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Esse medo da doença, essa crença no acontecer maléfico, a fragilidade física que nos barra de um viver pleno. São as ruas as camas dos garotos franzinos que fazem de suas finas camisas, cobertas? Vou olhar, virar o pescoço para fixar a imagem desse descaso. Insistente, direcionarei todo o olhar para aqueles pés encardidos, as mãozinhas fechadas em reflexo ao frio de julho. A cama no trânsito, as manhãs indecifráveis, anestesias despercebidas. Esses céus noturnos ainda não amanhecidos em luz de sol, propriedade de um mundo que os recebe somente quando todos dormem. Não seria demasiado viver nos dias, no movimento dos que trabalham? Invertem as lógicas, essa vida organizada lhes cabe cheia de hostilidades. Posso entregar-me ao assistencialismo, lavar todos aqueles pés encardidos, deixar as linhas dos eruditos que confortáveis morrem de culpa. Tão atados aos medos, ao possível câncer, à possível cárie, ao certo mau atendimento dos serviços públicos. Quantos medos que me barram a existência plena. Posso viver acreditando na minha utilidade intelectual? Posso deixar aqueles pés sujos e esquecer a minha inclinação para o assistencialismo mais baixo? Somente a solidão que me dá palavras. Nós, Daltinho, não descobrimos paixões específicas. Esquece, esquece de tentar descobri-las. A sua grande paixão é a própria vida, o hábito e seus pequenos prazeres. Somos assim, apaixonados sem especificidade, sem os treinos de 12 horas, sem os pés calejados em virtude dos movimentos repetitivos, dos corpos desenhados cujos trejeitos são materializações dessa obsessão estranha dos que podem amar com tanto fervor uma única coisa. Causam-me tanta inveja, os apaixonados obsessivos, causam-me uma dolorosa auto-repulsa. Nomeio as minhas tentativas de ingênuas atividades sem finalidade. A paixão está na própria vida, Carol, as suas paixões não são específicas, os seus calos estão por todas as partes desse cotidiano apaixonado em que tudo cabe, entende? Disseram-me que precisava de cuidados. Tão difícil permiti-los, sempre nas costas as malas do vai-e-vem, a passagem das noites nos aeroportos desconhecidos. Sempre  tão satisfeita com a firmeza. Carol, você verbaliza sempre que agüenta. Sim, essa é uma paixão, os limites e seus rompimentos, a auto-suficiência. A física fragilidade e a expansão do infinito. Como aceitar aos cuidados? Essa solidão tão logo escolhida, essa solidão que me dá palavras para nutrir a tentativa da tal paixão específica. A mim, tão mais fácil o desamparo que o amor, entende? Olha, não me constranja com esses cuidados, posso fazer tudo sozinha. Que sofrimento antecipado, Meus Deus, barrar as vivências por puro medo da perda. E se me acostumar com tudo isso? E se tudo isso acabar, entende? As vizinhas de mamãe tiveram que se reacostumar com a solidão depois de anos de casamento estável, precisaram entender que os cuidados haviam acabado. Sou a do hábito, demoro a acostumar-me com as coisas, gosto da mesmice de sempre, comer o mesmo número 5 de sempre no bar da esquina de sempre. Entende o porquê da ponderação com esses prazerosos cuidados? Não quero me reacostumar comigo mesma – uma mesma sem os cuidados. Pode ser tolice, evitar vivências, mas tão difícil mudar os hábitos, criar novas necessidades que são supridas somente coletivamente. Tenho medo das dependências, por isso, a dificuldade em aceitar tais carinhos, entende? E se acabarem de um dia para o outro? Tenho medo de observar a dependência e perceber que ultrapassa a minha existência, que não posso esforçar-me para reconquistar os carinhos porque não serão mais livremente dados. Prefiro evitá-los. Tão mais fácil depositar a crença somente em si, mesmo percebendo com o tempo que toda fragilidade da solidão é ainda mais frágil que a fragilidade dos que têm os cuidados. Nessa entrega à vida média, dos que aceitam os cuidados, as paixões específicas, sua alienação, tenho medo de acostumar-me, entende? Tenho medo de passar pelas camas que estão no trânsito e simplesmente não as enxergar, medo de estar tão apegada às minhas próprias superficialidades e ver as calçadas rústicas de São Paulo somente como calçadas, entende? Precipitamos os cânceres, as cáries, cuidamos incondicionalmente das nossas dores sem ver que as dores alheias são também as nossas dores. Mamãe sofre com a possibilidade da doença, está tão entregue ao medo de perder algo da vida que deixou de perceber as calçadas, saca? Tenho tanto medo desse meu egoísmo infinito, das paixões que são a sustentação dessa toda alienação. Treinarei meus olhos – olhos torneados como o corpo da bailarina que treina, treina...que treina, pois a paixão pela perfeição, a força da constante repetição faz dela pura resignação de atos vividos. Tenho medo porque os obstinados são sempre os do sucesso porque treinam, treinam. Eu posso ser a do sucesso treinando os olhos, torneando o pensamento para nunca ver rua- rua? Tão mais fácil sair daqui correndo de novo, Carol. Escuto e me irrito sempre quando pedem para eu observar os botões das flores que se abrem e ver a perfeição de toda a natureza. Estamos longe dessa perfeição, a natureza é sádica e definha, mata lentamente os corpos, corrói com úlceras, amedronta com paralisias. Perfeição? Somos tão imperfeitos, rodeados de paixões que barram os olhos torneados a enxergarem a tal rua-acumulo de corpos...ah, se pudesse sair correndo nessas todas manhãs ainda não amanhecidas.



Escrito por annacbt às 22h57
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