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Por que decidi abandonar-me de mim mesma ? Acordo às 6h naquele silencio das manhãs ainda não levantadas e pergunto-me sistematicamente porque decidi me abandonar. Por que, por que decidi abandonar-me? Os alimentos saudaveis, a parafernalha das lojas de cosméticos, os cremes para os cabelos, a caminhada para o trabalho, as tentativas de recuperar-me e dar vida a essa carne amorfa que caminha, que so caminha esquecida de tudo. Confia no tempo, Carol. Você disse tantas vezes sobre a temporalidade ocidental, a redução do homem a nenhuma circunferência.  Você não esta confiando no tempo, Carol.  Ando com medo da liberdade, ando com muito medo dessa maldita liberdade que permite a escolha. É o desamparo, foi o excesso de liberdade, foi isso que me fez morte. Estou morte, sou essa da continuidade de nada, da trajetoria perdida, do desânimo com essa vida que deve ser vivida. Podemos dar um tempo da vida? Se esconder em casa, arruma-la, fazer as unhas é se esconder da vida? Queria mais pausa, saca? Queria a grande pausa de uns anos, sair por ai e não ter o armario organizado. Cacete, estou detestando essa organização a qual estou submissa. Calcinhas e meias organizadas,  nada embolado no armario, a cama arrumada porque nem deixa-la sem os lençois puxados me permito. A liberdade me fodeu. Fiquei aqui com esse metodismo chato das familias médias, justo eu, justo eu que detestava e discursava contra as ordens. Vida negada inteira, negação de mim. Não Fernando, não faça isso? O que anda pensando, Carol? Não ando pensando Fernando, não ando tomada pelo mundo, sou so essa que sobe e desce a Augusta para fazer Oficios estupidos que enchem a vida de burocracias e preocupações mediocres. Ja pensou sobre as preocupações? Um diabo tudo isso, uma puta energia gasta com baboseiras. Chamar um imbecil de Dignissimo, combinar excelentissimo e ilustrissimo! Um diabo isso tudo, uma puta energia colocada em coisas que não haviam necessidade. É necessario falar sobre o amor, a trepada, a risada compartilhada, e não sobre a combinção dessa merda burocratica toda. Olha, ja disse, recuso-me a perder o meu tempo com essas inutilidades que enchem a vida. Fernando, quanta intensidade. Fernando, ja te disseram que vc é um cara sensivel? Você quer ter uma filha? Eu quero ter uma filha. Podemos ter uma filha. Não vou deixa-la como você. Você não entendeu nada, você competiu a vida inteira, você é esse do maltrato. Fernando, quanta delicadeza. Por que tanto maltrato consigo? Eu queria ficar mais perto. Entendi o lance da impessoalidade, entendi os dramas, por que nos encontramos, por que nos encontramos logo agora? Olha, não sou sempre assim, geralmente tenho mais calma comigo, mas é que perdi vida, entende, perdi vida e fiquei assim, arrastando-me. Se te dissesse que perdi vida por que tive liberdade você entenderia? Você me entendeu, eu te entendi. Enchi a cara e posso ter perdido o rumo do dialogo, mas lembro que nos entendemos. Fernando, a Katia disse-me que fiz tipo, que estava mesmo te enganando. Puta sensibilidade, você percebeu rapido,não foi? Sabia que perceberia. Eu não te enganei, eu estou sem vida, era muita intensidade e eu estou sem vida alguma. Quer conversar? Não quero conversar agora, estou em desconstrução de tudo e te deixaria muito confuso. Eu estou muito confusa, conversar aumentaria a distancia entre a gente. Me da a sua mão, vai. Você entenderia o amor-habito que passa longe de ser comodismo? Fernando, quero você perto, amor-habito, rotina compartilhada que é so amor. Acustumaria comigo, acostumaria com a desconstrução continua de tudo da qual mesmo esforçando-me não sei se posso ficar distante? Olha, te amaria por habito, algo muito longe de ser comodismo, você entende? Você me entende, sei que entende. Sabe, não preciso ter cuidados com você, é so honestidade, não preciso medir as palavras porque sei que me entende. Entende que precisamos de tempo? Olivia, gosto de Olivia para meninas e Fredrerico para meninos. Você não é o da ação como estava acostumada, gosto disso, gosto de não medir as palavras. Fernando, amor é somente habito, sei que me entende, nos entendemos. Podemos ter outra temporalidade para nos entendermos. Não seja duro comigo, não deve me maltratar como te maltrata. Preciso dizer mais o que? Amor-habito que é so amor. Sou dura demais, fui sempre dura demais comigo mesma, sei que também foi, não precisa me dizer. Desconstrução implica esse aprendizado de flexibilização consigo. Precisamos, ambos precisamos. Fernando, perdi o raciocinio. Não somos os da ação, penso demais, me perco demais, e vejo que isso também acontece com você. Vai ser duro comigo se for duro consigo, vamos nos perder se continuarmos mais uma vez toda essa rigidez construida. Eu quero o tal amor-habito, a desmistificação desse conceito  amor-protagonista, entende? Fernando Olivia é um nome suave, você não acha?



Escrito por annacbt às 21h01
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