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Que merda, por que ser romântica? Olha querido, eu preciso de tempo. Sabe o que acontece, eu sou romântica demais, penso na familia perfeita, na casa e na eternidade. Por isso as vodkas, as amnésias todas. Não estou preparada. Quer ser meu amigo? A gente pode ir ao cinema junto ver filme francês e falar de comida latina, sei la.Sera que você me da tempo, tudo isso é novidade. O cara para a vida perfeita. Mamãe gostando da estabilidade do genro médico, do refinamento, do tal berço, as amiguinhas aconselhando para mudar de vida e de caras, eu pensando no lar e na vida florida. Calma, calma, tudo é tão novidade, tatuados do balcão são bem diferentes de todo esse refinamento. Não sei se suporto..são as pérolas aos porcos mais uma vez, entende? Eu no apartamento da familia Albuquerque, jantando com os Albuquerques, os talheres brilhando, o odor diferente dos sabonetes do toillete, o pato com isso e aquilo. Sera que suporto? Com Johnny era facil comer capelete da Dona Antônia, a gente se divertia. Deus, mas a merda da reta não sai da minha cabeça. A medicina é a reta, o caminho estavel e a vida feliz, o movimento escapista que abafara essa minha rebeldia piegas. A querida disse-me: Para Carol, vai viver porque senão tudo vai virar literatura. Querida, posso ser o ensaio da banda, estou com medo. A Bethânia no banheiro e eu escutando no repeat “Olhos nos olhos” A casa é sempre sua, venha sim. Eu me abrindo, eu tentando a tal reta. O romantismo, porra, tudo culpa do romantismo, caso contrario escolheria ser o ensaio. Romantismo a gente cura com vodka , Carol, vodka e amnésias. Eu no meio de um bolo de coisas, tentando resolver entre loucura e estabilidade. Carol, e a estratégia? Caralho, você não aprende? Carol, não antecipa a historia, vai vivendo. Querida, tem o romantismo, a casa perfeita, o lar florido, a maldita eternidade. Os casais antigamente eram enterrados juntos, estou falando de eternidade, porra, estou falando que quero ter o meu velho pra sempre. Tem o romantismo e eu fico puta com tudo isso, perco o sono, adio a vida perfeita e estavel com vodkas e amnésias, eu preciso de tempo, ainda é cedo, estou organizando as coisas, organizando a vida. Ja estou na repartição publica, no emprego estavel, na burocracia e ainda um radiologista? Preciso so de tempo, as coisas mudaram por aqui. E a solidão, o apartamento na Ipiranga com a São João, meus planos de vida solitaria em que tudo viraria literatura. Tudo desmanchado... Misfits estourando na Maria Paula e o barulhento cartão de ponto que me mata de raiva todos os dias. Ainda quebro o maldito, promessa. Olha, preciso contar um segredo. Tinha embalado a coisa fragil, juro, tinha embalado tão bem porque sabia que era fragil. Preciso me ocupar, cadê a nossa politica de sempre, a minha valvula de escape pra esquecer essas merdas todas de romantismo? Estou saindo dos trilhos, mudando de ritmo, as coisas ficam estranhas quando o ipod desacelera, Misfits estourando menos, Arcade Fire no repeat, Bethania no repeat...desaceleração de tudo. Eu cada vez mais perdida nesse tempo tirado para acertar a vida. Por que nos sentimos estupidas com essas coisas do coração? O Ministério Publico numa puta porcalheira e eu aqui pensando em ensaio de banda e plantão de radiologista. Olha, prometo, vou ficar velha e perder essa merda de romantismo, você vai ver...Estou detestando mudar todos os dias, esse processo, esse processo que leva a gente para não sei aonde. Ando adiando tudo com vodka e amnésia, ando adiando a tal organização de vida com essas porcarias que faz a gente mais livre por uma noite. Vai viver, Carol. Querida, você sempre falando da tal liberdade. Eu a perco se desembrulhar a tal coisa fragil? O amor pode ser muleta e eu estou fora, prefiro ser a estranha de todos os lugares, a sapatão, ou sei la, uma dessas coisas das quais ja fui chamada por ficar fugindo desse amor muleta. Vim disposta a não querer dividir, a ter a liberdade que so obtenho na solidão. Você me dira que Sartre classifica a solidão como  o caminho mais facil para se atingir a liberdade, mas que não a obtemos plenamente desse modo e blablablablabla..mas eu so queria uma resposta precisa, sabe? Carol, faça assim, faça assado, desembrulha a coisa fragil. Eu fugindo das gentes para ama-las, caminho certo, a solidão para ter essa liberdade egoista dos fracassados, mas agora, tudo saindo dos trilhos, não quero sair dos trilhos, acho que estou assustada. Dizem para eu desembrulhar a coisa fragil, mas olha, em coisas frageis a gente não mexe, você concorda? Para de se proteger, Carol. A coisa fragil esta inteira, ainda inteira e eu não sabia. Comecei a tirar toda a poeira e a desembala-la dos jornais amarelados – a casa é sempre sua,  venha sim – ai, que desespero, nunca imaginei! Nessas horas o romantismo me abandona. Precisava dele para parar de desembalar a coisa fragil, precisava lembrar do tal amor eterno, mas so lembro da imagem na porta do elevador, da força, da melancolia que o humor disfarça, da mania também de ser bastante inquieto e solitario – afinidades. Parece que posso não conseguir parar de abrir a tal coisa fragil porque tudo ainda parece inteiro. Deus, mande urgente a minha vontade de liberdade rasa conseguida com a solidão porque posso não conseguir parar de desembalar a tal coisa fragil, por favor!



Escrito por annacbt às 19h21
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