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Ando acordando nas manhãs silenciosas para deixar os desejos soltos, converter o cotidiano em poesia  nas bananas amassadas com aveia, no regar das plantas secas que encontram-se na sala, na organização dos pratos no armario. Não sou a da ação, longe dessas coisas todas, enervo-me com a necessidade de completar as lacunas da vida com prazeres. Tudo tão superficial. O amor, Querida, o amor é algo superficial? Eu sempre acreditei que fosse, eu sempre neguei o amor e agora sinto-me num abismo de durezas, de intolerância às imperfeições. Não encontro as paixões de um dia as quais estava tão acostumada, as empolgações que disfarçam a carapaça que me protege e enverga as lances  que o medo nunca permitui à perfuração. Evitei tanto, Querida, evitei tanta energia gasta com os homens. Achei o amor, esse amor homem-mulher, amor- erotico, amor de casais, amor de encontros, parte dessas preocupações desnecessaria da vida. Por quê? Que prepotência achar que amor desorganiza o tempo, atrapalha o funcionamento das coisas. Ando deslocada, você me entende? Ando deslocada porque aceitar a tudo que me cerca, viver com afinco, doar-me a vida...nunca fui muito boa nisso, nunca soube entregar-me sem egoismo. Vou as ruas para ver o sol que amarela as paisagens e sentir. Encontrar-me com o universo que me furta desde o primeiro instante por tirar-me dos conceitos nos quais criei resignaçõe. Por que somos tão tateis e foge-me a lembrança das palavras. Peço que me dê cotidiano sem adornos mas, estou tomada pelas durezas. Na porta do elevador enfio todas os dedos da mão dentro da boca, aperto o torax com força para sentir os pulmões prestes a explodir. Dou-me à vida e suspendo o egoismo. As minhas potencialidades estão relacionadas ao que nego, à constancia do cotidiano que são as tais lacunas preenchidas com prazeres. Tenho garantias de que sou essa das potencialidades, do prestes a acontecer , mas por pura arrogância,  fica nesse limear entre o fracasso, a invisibilidade e o sucesso.  Estou cansada de querer viver somente as importâncias, percebe a incoerência de tudo isso, percebe as tais durezas e essa massa amorfa de magoas que nascem da recusa da trajetoria? Quero entender essa cegueira que foge à racionalidade. Estudo as palavras, reviro-as para retirar delas a compreensão dessa confusão, porém,  nessa vivência da vida que pulsa, perco os conceitos, perco a sobriedade e me vejo tomada pelo banal. Não lembro dos dialogos, suspende-se o tempo. Estou toda ao inverso, procurando viver sem grandes entendimentos. Fujo dos que  adornam os conceitos para fugir da vida - também o faço e sinto o fardo de ambos. O trânsito, Querida, anda regulando a vida, anda tomando a cidade. Desvio dos sinais que fecham, caminho para encontrar uma rua em que os carros esperam os pedestres. Tenho pressa em passar para o outro lado da calçada, tenho pressa sempre de chegar na calçada que esta na direção do meu local de chegada, não consigo ficar no oposto dos lados, submeto-me a espera dos sinaleiros perdendo tempo parada vendo o movimento dos carros, mas quero chegar logo ao lado que abriga meu destino. Como se fosse inadimissivel continuar a caminhada do lado oposto da chegada. Isso é pura ansiedade, como o Fernando disse, como Fabinho disse que Fernando disse, é a pressa dos que ja dormem inquietos. Tenho pressa, Querida, preciso sempre chegar para ir, é como se contabilizasse a vida vivida, é querer extração do maximo no minimo de tempo, é essa inquietação que faz transfomar tudo em cobrança de vida vivida, é pura burocracia de vida vivida, exigência de maximos. A narrativa em descompasso, rapida, sem pausas, os pontos sendo tempo demais, as virgulas tempo ponderado, mas perdido. Lobo Antunes  também tem pressa e abusa das virgulas. Não usarei mais o ponto, vou disparada como os carros na Nove de Julho, vou meio desgovernada para o destino, sem parar nos sinais vermelhos que regulam a vida. Petulante, jogarei-me em cima dos carros para que eles respeitem ou matem de uma vez a minha fragilidade. Foi despedida subta, negação de vida para vivê-la, evitar dramas, vida negada, vida vivida porque negada. Não, não consegui suspender o tempo, me perdi na impaciência e no amor prorprio. Para que dialogos? Tenho pressa, não adiante as explicações, essa tal inquietação dos que não respeitam nem o sono, os pontos, as virgulas, os semaforos. Tudo corre rapido e as noites estão ai para negar a calma das manhãs. Sempre ao elevador, os planos de historias, os tais prazeres que preenchem as lacunas da vida, sempre a ânsia aos fatos, a vida, entende? A vida com as lacunas preenchidas  de pura vida. Negação de vida que é vida. Fomos despedida subta sem grandes explicações, fomos vida interrompida que é pura vida. Não precisamos de dialogos, a compreensão foi mutua, estamos com pressa demais para andar no lado oposto do destino. Atravesso a rua furtando-a dos carros porque ando apressada, sem tempo para ficar caminhando no tal lado oposto, entende? Desepedida subta, as noites estão ai, a vida e seus encontros estão metros da porta do elevador e tenho pressa, pressa de chegar a calçada e atravessar para o lado que encontra-se mais perto da chegada.



Escrito por annacbt às 11h36
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Lamentavel o mundo não ser um grande clitoris bem massageado

Tanto prazer concentrado.

Por que então meu corpo todo não poderia ser essa carne inescrupulosa que se abre ao minimo

esforço?

Por que me renegaram o prazer a tão minima parte?

 

Poderia eu, como um todo, ser revestida por essa esponjosa carne submissa.

Não me contento com o prazer de um bife bem passado em meio à divisão do expediente.

Ah, se todos os pontos dos meus dedos,

Se todas as cuticulas de minhas unhas,

Se todas as infimas partes fossem tão sensiveis quanto esse pedaço de carne.

 

Mexer, mexer

E o desejo extrapolando em gritos involuntarios

Sem pudores burocraticos que se vestem de certezas

 

O mundo feito de dor,

Acostuma-se com a ausência dessa concentração de vasos sanguineos dilatados

 

Não quero o cansaço das horas medidas nos cartões de ponto

Quero o suor do orgasmo descomprometido

A força invasiva contrariada

A plenitude da aflição

 

Transformemos o mundo numa grande vagina despudorada

Risinhos compartilhados,

Esforços repetidos

Plantada em horas de quase nunca

No adentro da madrugada,

Seu cultivo sera de margens

Timida, nunca substituira o expediente

 

A carne do gozo

Desespera-se ao desprezo

E ansiosa

Aguarda a inversão das logicas, dos numeros, das horas...

Da anatomia do mundo sistematicamente organizado,

Em uma grande vagina despudorada



Escrito por annacbt às 10h18
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