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Augusta Excesso de prazeres em despedida. Fui sentir o cheiro de esgoto para lembrar da esquina encardida do Bar, fui subir e descer a rua observando as luzes avermelhadas dos bordeis com suas putas engorduradas em roupas centímetros menores que seus tamanhos habituais. As calçadas esburacadas, o movimento noturno, o meu desejo de ver aquelas gentes em frangalhos às 7 da manhã resistindo à noite ainda não dormida com o copo de cerveja quase envergado. Antes, há um ano e meio, eu era toda entregue à Augusta, eu era somente na Augusta, no seu descompasso em meio aos negócios lucrativos realizados da Paulista logo ao lado, eu me entendia misturada à decadência dos que negam para disfarçar a pouca afinidade com as exigências da vida. O Eulália, o cafofo, o seu Antônio observando tantas histórias, a Dona Cláudia lá debaixo sendo subornada com berinjela e palha italiana para acalmar-se das festinhas destruidoras do 5 A. Quanta nostalgia, Carol! Estou somente somando vida vivida antes de partir, Querida, é pura despedida isso tudo de relembrar os fatos, é enredo para histórias. Lembra, viver é acumular história e relembrá-las é ganhar consciência de viva vivida. Sou agora somente despedida, preciso ter clareza de que não deixo falhas de existência por aqui, que vivi sem acolher-me na água quente da placenta materna. Estou no mundo, agora entro novamente para o trânsito, os encontros, as muitas línguas, a mistureba de culturas que carregam os cheiros das origens. Kobasknovit, na Rússia se tempera carne de panela com Cominho? Radija, na Argélia as comidas são fortes sem delicadeza? Pierre, ensine-me a entender a sutileza das uvas, suas regiões, as diversas maneiras de serem colhidas? Eu disse que dessa vez não perderia a estratégia, sentir esse fracasso dos que recuam, não agüentar os vazios, pois as paixões, a fragilidade dos que vivem entregues e fiéis a si, nos fazem não racionalizar os fatos. Fui tomada pela paixão, deixei a tristeza de encontrar-me longe da Augusta e de tudo que a rodeia ter controle sobre mim, sobre a minha escolha. O carinho, Querida, o seu carinho, o Tosquinho, a Kátia, era tão difícil, era tão vazio estar nas casas lacradas que barram a liberdade dos ventos que desorganizam as folhas soltas nas mesas. Dessa vez não perderei a estratégia, tenho que entender as minhas limitações, não sou do tipo que encontra tudo pronto, a trajetória sempre penosa, sempre no cuido do mundo e a necessidade de extrapolar os limites que me são impostos. Não perco dessa vez a estratégia porque detesto os limites, volto cheia, sem mágoas e um amontoado de linhas escritas embaixo dos braços. Não me perdoei pela pouco vivido. Carol, você voltou cheia, estava no envolvimento completo, voltou diferente, sei lá, você ainda não percebeu tudo isso? Eu quero mais, eu sempre quero mais, eu inquieta porque nunca estou satisfeita com o que tirei da vida, por que não tive amantes kosovares? Por que não me organizei para aproveitar o acesso e ir conhecer o Japão? Entende, estou falando disso, estou falando das distâncias, dos limites, é questão de espaço, vida se relaciona com espaço, com falsas afinidades que o tempo se encarrega de explicitar. Eu quero entender das coisas, é pura burocracia de vida vivida, é sempre assim que acontece. Estava esperando mesmo, era isso, o quarto revelou a espera, o minimalismo, a recusa de contratos prolongados, as raízes que dificultam as partidas. Vivo num drama de 6 anos, compro ou não compro uma cama? Fixação relaciona-se à cama. Normalmente as coisas acontecem fácil, os fatos cotidianos são vividos pelas gentes sem que se tornem um grande drama. Nunca consegui, sempre vivo sangrando, existência sempre arrancada, sempre uma dor nascendo no cotidiano banal. Primeiro beijo, um esforço, queria sair correndo daquela língua pegajosa que invadia o céu da minha boca. Por que adultos fazem isso, que troço sem graça. Maldito moleque bonito me atazanando a vida. Fui levada pela pressão, pelo meu medo de sempre esquisita, ser a única que detestava línguas pegajosas. Meu Deus, detestei a língua dele, detestei ele tentando ser gentil, maldito moleque bonito, malditas amigas que queriam que eu ficasse com o moleque bonito. Ainda se fosse feio teria um desculpa, mas o maldito era bonito demais. Meu Deus, que língua nojenta, não devo gostar dessas coisas. Como a Paulinha pode andar de mão dada com o Luis Fernando em pleno sol das 2 da tarde? Meu Deus, como aquele beijo dos dois era um troço ridículo, como ela podia gostar e não ter vergonha de ficar enrolando a língua dentro da boca dele no sol das 2 da tarde em público. Meu Deus, tem alguma coisa errada comigo, não gosto dessa coisa gosmenta que as amiguinhas gostam. Ficar gorda evita meninos bonitos, as gordinhas não precisam se atracar com línguas gosmentas, o moleque bonito vai se assustar, não vai querer casar mais com a gordinha – ele, o garoto bonito, insistia em me chamar de noiva. Engordei, quase explodi, virei um monstrinho bonachão e os garotos bonitos se afastaram de mim. Estava estrategicamente livre das línguas gosmenta e dos moleques bonitos que revelavam a minha tardia afinidade com as línguas, as bocas, os sexos e os passeios amorosos às 2 da tarde. Quinze anos, nenhuma língua, muita estratégia e sacos de bolachas engolidos inteiros para manter os moleques bonitos longe de mim – estrategista desde sempre, apavorada com a vida, louca para vivê-la sem grandes intimidades – que grande farsa que é você. Puta estratégia, puta medo, parece que estou tirando o atraso de toda essa economia de vida. Será que vivo com essa necessidade toda de vida vivida por essa castração dos dias passados? Esse processo automático ao qual muitos estão submissos – não consigo, não vivo sem sangrar, sem tomar consciência de que os processos são tensos e me perco entre o medo, a vida, esse lance do fracasso e do sucesso. Sangrei, sangro faz dois, talvez três meses, sei lá. Consciência da minha completa fragilidade, da necessidade de gritar e pedir sustentação porque sozinha não poderia assumir toda essa liberdade que faz de mim inquieta antes mesmo de acordar. Li de novo Pessoa, li a poesia que Fabinho escreveu-me antes de comigo, esperar o avião partir em 2008, li no avião tensa pela muralha entre mim e o mundo que se quebrava naquela tarde de março o poema que dizia assim: ´Nada me prende a nada Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo Anseio com um angústia de fome de carne O que não sei que seja Definidamente pelo indefinido Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar` Ontem a minha Margem do Rio estilhaçou os limites, fez-me chegar à compreensão da inexistência da divisão ingênua entre Orientes e Ocidentes. Quanta confusão se estabelece nessas tardes de feriados em que vou visitá-lo, a dor por seu desprendimento, a admiração e repulsa que aquela liberdade miúda me causa, o susto pela separação que existe entre ele e as tais superficialidades as quais nos prendemos. Parece que desistiu de dar a manutenção às coisas, tenho medos periódicos de que largue tudo, até as palavras cruzadas e as arvorezinhas do quintal. Se der um bonsai, uma orquídeas, um lago e peixes, será que retomará a vontade de viver? Vou lhe comprar um livro que explique os nomes e as origens das plantas, um aparelho para perder barriga e diminuir os tais diâmetros de abdômen que estão em excesso segundo a sua própria vaidade. Pai, você está bem, deveria somente parar de fumar e fazer caminhadas matinais. Carol, seus antepassados são da Sibéria, você sabia que os Takedas saíram do Sul da Rússia e atravessaram o Mar do Japão há 10 mil anos? Pai, mas não existe semelhança entre nós, os tais orientais e os russos, somos de origens opostas, ao meu ver, somos miúdos e amarelados e os russos altos e braquelos. Deu risada e me olho com desconfiança e subestimou a minha dúvida e a minha necessidade constante de sempre questioná-lo. A minha Margem do Rio cria mundo, faz a história como lhe agrada e diminui todas as fronteiras entre mim e aquele Atlas gasto que pega todas as tardes que vou lhe visitar. Subi no ônibus cheia, maravilhada por conhecer mais um pouco daquele mundo tão irreal e sem limites que constrói pra si. Papai não tem medo do frio, papai não tem medo de ter existência sem excessos e aparatos, papai gosta de aeroportos para conversar com garotas Filipinas em línguas inexistentes, eu sou papai com maiores cautelas, mas é papai quem faz eu entender essa necessidade de disparar para o fantástico do trânsito, das línguas, dos mundos, papais quer que eu saiba das origens das coisas, das montanhas e dos ventos que a Sibéria sopra para o Japão e que gela sua parte Oeste. Entendo de Taiwan, do feudalismo tardio da sua pequena ilha, das dominações e conquistas dos povos que lutam. Papai distorce a história e faz eu querer saber de tudo. Acho que acaba me contando um literatura, os fatos bem distantes do que leu nos livros oficiais, mas adoro ouvir suas fantasias, os devaneios que faz seu universo, fisicamente tão restrito e mesquinho, transformar-se em milhas, em centenas de quilômetros rodados, em conversas de botequim com os moradores que vão convertendo as oficialidades da história em mitos, contos e literatura.
Escrito por annacbt às 00h48
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