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Ele dizia que no meio das muitas partes, dos muitos fragmentos, daquele amontoado de idéias soltas havia ainda muito pensamento inteiro, muita concisão. Pensei noites sobre isso, li e reli aquele trecho para entender também o que ainda era idéia inteira em mim. Acordei assustada com o sol que entrava pela janela propositadamente não fechada, saí da cama para descarregar aquela estagnação de energia que estava circulando meu corpo. Eram as muitas ideais inteiras que se misturavam com os frangalhos deixando-me confusa. Quando encontrar a medida? Queria que essas idéias inteiras não me traíssem, queria confiar na minha sensibilidade para saber o momento em que devo parar, entende? Devo parar porque todas as idéias já estão em frangalhos, não existe mais nada inteiro. Acho que desandei, entende? Desandei como as massas de bolos mexidas por insistência, líquidas perderam o ponto, mãos que se misturam sem continuidade de movimento. A exatidão, a paciência e coragem de viver na medida exata. Deus, existe a medida exata de vida? Posso ter a exatidão da parada? São esses frangalhos em que me perco. Pergunto à Michelle, pergunto à Letícia se exagerei, perdi a conta. Lembro da Denise Stoklos dizendo que exagerou, exagerou e não foi pela primeira vez, exagerou pela segunda vez, perdeu a medida e exagerou. Tirem-me a garrafa de vinho, a caixa de bombom - provavelmente vou exagerar, tirem-me porque comerei, beberei até ver a comprovação física do meu exagero – corpo empanturrado e bêbado. Quando deixo você partir sem exagerar, entende? Posso continuar mesmo nesses frangalhos, aceitando as idéias que já estão tão misturadas. Onde estão as receitas de bolos, as mínimas dicas, os segredos que acompanham esse final positivos de vida – resultado de sucesso e lucro como as lógicas das cínicas estatísticas empresariais. Ah, ainda se eu acreditasse que poderia viver nessa exata medida. Se acreditasse na realidade dessa minha periódica obsessão pelas dignas medidas, exatas medidas. Prometo no desespero cobrar-me à constante análise do exato momento em que devo parar, mas perco essa estratégia e desando a massa do bolo que em minhas mãos vejo líquida a escorrer entre os dedos perplexos pelo consciente excesso de movimento. Exagerei, Deus exagerei e perdi a medida. Prometi e agora a culpa da qual estou tentando me livrar. Perdi a medida porque foi essa insistência na esbórnia dos dias vividos sem medida. Ah, se conseguisse ainda perder a medida e ficar tranqüila com os excessos...Mas a medida, essa ideia católica que não me larga, a medida exata das coisas, os excessos estão vinculados com pecados. Tenho tanto medo de desandar e não ver a medida das coisas e afogar-me nessa falta de ar dos que não conseguiram deixar de ir para a direção infinita das águas. O tempo, pensei já tanto sobre o tempo e ainda não o entendo, será que esse momento-limite é extenso ou apenas está contido num curto intervalo de tempo? Se for sutil, se esse tempo da percepção acontecer em instantes poderei não perceber. Quando descobrir que as coisas devem ser interrompidas? Quando tirar as mãos das massas para que não desandem com excesso de temperatura. Devo intervir na vida para não permitir à deriva. Não esqueço o Sartre, não esqueço a liberdade, não esqueço o Freud e o tal desamparo. Porque a tristeza vem dessa sempre incerteza das coisas que manuais não ensinam. Somente eu saberei o momento de parar, o momento em que estamos em excesso. Gostava tanto dos excessos, do romantismo que esconde os limites, das paixões que cegam a ponderação, gostava tanto da desmedida, do desequilíbrio, da queda e agora, essa idéia das medidas, da exatidão para o equilíbrio que não leva à deriva. Quando sei que exagerei se meu corpo não demonstra claros sintomas? Se há febre, há doença, mas se há excesso de vida, se há extrapolação de vida, há sintomas nítidos que me façam parar, que me façam entender que estou em desequilíbrio que não é ele físico? Se uso meus olhos insistentemente nas consecutivas 300 páginas dos Desassossegos estarei posteriormente fatigada de tanto ver. Mas, e quando me fatigo de sentir, estarei com os órgãos cansados, diga-me que órgão estará cansado? Poderei ver que exagerei de sentir? Algum vómito surgirá à boca como aviso desse exagero? Ah, porque esse desamparo de nunca saber a medida das coisas. Escutava nessas sessões estúpidas de compulsivos alimentares que o problema não é comer, mas a medida do que se come. Aquelas estúpidas velhas burguesas falsamente magras não sabiam a dificuldade de saber o limite do vivido – estúpidas velhas burguesas. Dizer não à coxa inteira de um frango frito, pegar as migalhas e sentir-se satisfeito com elas apenas. Ah, como saber a medida das coisas, como ficar em paz ultrapassando todas elas, se lambuzando na gordura saturada, insaturada, super-saturada do frango frito gorduroso que está lá inteiro para ser devorado em excesso? Tanto comedimento da minha parte, tanta cautela com a medida...ah, foda-se a medida, foda-se o comedimento, quero exagerar e sentir mais que à vontade do vómito. Nunca me importei tanto com os excesso, glorificava-os como sinal de rebeldia, mas agora isso, essa ponderação toda, essa cautela toda com a vida vivida. Ah, da primeira vez queria pecar pelo excesso, e disse, e disse bêbada na mesa do bar – quero dessa vez pecar pelo excesso! Mas como se essa alma comedida e prudente se permite a esse excesso? Deus, cautela nos mínimos atos, nos mínimos toques, nas mínimas palavras... sou só ponderação, evitando o costume, a continuidade por medo de perda. Tanto comedimento por medo, tanta medida por medo, prometi viver somente nesse momento os excessos, mas mesmo assim, sempre tanto comedimento...
Escrito por annacbt às 21h11
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