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A mala esta ali do lado, não tive coragem de desfazê-la, prefiri deixa-la ali, talvez para lembrar que posso ainda partir. Ando pelas ruas para acalmar-me, para encontrar um lugar e deixar de pensar que sempre nas escolhas a gente perde. Deixei a mala no canto do cafofo sem tocar, ainda inteira. Saida do vai-e-vem, precisa ser desfeita e jogada no maleiro do armario. Ainda não tive coragem, talvez vou mesmo deixa-la ali para lembrar que de alguma forma, ainda posso partir. Ja me perguntei milhões de vezes para onde devo ir, aonde encontrarei partes de mim das quais me orgulhava, mas a resposta, recheada de auto-flagelo, pensa somente no não espaço, no não lugar, no vazio que me levara para bem distante de mim. Posso esforcar-me, mas nesse momento quero tocar no que me doi. Dizem-me para ver as coisas positivas - não, nem é isso, as pessoas querem consolar a gente ou para não nos escutar, partem para o conselho mais raso, sei la , durezas de tudo , nem é isso também – mas eu quero relar, apropriar-me da merda na qual me atolei. Foi fraqueza, foi dureza demais também, não tive calma, nunca tenho calma, esse lance de passado passou – detesto frases rasas de caminhão, não quero consolo, quero a apropriação da merda mesmo para encontrar-me com a coisa que me doi, o meu fracasso, quero repetir, fracasso, fracasso, fracasso para encontrar-me com as partes podres de mim – fracasso. Fracassei. Não, não me venham com teorias de placas de caminhão e dizer que passado é passado. Detesto essa linearidade de tudo, linearidade de vida, linearidade de tempo, detesto! Eu deixo a mala la no canto para retirar-me um pouco da maldita estabilidade. Não sou estaval, porra, o mundo não é estavel, o emprego publico não é a estabilidade de nada – fracasso. As particulas, coisas de quimica, sei la, idéais vagas, procuram a estabilidade, aquela coisa de 7 camadas e o caralho a quatro, mas eu não sou quimica, não era quimica antes, devo questionar-me agora se transformei-me em molécula quimica quando decidi por meu fracasso. Nunca quis ter as tais 7 camadas para obter a estabilidade, nunca quis desfazer a mala, nunca prestei concurso publico porque tinha medo de ser a sétima que daria a estabilidade. Nunca quis ser metal nobre, estou longe de qualquer nobreza, com o pé na merda, atolada na instabilidade do metal mais baixo, com a sétima camada da estabilidade, mas sem valor nenhum, metal nada nobre, nobrezas longe de mim, querendo encarar todas as minhas minimas impurezas, entrando em contato com o que me doi, as impurezas, o fracasso. Vai caminhar, Carol, para com a auto-flagelação, você precisa esforçar-se. Não, você não esta entendendo, quero vivenciar esse fracasso, é o centro de tudo, ir à minha condenação, quero sangrar e ter odio. Desencadeou uma série de magoas, vou deixando a mala la no canto, é o melhor de mim, o resquicio da minha instabilidade perdida, meu fracasso, minha maldição essa não nobreza – metal podre. Preciso repetir para ficar aliviada, não negar nada, assumir mesmo o meu Fracasso. E penso de novo nas tais pérolas ao porcos, eu na lavagem, nada de pérolas, fracassando porque nobreza demais assusta os porcos. Não aguentei, não aguentei economistas, magnatas do café, tradições burguesas e regras estupidas que a boa educação exige. Eram as tais pérolas, era educação demais, carga demais, e eu fracassei, porra, esqueci a estratégia. Posso voltar atras? Serei estrategista, mais uma chance. Vou ter paciência com o tempo, prometo. Carol, você chega às pérolas, luta por elas, mas sucumbe, não aguenta e larga. A querida disse-me: Carol, você é aquela do trânsito, gosta de transitar e tem que ter calma com isso, vai acumulando experiências. Querida, veria assim, juro, ha três meses atras veria assim tb, mas hoje, nem consigo, nada foi bom, sempre caminhos interrompidos porque saio dos trilhos, fico louca, radical demais e saio dos trilhos. São as pérolas, entende? Eu chego às pérolas e não as aguento. Sabe, lembro do Julien Sorrel, aquele do Vermelho e o Negro. Um maldito ambicioso com muita lucidez para aceitar com leveza as tais pérolas. Maldita lucidez de tudo também, maldita falta de estratégia, maldito radicalismo. Carol, você precisa de calma. Não, quero estourar e me punir, acho que é isso, punição mesmo, quero chegar a todas essas auto-punições, quero a auto-tortura, sei la, masoquismos e essas coisas que a gente faz pra se maltratar. Alivios! Deixa a mala pronta e fica olhando pra ela, Carol – tortura.
Escrito por annacbt às 07h43
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