do interior, era a primeira vez que saiamos sem ele. Estava quente, e sabe, nunca me esqueci daquele dia, eu queria saber te explicar melhor. Era luto? Você diria que era luto. Acho que estava vazia por ele partir, mas ao mesmo tempo, ele ia para tão longe e tudo era tão novo. Ha 20 anos não era facil assim pegar avião e essas coisas todas. A gente era do interior, não conhecia nada, o mundo era o vizinho pegando a estrada com a carga da semana. Europa, Oceania, Américas...era tudo grande demais. Eu tinha orgulho dele, mas estava magoada, a minha mãe estava magoada, a gente estava sem o pai no aniversario de familia. Eu queria sair correndo, sabe? Eu ja te contei que sempre que fico muito triste quero sair correndo? Quando o Ricardo disse que partiria eu também quis sair correndo, andava rapido pela Paulista às 6 da manhã para a ansiedade passar. Essas coisas eu não conto, viu. Mas nesse dia, no aniversario, quis sair correndo também. A minha mãe sempre disse que queria ser cigana e nunca parar em nenhum lugar. Acho que ela não serviria pra isso, ela gosta das coisas tudo certas, do armario arrumado, dos cremes na pia do banheiro. Ela dizia também que queria ser artista de circo, mas não entendia porque ela falava isso, nunca poderia ficar no vai-e-vem. Você esta entendendo agora? Cresci escutando essas coisas. Ele partia, ela chorava, eu com raiva via a tenda dos ciganos ao lado do salão de festa do aniversario da familia e pensava que poderiamos viver assim também, eu queria viver assim. Eu queria uma tenda com tapetes para ficar aconchegante, eu não precisava ir para a Disney, queria que ele nunca tivesse partido. Você me entende que é mais facil partir do que ser deixado? Olha, eu tenho os traumas e você me faz tira-los do lugar.  Estou burbulhando traumas, burbulhei durante todo esse ano, tentando entender nesse tempo as coisas guardadas. Tentei essa retrospectiva a qual deveria ter deixado decantar mais um pouco. Paris não é pra mim, você sabe dos meus complexos. Eu fui longe demais e isso não se faz, eu me boicoto, não dou chance. Acho que você é assim também, viu. A gente conversa e conversa e parece que você nunca entende que te deixar é como deixar ele partir. Olha, a minha mãe precisa de mim, ela sempre precisou, eu estava la no aniversario e não chorei. So corri para ver os ciganos e ficar sozinha. Todo mundo brincava de pega-pega e eu queria fica sozinha, chorar na frente dos outros é feio, você não acha? Eu sai chorando por Saint Lazarre. Alguns olhavam para mim, mas como não os conhecia era a mesma coisa que chorar embaixo da cama ou na frente da tenda dos ciganos. Você vai ficar bem aqui, promete? Eu tenho medo de ter inveja de você, sabia? Tenho medo de deixar tudo isso também e depois, passados anos, lamentar a minha falta de coragem, lamentar que sai correndo como ele fez também. Você sabe, preciso de um companheiro e não consigo pensar na possibilidade de lidar bem com as barreiras linguisticas. Você vai ver, vai ficar orgulhosa de mim, vou me dar chance. Mas escuta, você continua, eu desisto. Foi sempre assim, eu sou euforica e não tenho a sua calma. Eu vou mudar o clima para você conseguir ficar melhor, você quer? O que devo fazer? Sabia que meu pai não gostou de nada quando chegou? Antes de partir ele ligou do aéroporto e eu estava no banho, minha mãe me gritou mas eu nem respondi porque estava chorando. Também é facil chorar no banheiro, porém tem o espelho. Não gosto das marcas do choro pelo meu nariz , viro a cara, sinto-me patética. Não queria que a minha mãe me visse chorar. Eu precisava ficar com ela, eu sempre estava com ela. Sabe, depois que meu pai foi embora acho que ela ficou meu esquisita, chorava todos os domingos escutando musicas nos fundos de casa. Bebia cerveja e trancava a porta da cozinha para a gente não ve-la. Acho que ela sentia muito a falta dele. Nasceu para ser casal, você a conhece, sabe do que estou falando. Toda essa saudade me deixou assim, todas essas tardes de domingo me deixaram assim.  Um desses dias deu vontade de escutar uma daquelas musicas que ela escutava insistentemente. Ela era sempre a mulher sozinha com as crianças. Ela estava meio esquisita, brigava à toa, chorava, bebia mais cerveja do que eu achava que podia. Não entendia nada. O Corcel II velho quebrava sempre e a gente tinha que ir na oficina mecanica sem ele. Ela chegava em casa e chorava, ele perdia o emprego e parava de mandar dinheiro, eu continuava a estudar na mesma escola, ela fazia dividas porque nunca soube bem controlar o dinheiro. Entende que a França é longe demais de tudo isso? As pérolas não são dadas aos porcos, eu posso ser uma burocrata e viver sem restaurante granfino, você não acha? A estabilidade que posso ter agora sendo uma burocrata é inversa a todas essas historias de vai-e-vem pelas quais passei, tenho que adaptar-me a calmaria dos dias repetidos, com o fim do expediente, do telefone tocando, dos servidores publicos, tenho que me acostumar. Você esta vendo que aqui é pérola demais para mim, são limites demais e a minha petulancia não permite. Sou orgulhosa, turrona, sei que é tolice, você me diz que é tolice, eu preciso da minha acolhedora simplicidade e Paris foi demais pra mim, a Economia foi demais pra mim. Quando cheguei em Campinas deparei-me com todos aqueles burgueses de colégios paulistanos nos quais se pode aprender pintura japonesa. Não consegui, eram as pérolas e eu o porco da jogada. Ele não conseguiu colocar-me na escola particular. Ele nunca gostou da contabilidade, era exato demais para seu universo fantasioso. O negocio dele eram as guerras, e vc sabe, o meu são também as guerras, mas as que sejam feita pelo povo, em prol da igualdade. Você sabe porque sou assim? Ele nos deixou para que fossemos para a Disney e eu não precisava disso tudo. A gente era criança e as guerrinhas com bolinhas de barro também divertiam. Você estava vendo que cresci achando que podia mais do que podia, eram as ilusões, as barreiras territoriais que ele ia rompendo em mim. Ele nunca achou que o mundo era grande demais. Os aeroportos ainda me incomodam, são as partidas, o territorio das pessoas que nõ podem errar, sei la, sensação estranha. Aeroportos tem uma impessoalidade detestavel. Não tenho medo de avião, não é isso, mas se fosse resolveria com whisk. Eu tenho medo das gentes, da ausencia de historias divididas. Aeroportos falam sempre inglês, ninguém se conhece, ficamos com medo do estranho, temos as bagagens e para mijar temos medo de perde-las, entende? Nessa minha confissão você me diria que eu poderia ir morar da proxima vez no interior, ja estou preparada, mas sabe, eu sou como os aeroportos, por isso nos estranhamos, os problemas são seus , os problemas são deles, não compartilhamos problemas, sou essa e você sabe, tira as minhas magoas do lugar, sou como a impessoalidade dos aeroportos, aquela que não gosta de problemas e nos aeroportos os problemas alheios são so alheios e os meus problemas são so meus problemas. Você entende agora porque não aceitei o almoço, a ajuda, a gentilieza daquele frances? Ele fez-me mais gasta, e você me perdoa se não der essas chances todas que você acha que a gente tem que se dar? Eu não conigo mais, estou gasta. Estou decepcionada, sabe? Minha mãe dizia para  a gente não confiar nas gentes, ela podia dizer isso alias, ela é ingenua no fundo, eu lhe digo que ela é ingenua, sempre a roubam, ela é diefernte de mim. Estou armada, sabia? Fiquei sempre do lado dela quando ela ia confiando. Precisava dizer-lhe. Confio mais em você do que em mim mesma. Eu queria ter a sua generosidade, mas não posso mais. Te digo que Johnny é problema, eu sei que é, eu pensava que poderia te deixar orgulhosa ao assumir Johnny, mas não consigo, você viu que abri o pacote porque não acredito nas gentes? Você viu que não me enganei. Pensei em mim outra vez, abri a bagaça, rasguei o cartão, rasguei o papel e nem pensei se foderia alguém. Estavam querendo me foder. Ando pensando tanto em guerra, ando pensando que os meus medos andam aumentando. Eu vou criando medos, fobias, panicos. A França foi esquisita, sobregarreguei...Depois prometo pensar em tudo isso, estou sobrecarregado, vida-morte, olhando para o espelho do banheiro e imaginando um revolver 38 na minha cabeça...depois prometo pensar nisso, reconsiderar a tal analise, o tal amor e essas coisas todas que tiram a gente da não vida-morta.



Escrito por annacbt às 08h40
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O plano B, o plano B. O A pode não funcionar e eu farei o que? Um problema andar com os velhos, a vida vai deixando a gente com essa casca grossa, um problema estar na vida exposto as merdas todas. Olha, te disse que não agüentaria ficar aqui parada, estou com uma puta dor nas costa daquelas malas todas. Quero estar nos aeroportos por toda vida, quero estar sozinha nos aeroportos por toda vida. Eu não sei se posso ficar aqui confinada, sabe? O salário fixo, a casa toda arrumada, a tigela elegante da salada. Eu não sei se posso com tudo isso. Eu quero a mala pequena que da mobilidade, sabe? A casa arrumada exige a decoração. Você sabia que ando perdendo a graça de tudo. Eu adorava a Toc stok, queria conhecer a Ikea, arrumar a casa , deixa-la aconchegante para o recebimento das gentes, mas agora, assim, chegando, as coisas não caberiam na mala. Gasto dinheiro com os bibelôs, deixo-os pelo caminho, dou aos amigos, jogo no lixo. Tudo pesa, é isso, tudo isso pesa muito, não foram feitos para caberem numa mala. Como levaria o abajur  elegante para o canto da sala na mala de Lyon? Eu desisti, sabe? Desisti de tentar estar repleta de coisas, eu não posso, são todas elas pesadas. Chegar agora, deparar-me com tudo que em um ano me faltaram. Eu não era a mesma, ainda não estou nos ajustes. Vim triste, sabia? Por que, meu deus, por que não sou dessas almas festeiras que vão somente vivendo? Eu queria ser igual aquela coleguinha que sempre esta sem a minha melancolia. Eu estou com a minha e a dela, carregada de dramas. Daí-me todos os aeroportos, vai? Eu quero dormir nos aeroportos, quero estar no transito, eu com essa merda de moeda fraca, eu longe do transito. Refleti sobre as estratégias, tenho que ser estrategista, quero estar nos aeroportos, no vai-e-vem. E a estratégia? Como posso fazer? Disseram-me desde pequena que o lance era marido rico, sabe? Eu estou aqui, deixando minhas expectativas em cima de um marido rico, um promotor do Ministério Público que me leve para o México. Que merda ter essa alma solitária, que merda não ser essa submissa e estrategista que casa “ bem” e monta na vida de “mulher”.  Eu quero ir para o México sozinha, não quero precisar conversar, as viagens são para observar as gentes, eu quero ir sozinha. Entendo que passar a noite no aeroporto sozinha é entediante e o caralho a quatro, eu me entedio, leio um livro, observo os cafés, entro nas bancas de revistas para ver as fofocas e as noticias internacionais. Quando isso tudo acabar, essa minha inquietação da chegada, estarei seca, longe dos aeroportos. Aeromoça? Acho que fiquei velha para isso> Perguntei a ele o que deveria fazer. Segue uma reta, o caminho mais rápido. Mas que caminho? Como dar uma reta para alguém que insiste em estar longe dela. Se não fosse esse maldito drama todo, seria reta, eu e a Camille. Seriámos retas, juntas, rodiadas pelo mofo do apartamento fechado. Tinha que ter chegado e alugado esse filme, porra? Camille Claudel, escultora famosa, amante de Rodin e completamente louca. Fiquei ainda com mais medo de entregar-me a um apartamento solitário lá pela Ipiranga ou São João. Eu louca cheia de gatos sujos repleta de papéis e notebooks gastos. Por que não sou aquela que se anima com a praia, o churrasco, a fotografia? Eu estou prática, morrendo de inveja dos alemães. Dei-me conta que a higiene é uma perda de tempo e que mulheres brasileiras passam as tardes dando seus pés a serem feitos. Eu quero é a mochila e a papete, até a papete nesse momento invejo dos deselegantes alemães. Passar a vida cuidando da unha do dedão do pé? Poderia ir viajar com todo o dinheiro que as falsas madames brasileiras gastam para deixar seus pés apresentáveis. Que horror. Pronto, desacostumei, achei mesmo um horror. Agonia e vontade de sair correndo. Pra onde posso sair correndo? O aeroporto, vou passar mais uma noite no aeroporto só para  lembrar que estou na vida. Papai me disse para juntar dinheiro e voltar. Quero voltar, não pai. Agora vou para o México, para Tóquio. Pai, quero estar em transito. Maldita moeda, malditos exploradores das terras alheias, ingleses e corja de safados que nos impõe essa submissão cambial. A minha raiva pulsa por aqui, as frutas estragadas nos mercados, que contradição, que raiva de lembrar dos mercados simetricamente organizados de Paris. Suas frutas importadas dispensam seleção, enquanto aqui, elas apodrecem e a gente compra com mosquitos de brinde. Eu quero só o transito, estou pedindo demais. Olha, eu sei que existem várias possibilidades de vida, eu sei que a vida burguesa do lar e da estabilidade do fim do mês está longe de ser algo agradável para os meus ouvidos, então, como vou viver no transito, sem estar fixa? Top model, deveria ser top model. Transito, aeroportos, glamour, dinheiro para comprar um bulldog francês, um bulldog francês dentro de uma Luis Viuton, festinhas animadas à Campagne. Nasci gorda e baixa, que merda! Exite o plano N? Nem Johnny quero ver, ele pode me levar para a Mooca e eu vou ter medo de ter a vida das 8 às 18, namoricos e baladinhas com os amigos de infância no fim de semana. Sabia que até dos machos da América Latina desacostumei? Onde estão os viadinhos franceses que respeitavam o meu tempo, perguntavam-me...Tu veux boire un verre? Eu desacostumei das táticas agressivas dos brasileiros que chegam colando. Nem Johnny, nem Johnny deixarei chegar colando. Bom, bem verdade que nem o viadinhos franceses. Só penso na Camille, eu ela e os gatos. Esse lance de amor deixa a gente sem os pinos. Pensei em Ricardo, a Augusta me lembra o Ricardo, pensei no Rodin. Filhos da puta que nos deixaram sem os pinos, Camille. Morte! Eu já te disse, há no mundo pessoas desnecessárias e para elas desejo a morte. Sem satanizar o desejo de morte, queria a morte tranqüila para os não tão desnecessários e a morte do fogo para os bem desnecessários. Olha, pus os pés aqui e desejei para muita gente a morte do fogo, queria ver muita gente se estrebuchando dentro do fogo, gente mais que desnecessária. Para elas, fogo! Essa é a minha maior generosidade com o mundo, estou convencida disso, a minha generosidade é o desejo de morte aos desnecessários. Não, não, Ricardo está longe disso, tenho só ressentimentos, dores de pé na bunda mesmo. Eu fiquei sem pinos por Ricardo, Camille. Passou. Minha mãe acha que vou arrumar um promotorzinho lá no Ministério Público. Será que promotores têm tatuagem? Vou esperar, se um deles quiser me pagar uma passagem aérea SOLITÁRIA ao México, posso até tentar. Um promotorzinho de 80 anos que não tem nem mais o cu para enfiar o dinheiro. Eu aceito, é estratégia, nem conto pra ninguém, é presente, cadeauzinho, gentilezas.



Escrito por annacbt às 08h35
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