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Olha, será que alguém suporta amor demais? Entrar num daqueles quartos gelados e ver neve pelas janelas e frio nos degraus das escadas que barram qualquer vontade de contato. Olhei pra São Paulo, segunda-feira, sempre uma vontade de sair fugida para qualquer lugar invadido por um silêncio de solidão. No ultimo andar de um prédio, na cobertura, na auto-suficiência completa, tirar as escadas e barrar os elevadores que levam resquícios de existência para perto. Tomar banho numa água acolhedora e proteger-me desse excesso todo de existência a qual a minha fragilidade momentânea não pode dar continuidade. Precisava de solidão, entende? Sempre esse lance com as doações. Não posso corresponder a um terço das expectativas. Esses olhos todos, puta troço esquisito, puta peso contraditoriamente prazeroso, vaidade. Meu cérebro anda demorando alguns segundo para registrar meus movimentos, perdi os limites, perdi os medos, parece que é mesmo consumação sem limite de vida, é vida vivida que invade outras existências. A dialética, a dialética que quero viver, a moralidade que faz com que recue, eu perdida nesse infinito de possibilidades. Nas páginas do livro lido - Mulheres entendem melhor esse lance de dialética, saca? Fiquei confusa, nomeamos mais, entendendo melhor por essa coragem de assumir a contrariedade de tudo.  Agente tem que controlar tanto as grades que separam as propriedades, respeitar as barreiras e contentar-se com a solidão a qual todas as posses nos remetem. Entupimos de medo a nossa rala existência e esquecemos da necessidade de destruir os muros vizinhos. Estou confusa, essas partidas, as coisas sempre por completarem-se, a ansiedade de perfeição, as despedidas que me fazem sair pela Augusta de coração cheio, ar que expande as veias e medo de perder os pertences, os pertences que são somente os elos, as relações de amor sem calma as quais se transformam em totalitarismos. Tão católicos, somos ainda tão católicos. Carol, você morre sozinha com essa volatilidade. Morro, mãe, vou morrer sozinha naquele apartamento embolorado que a Michelle brevemente descreveu como sendo o espaço da minha velhice. Perdi a crença em mim, entende? No espelho outra, distante daquela imagem que sempre reconhecia pelas manhãs. Será que havia perdido parte do catolicismo, será que aquela ausência estava agora em mim?  Ah, somos ainda tão católicos. A culpa esbarrando na escassa tentativa da prática dessa tal dialética insistentemente decorada nos anos de faculdade. Perdeu fronteiras, Carol, desconstruiu propriedades, mas as ruas ainda estão esburacadas pela Augusta, as madrugadas da desordem são ainda respostas ao seu repleto desejo de negação dessas tais manhãs que vai organizando. Não dá para se encontrar muito longe do que você já conheceu, Carol,  não aceita a bajulação que somente os lugares devidamente iluminados permitem. Alivia a alma, vai! Ando desconfiada das teorias, tão sem saber aonde ler para acreditar, entende? Escutar os velhos e  deixar que eles me aproximem da grande verdade da vida? Sempre esse esforço para aceitá-la e entendê-la sem  toda a perversão no qual penso que se insere o maior de nossos bens. Aquela cortina de borboletas presas com os fios de náilon que faziam parte das minhas lembranças de infância, aquelas borboletas aprisionadas coletivamente pelas linhas transparentes que perfuravam seus miúdos corpos, aquela prisão tão coletiva e acolhedora que faziam delas cômodas...sempre essa lembrança do prazer da estabilidade que evitava grande parte dos medos. Nunca consegui, lembrava da cortina e me via como a borboleta contorcida, desesperada para ganhar os limites distantes da janela. Não entendia os medos, nunca entendi. Medo barra as revoluções, barra esse rompimento que nesses dias preenchem-me de falta. É toda essa contradição, ânsia para esticar os excessos de pele do meu corpo como expansão física dessa imensidão que se cria pela liberdade. Preciso ver o lance físico, saca? Materializar esse rompimento com a superfície esticada da minha própria pele, visualizar em meu corpo o rompimento dos fios de nailon, as fibras comprimidas sendo esgarçadas por esse desejo de querer inquieta sempre mais. Preciso ver as grandes distâncias das janelas dos aviões, ver a Sibéria infinita do meu pai, escutar já distante as palavras em português como ecos de ternura dividida. Preciso de pausa, é vida demais concentrada, é esgotamento da alma, vida vivida em excesso, transbordando nos recipientes amesquinhados que não comportam grandes volumes.



Escrito por annacbt às 18h42
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