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As vezes as pessoas ficam numa superficialidade que eu não consigo chegar, as vezes é melhor me calar para não interferir nessa desagradavel superficialidade. Nesses dias você anda essa bola de incômodo dentro de mim. é, anda esse incômodo mesmo e o meu desejo mais profundo é tira-lo por inteiro, como se tira aquela placa de gordura das carnes ainda cruas para ficarem mais magras. Queria que saisse inteiro como fazem os açougueiros com as peças de cochão mole, pegam a faca e removem a placa branca de gordura de uma so vez, de uma so vez, em um instante a peça esta livre da gordura concentrada. Queria poder visualizar aonde você se concentrou em mim, poderia removê-lo também pedindo no açougue a faca afiada que removem as gorduras. Queria saber em que parte de mim esta concentrado, entende? Seria tão mais facil te remover arrancando o coração. Tolices, tolices porque não te encontro assim, facil, concentrado em uma parte obvia. Deve estar por tudo, impregnado, como as gorduras espalhadas das carnes de segunda. Pelo menos dessa vez permiti que se concentrasse, dei permissão, bem verdade que uma permissão com dias contados porque sabia, e sempre sei com a razão, que não dariamos certo. Nunca penso que os amores funcionam quando são desse jeito, concentrados. Detesto essa insegurança que me traz, insegurança de amor, sabe? Insegurança por medo infinito de perda. Você me apunhalava, e eu continuava como resignação besta de quem perdeu o interesse pelas outras coisas do mundo. É, perdia o interesse pelas outras coisas do mundo, e a visão se reduzia, os espaços se incurtavam, as conversas alheias eram indiferentes, os jornais não lidos e o peso de estar completamente presa somente a um interesse. Ficava pela dor, acho que era nesse ponto que se concentrava meu amor-resignação por você, a dor que me trazia, ficava esperando que a dor fosse tão forte que instanteneamente estaria livre. Pedia de certa forma que me machucasse porque somente pela dor poderia me desprender de você, por isso escutava quieta as declarações indiretas de indiferença a mim. Poderia ter ido ao açougue perto de casa pedir a faca emprestada para tirar essa gordura pesada de que se faz o amor. Podia ter aceitado a segurança de um amor estaval, a aventura novamente, as historias do Leo, mas fiquei, decidi por aguentar as suas feridas. Um dia a dor seria tanta que diria com toda espontaneidade – perdi o interesse por você. Mas as coisas foram mudando, e se concentrava em mim. Com todo egoismo, não fazia mas diferença se estava ou não ali, eu estava, eu era concentrada naquele meu infinito interesse por você. Estava ali. Você? Não sei. Mas acordava entrelaçado a mim, precisando da segurança que somente meu amor resignado lhe daria. Deixava, ambos deixavamos porque tinhamos um prazo, a rejeição sempre estaria la mesmo que não estivesse, entende? Poderia ter ido embora, poderia não existir mais, mas estava la e iria te culpar, sem medir as vivências, sem racionalizar para ter a clareza dos fatos. Esse escurecimento do amor é que me mata, que me faz odia-lo, parece que é sempre a via do não esclarecimento. Poderia não existir mais a rejeição, mas ela sempre estaria la. O que poderia fazer? Eu teria que fazer, você não deveria fazer nada, era eu quem deveria desamar para enxegar a aceitação que so as manhãs quando acordava entrelaçado a mim me mostravam. Pedia infinitamente que estivesse comigo, não verbalizava, mas pedia em cobranças sutis, dos que so sabem amar com discrição. Lembro-me do dia em que decidiu ficar, por desespero talvez, por tentativa de curar aquelas feridas de abandono e substituir o que lhe faltava. Parecia promessa de religioso, perguntei algumas vezes: Fez alguma promessa em que me incluiu? Religioso, você sempre cheio de crenças religiosas. Fez promessa, não fez? Era pura compaixão e tentativa de organizar a vida que andava uma bagunça. Tinha medo, disse que tinha medo. Por que tem medo de mim? Talvez percebesse o que eu não percebia. Ainda aqui, não recuperei o interesse pelo mundo, tento te ver em outros homens, os movimentos sempre rapidos, as tais idéias sempre parcialmente ditas, as musicas detestaveis, o pão macio com manteiga, a sinceridade com que chorava, a sempre necessidade de me explicar as coisas. De certa forma, obrigou-me a estar com você, não ficaria se não me obrigasse, entende? Obrigou mesmo às vezes tendo a impressão que quase me chamaria por outro nome. Não deixou eu fugir de novo e por isso também fui entendendo essa aceitação-recusa: Você gosta mais de mim mais do que imagina. Você sempre esta certa. Fui ficando como ficam as mulheres resignadas. Te disse algumas vezes: Tenho vontade de me dividir quando estou com você, não precisa ser com você, mas tenho vontade de me dividir, mesmo não sendo você, entende?. Ando com medo, sabia, ando com medo de ter me enganado e de ter vontade de me dividir somente com você. Como acordar entrelaçada a outras pernas que não as suas, como abraçar alguém com outras medidas que não as suas, como aceitar outras escolhas que não as suas? Queria identificar em que parte se concentrou em mim, poder te tirar com uma faca, tirar essa camada pesada de gordura da qual é composto o amor. Pra você tão mais facil se entrelaçar em outras pernas que não as minhas, você tão mais livre do que eu. Te invejo por essa generosidade de doação, por essa carência que permite sempre se dividir e te detesto por esses mesmos motivos. Você não vai vir comigo, entende? Ainda estou em prazo de ter você por aqui. So tenho medo de se prolongar, entende? Ando prestando atenção ao redor, ando tão desesperada para te tirar de mim que faço esforço para achar agradaveis outras medidas. Você falaria: Vai Carol, você precisa mesmo de um companheiro para os dias de frio. E te detestaria por isso. Eu quero so que você fique sozinho. Tão egoista o amor. O meu desejo é que esteja sozinho e encontre mulheres que te façam lembrar de mim. Sei que é ingenuidade, sei que se for para lembrar de alguém, não sera a mim que comparara as outras, sei que sente um infinito de descompasso entre a gente e por isso imagino que diria: Vai Carol, você precisa de um companheiro para os dias de frio. Detestaria essa generodidade permitida somente quando ha mais fraternidade do que esse amor perverso dos amantes. Eu te gosto com toda essa perversidade dos amores de amante. Não, não seriamos amigos. Não acho que seriamos amigos. Talvez nunca seriamos amigos. Não, você não seria meu amigo de infância. Ele não foi. Te senti comigo naquela ultima semana, estava inteiro la, estava com saudades e me viu mais bonita do que costumava me ver. Tive vontade de dizer: Esta se apaixonando. Talvez fosse essa paixão alimentada pelas despedidas, mas estava pontualmente apaixonado. Eu não havia mudado, a minha pele era a mesma, estava no mesmo peso, não havia cortado o cabelo, o que eram outros eram os olhos com que me analisava.
Escrito por annacbt às 10h36
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