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Sabia que perderia os significados , sabia dessa flexibilidade toda que dou a eles. Eu louca no meio dessa dança escorregadia, eu explodindo por tudo, eu transbordando por tudo nesse sistematico cotidiano repetitivo que no final do dia perdeu o significado. Sistematizar a vida? Ter objetivos e chegar longe como disse o picareta do numerologo? Chegar aonde? De manhã, ao abrir a cortina, penso quantas vezes mais terei que abri-la e desse modo, ja estou confusa quanto a trajetoria. Mudo de significados, perco-me e tenho medo das todas manhãs repetidas. Nunca posso pensar na tal manutenção da vida, eu sempre penso nisso, porra, sempre me chateio por isso. Carol, você precisa dar manutenção à vida. E é isso, assumir viver é dar manutenção constante à vida. Não, pelo amor de Deus, você tem coragem de juntar manutenção e constante, substantivo e adjetivo de continuidade e me dizer nesse momento? Olha, eu so estou tentando silenciar esses malditos fantasmas. Você sabe, a continuidade de tudo faz com que eu perca a graça. Não quero perder a graça de tudo, entende? Abrir todos os dias a janela, dar essa tal manutenção constante à vida faz com que eu perca a graça de tudo. Vai ser sempre aquilo. No elevador de manhã o Raimundo me informou que faz 20 anos que ele trabalha no Ministério Publico, faz 20 anos que entrega o maldito Diario Oficial às secretarias, 20 anos sorrindo para entregar o jornal. Eu morreria. Devo ja estar morta, vida-morte de novo, perdendo os significados, perdendo projetos, planos, linha reta e essas porras todas que impulsionam as gentes. Eu bem perdida nessa. Eu tentando dar a tal manutenção constante a vida. Olha, vc viu, o apartamento entrou em decadência, a tal manutenção não foi dada, voce estranhou ao chegar, as paredes eram amareladas, os azulejos estavam encardidos, as luzes eram escuras, você se assustou, lembra? Precisa sim dar manutenção à vida e ela é constante queira você ou não. Manutenção constante, é essa a loucura, são esses os fantasmas todos, é isso? Eu preciso silenciar fantasmas, eu tento deixar os significados sob controle, mas ja disse, eles são soltos demais, gozam de mim, envergonham-me porque perco o controle,  perco tudo e quero sair correndo, rodopiando no salão junto com os significados que se perderam. Essa luta com os malditos fantasmas, porra. Sempre tendo que silencia-los, eu queria era me jogar com todos eles também, sair assim mesmo, cheia de petulância para o mundo. Carol, caralho, para de reclamar da mesma coisa. Vc tem que ter projeto, o seu Guru picareta disse, traçar metas para chegar em algum lugar, você não sabe o que quer, precisa se conhecer e encarar  que o maldito numerologo tinha umas certas razões, vai! Eu entendi tudo hoje, entendi o que quero, quero igual o Fernando quis, ja disse que gosto muito do Fernando?  - banquerio anarquista -  o Fernando ja havia pensado em tudo isso. Quero revolução, saca, ja disse isso, quero revolução, porra. Desejo profundo, quebrar tudo, lixo estrutural, quebrar, porra, sair metendo fogo e legitimando como generosidade feita ao mundo. Olha, eu bem louca nisso tudo. Daltinho ouvindo a minha ira revolucionario me olhou e disse – que bonitinha! Nem o Daltinho me leva a sério com os lances de revolução. Eu fora desse tempo maldito também, viu. Quando entrei na faculdade achava cafona esse lance de proclamar a revolução, mas agora,  descubro que não era pieguice, mas a falta de uso desse discurso é que o deixava empoeirado e fazia, aos meus olhos,  bem piegas. O lance é dar ênfase em discurso esquecido que precisa ser atacado de vida. Ataco a REVOLUCÃO de vida. Acho que você foge de coisas e fica falando de revolução.  Ando pensando sobre coragem, ando pensando o que dizem-me sobre coragem – você foi muito corajosa nessa! Eu morrendo de medo de esquecer a revolução, assumir a continuidade, a manutenção e esses troços todos que se não pensados tem até uma certa graça. Eu preciso pensar, preciso do inconformismo de tudo, preciso rejeitar a manutenção também para conseguir ser mais eu. Talvez se vivesse rendida ao cotidiano fizesse dele algo mais prazeroso. Hedonismos mesmo, dias compostos de feriados, trânsito e vontade de andar pelo mundo e descobrir tragos diferentes. Fazer o que em Cuba, Carol? Descobrir o Rum, fumar charuto, ensaiar uma salsa. La tem muita vida também, você sabia Anguito 1? Eu quero vida, vida junto com os meus significados soltos. Carol, desconstroi, vive aqui. Aqui é completo ataque de vida, ataque de vida cotidiano, é isso! Vida pra você viver, janela para abrir e toda manutenção de vida. Manutenção de vida é pura vida, ataque de vida, você quer significados? Eles estão todos por aqui também. Que relação foi essa bizarra, que fez você acreditar que somente longe tera o tal ataque de vida? Perco a solidão por aqui, assunto delicado. Eu sei, eu sei, estou sendo bombardeada de vida. Aqui tem excesso de vida e eu transbordo, estou transbordando por todos os lados, ando aflita porque sinto esse ataque direto que às vezes não sei viver. Tenho medo de ser fim à literatura, tenho medo de, sem dramas, perder esses fantasmas. As gentes, muitas as gentes têm medo de perder a felicidade, o dinheiro, eu tenho muito medo de perder a melancolia, tenho medo, porra! Tenho medo de perder a melancolia e viver a manutenção de vida. Eu vivendo na manutenção de vida, eu bem esquisita nessa também. Entraga à manutenção de vida é entrega ao fim da minha melancolia? Olha, você sabe me responder? Cadê o numerologo maldito pra me responder, responde pra  mim. Você anda muito inquieta, tenho que te dizer de novo, precisa ter calma, anda atormentada, o que te aconteceu? Vai me avisar se estiver ficando louca, vai falar que estou me entregando sem ponderação aos significados? Eu tenho medo da vida, tenho mesmo medo dessa manutenção que ela exige. Tenho medo, porra. Troço bem arriscado, colocar energia em tudo, saca? Eu transbordando. Sabia que vejo em seu quarto o reflexo dessa loucura toda? Você jogou tudo fora, por que jogou tudo fora? Você acha normal esse minimalismo todo, dar suas roupas, deixar  os seus livros, mandar até a cama embora? Eu tenho preguiça, é isso, você se contenta com essa resposta? Eu tenho preguiça de dar a tal manutenção, eu não quero os bibelôs, ja disse, eu tenho medo também de querer muito os bibelôs, não quero o egoismo dos que têm que proteger tudo, por isso é melhor se livrar de tudo. É melhor dar o livro antes da tensão de empresta-lo e não devolverem. Sera que isso é puro egoismo?Tenho medo mesmo de me ver entregue à estupida manutenção às coisas, eu so quero dar manutenção às gentes. Entendo a contradição disso tudo, mas o que você acha estranho eu digo que é normal, que é prioridade e não decadência de tudo. Eu não quero os bibelôs porque sinto-me mais livre, mais no transito, mais cheia da possibilidade de partir facilmente? É piração, é pura piração, mas te disse que voltei desse jeito. Voltei cheia de excessos, voltei prisioneira de uma liberdade estupida que me enerva todas às manhãs que abro as cortinas. Voltei negando o que sou, por isso a negação também das coisas, das pessoas, do pais. Estou tentando de tudo, quero a calma que você me ofereceu, quero entender as coisas, quero desconstruir tudo isso e viver cheia de vida sem achar que somento o trânsito pode oferecer-me. Preciso transbordar sem culpa, entender que não tem problema acalmar-me com o cotidiano que vai mesmo se repetir todos os dias, estou desconstruindo para tentar ,de fato, viver mais o ataque cotidiano de vida, mas compreendo que essa coragem, essa coragem bem delineada me escapa sempre, que os esforços são sempre melancolicos porque de certa forma é negação de tudo. Mas estou dispostas, estou desconstruindo tudo e aceitando, deixando-me aceitar todas essas repetições as quais dão ao cotidiano vida e o faz transbordar. So preciso mais uma vez de calma, eu preciso de calma e coragem porque esse que sera bastante delicado



Escrito por annacbt às 08h46
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