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Ironias: Disse-me que o que lhe doia era o fim das saudades dele. Não era por ele que sofria, era pela certeza que ele ja lhe esquecera. Recuperada, lembra daqueles dias em que a Colombia deveria ser logo ali. Havia prometido, não falaria mais. Foi so conversa de dois minutos para esquecer a pilha de livros não lidos ao lado. Segunda-feira, os barulhos ao meu lado disfarçando a solidão, essa presença quase invisivel que me da uma ponta de esperança. As visões se alargando, os objetos tomando outro valor . A procura daquela musica que daria encaixe perfeito à emoção do momento. A garrafa de vinho comprada por estética, as ruas que escurecem e claream em questão de segundos, esses carros que estão mais longe do que costumavam estar. Dei-me conta do passado, so as musicas toscas da minha infancia me vem à cabeça para esses estupidos sentimentos. Meu, bem - um coração vermelho de chocolates vagabundos. Não olhem os amantes de longe, são mesmo horrriveis. Esperar as amigas para dividir aquele prato de coisas gordurosas às dez da noite e tentar sorrir nesse frio que corta, sorrir com as descontraidas conversas femininas. Ah, nesses dias ando tão feminina, essas coisas que assolam as mulheres quando quase chegam aos trinta. Uma compaixão uma com as outras, uma cumplicidade que chega quase para fechar o circulo entre elas e o mundo exterior. As unhas descascando de esmate vermelho exposta para que percebam a decadência que encontra-se também na alma. Por que não ama-las, é tudo tão charmoso, as coisas que se descascam. Ainda um gosto tão juvenil. A vizinha la do condominio engabelando o filhinho da amiga. Quanto bafafa, o reveillon e o quartinho onde a bixice foi revelada. Foi pro cafofo. Qual você levou? Eram identicos. Levasse os dois. Lembrou qual foi? As camisetas eram diferentes, mas eram identicos. Levou qual? La feline, na euforia, palco no chão, uma porrada de rockabilly, garotas de 40, topetudos de 30, as tatuagens reveladas de baixo dos casacos. Tudo muito fake. Eu gosto – tão viril. Cramps e Elvis nas paredes em cores, pés aos montes no banheiro, colagem tosca, robei um pé e levei embora. Naila era o nome da garota bonita de topete gigante – pai cantor de musica arabe, mãe professora de piano classico. Naila, 21 apaixonada por Cash. As vespas la na frente. Tudo fake – eu gosto. Aquele topete era horrivel. Horrivel ficaria sem ele. Era o charme. Ser fake? É o charme. É horrivel. Eu gosto. Não quero ser feliz e cafona, polpem-me. Prefiro o charme que esta ligado à sempre decadência e melancolia. Se para ser feliz tenho que ser cafona fico com essa minha melancolia e tristeza. Cafonice feliz, foi isso que escutei da Mi em relação à fotos achadas por acaso da filhinha de um ex-amigo que ainda deveria estar pelo interior. Mi, acha que ainda temos cara de feliz? Ah, a vida obvia. Ja prometi, não sei porque insisto em sair da minha vida obvia. Tão mais segura. Essa historia de filhos, viuvos, vamos deixar para os quarenta. Vamos para a Italia. Sempre disse que gostava da Italia. Vou aprender o verdadeiro sentido de TOSCANA. Sera que tosqueira vem dai?Tosqueira de Toscana. Vem dai? Não, descarto Veneza, haja romantismos – gondulas, operas , mascaras, Romeu e Julieta. Haja romantismo. Vou comprar pra Toscana. Você acha que vai encontrar o que por la? Rusticidade e azeite refinado. Deve ser mais calor também. Vai poder falar alto e descontrolar os gestos. Assistiu Beleza roubada? Ah, la deve ser a Toscana. Sempre me imaginei indo para a Italia escutando a Courtney Love no trem. Lembra da Liv Tyler logo na primeira cena do filme? Vi esse filme no minimo 15 vezes la no colchão da Augusta. Puta Carol, ta vendo isso de novo? As vezes acordo no meio da noite e sei que estou pensando em vc. Volto a dormir. E continua, guia de cego, reflexo da cidade, não para, não - vai lembrando, da sossego, não embola, pode fantasiar, mas calma, não amolece, e nem tenta, não vai gostar. O contrabaixo tinha que ser tão grande? Aprenderia o contrabaixo. Aquele som abafado me da uma euforia! Esse gosto pelas repetições, que coisa infantil – Je veux du lait. Mais de 15 vezes, Carol! Tão bonitinha a minha menina. Repito, cacete, gosto das repetições, tem mais intensidade, sabe? Fica mais poético. O seu vizinho não aguenta mais. Patético. É, patético. Segue. Me mostra pelo seu olhar aquela passagem? Alguns restaurantes que se encontraria poeira facilmente no pato com qualquer coisa. Bom preço, a gente nessa pindaiba pode. Sentaremos la, pedirei um vinho vagabundo – o cartão paga – joga para o outro mês. Pediremos sapo ou lesma, é fino isso por aqui. Vai pedir beringela, sei que vai pedir a beringela de novo. Acordei no meio da noite, revirei a barriga, cobri a cabeça, lembrei que lembrava de você e voltei a dormir. Sem informações, ostracismo de uma parte.Por que ainda ai sozinho, escuto tudo, sei que acorda e dorme, mexe na parece por alguns segundos, toma banho rapido e encontra os amigos no fim de semana. Tudo tão fake. Eu gosto. Gosta mesmo do fake?Gosto de cosmeticos, maquiagens, lakes, perfumes, tatuagens e tudo o que tira essa cor amarela da pele e o cheiro natural do corpo. Olha as minhas unhas. Acha que nasci de unhas vermelhas? Gosto do fake. Vou comprar as vitaminas C para evitar esses malditos resfriados que me derrubam. Acha que vitamina C em capsula é natural? Natural so casaco de pele. Por que estou falando de vitamina C, não era disso que queria falar. Desvia. Sera que cai nessa pista estupida de novo? Como sentar de cara limpa naquela mesa de bar? E as obviedades, sinto tanta falta do obvio. Sinto falta de você, mas todos os meus esforços, os mais patéticos, as tentativas de encontros com franceses fakes. Sinto sua falta e tenho raiva de saber que esta no obvio, no calor, nas calçadas decadentes. Eu estou tentando encontrar aquela musica da infância que daria conta dessas pieguices todas de sentimento românticos. Era a nuvem com lagrimas, vazio no peito, saudade palavra triste, cabelo no paleto. Sera que so a cafonice da conta desses sentimentos estupidos? Tudo tão fake. Sera que ainda temos cara de feliz? Vamos para a Toscana descobrir as tosquices, vai se animar. Vai ver de onde vem esses nossos gestos descontrolados.
Escrito por annacbt às 04h46
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Ele sabia que iria morrer, colocou o travesseiro no chão, acomodou-se confortavelmente, organizou a casa para receber quem o encontrasse. Não quis nenhum tratamento e conciliou a ulcera crônica com a falta de coragem para o suicidio imediato. Foi a ulcera a desculpa para silenciar os tais ventos levantes. Estava louco, mas não dessa loucura de fim de lucidez, mas a loucura dos que deixam de ter prazer pela propria vida. A ulcera foi o suicidio pelo qual nunca seria julgado. Melhor pensarmos que havia morrido de morte natural, mais cômodo e confortante para as três filhas acreditarem em tal hipotese. Contavam as vizinhanças pelas entrelinhas, que a tal ulcera crescia e lhe comia por dentro, definhava com dores insuportaveis e negava os tratamentos. Sem armas nem cordas, havia deixado de lado todos os remedios indicados e voltara com as doses diarias de conhaque. Perturbei-me quando de volta para casa, descobri que havia morrido. Estava morto, jovem, sem netos, estava morto pois havia perdido o interesse pela vida. Organizou a casa, arrumou a bagunça para não perceberem que ja não estava mais ali, jogou as centenas de correspondências não lidas e acomodou-se no chão para que a natureza se encarregasse do suicidio. Era loucura, talvez estivesse tomado exageradamente pelos tais ventos levantes, negou-se à moderna medicina, evitou as visitas ternas das três filhas para que não percebessem a decisão que era sem duvida a da morte. Devo chegar aos domingos ensolarados e encontrar as portas daquela perdida sorveteria aberta. Tenho medo de que desista como desistiu Inacio, tenho medo dos tais ventos levantes que atacam-me e que podem também ataca-lo. Ando tão tomada por todos eles nesses tempos, aqui estão ainda mais perto, chegam ainda mais quente, os desertos estendem-se logo abaixo e sinto sua invasão. Se pudesse contê-los, fechar as janelas sem nem ao menos escutar a sua presença - é o lado inverso, acima, mas chegam tão forte. Saio as ruas e a cada encontro é uma tormenta. Tenho que digeri-la, perco a paciência porque muitas delas não as quero. Não quero saber de tudo, é essa arrogância humilde que faz com que escute bem cheia de interesse porque somente nessa contradição de necessitar e negar é que me entendo. Preciso ter todas as curiosidades que não tenho, é uma cobrança. As perguntas ininterruptas são para dar conta de informações que não me são de longe importantes – é essa elegância dos timidos. Mas e se dissesse que so me interesso pelo amor, se dissesse que so me interessam as coisas que são intimas, as historias em detalhes que as gentes escondem com vergonha. Quero saber do amor, entende? Pode explicar-me o que teve vergonha de explicar até mesmo intimamente a você. O meu interesse são pelos detalhes das almas, das incoerências da almas. Deveria ler os guias turisticos, são humanos também esses guias turisticos, são historias, é riqueza e voltaria com tal grandeza que enchem os olhos. Mas como não me amesquinhar nesse unico interesse que são as intimidades. Fiz historia em conversas cerradas, em convites de cafés que negavam os grupos. Onde ha mais de cinco as conversas são amontoados de informações perdidas. Os guias que se vendem aos montes são também os amontoados de informações que matam toda subjetividade das coisas. Como explicar esse meu desinteresse e pouca facilidade em fazer o recorte do que realmente me interessa? Queria saber das intimidades, aqui são tão distantes pois as relações são ainda todas tão recentes. Eu falaria das minhas loucuras num primeiro café, falaria, e se encontrasse correspondência estaria aconchegada pela familiaridade. De fato, encontro-me mais com muitas informações, uteis, porém, desinteressantes, informações de iténs, diagramadas em pequenos quadrados, 5 minutos de informação, nada de palavras concentradas das poesias, nada da intensidade dos ritmos aceleradas que despertam os sentidos, são informações curtas, objetivas, que não me causam nada, a não ser repulsa, que talvez seja pior que o nada. Não acompanho o ritmo do que se segue. Vou como bola de poeira leve nesse emaranhado de novas palavras, nessa necessidade de saber a usagem e encaixes que antes eram tão obvios. Às vezes queria que tudo voltasse a ser obvio, entende? Perderam-se as obviedades, distanciei-me da familiaridade como desafio, mas fraquejo e escuto os ventos levantes no longo lusco-fusco – entre chien et loup - nesse indefinido desesperador vejo-me a cada dia mais delineada, contraditoriamente, nessas indefinições que descubro mais a minha existência. Ando tão pouco interessada pelos nomes de praças e pelos museus da cidade. Contem-me por favor sobre o amor, contem-me historias que despertam as perguntas sinceras. Quero saber os detalhes para que possa imaginar o extraordinario no ordinario, o magico em meio a burocracia, o banal que pela intensidade do vivido transformou-se em épico. Sem teorias, quero saber os casos, essas coisas que se contam nos segundos dos encontros casuais no caminho do ponto de ônibus à casa. Sem didatismo, quero imaginar, dê-me pequenos elementos depois encarrego-me para recria-los. Desse modo coloco-me atenta ao controle da ulcera, das doses de conhaque, da intensidade que dou ouvidos aos ventos levantes. Essas pequenas sutilezas e segredos dos homens fazem-me distante desse movimento conturbado das linhas, das cores que devem virar numeros, dos centros que se alteram e transformam as logicas - não estou mais na Sé, agora o cruzamento se da em Chatelet – não é mais a vermelha é a 4, a verde não existe, são os numeros por aqui. A Africa do Sul se aproximou e Joanesburgo são as proprias trombadas pelo corredor logo de manhã. Ha tanta informação por aqui, tanto cuidado para não escorregar nos resumos das noticias sem conhecer suas minucias, ha tanto esforço para seguir as noticias que pode ser superficialmente entendidas pelos titulos. Não quero distanciar-me de uma das poucas coisas que ainda se conservam inteira em mim. Não vou aceitar escutar e conhecer somente o resumo raso das historias, não me interessam notas feitas para cumprir as normas escolares, quero que venham com profundidade, com as vergonhas, com as indefinições, com todas as dorer. Contem-me as sutilezas da alma porque nos guias ja encontro bastante informação que não me despertam o minimo interesse, itens que obrigo-me a ticar sem espontaneidade. Queria ter vontade de enumerar fatos, mas o quantitativo da vida é somente mais uma obrigação que faço sem grandes graças. So quero perceber, não é nada demais, é so pra mim, que esses ventos levantes estão sendo escutados também por outras janelas.
Escrito por annacbt às 06h35
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Tentativa estupida de dar lucidez para as desordens. Ando lembrando tanto dela, daquelas tardes de domingo em que a porta da cozinha encontrava-se fechada e a musica longe avisava o pranto. Eramos somente três, nos domingos reduziamos a dois pois tinhamos que respeitar aquele seu ritual solitario que me inquietava tanto. Queria sempre saber o que estava acontencendo, porque queria estar assim, tão distante da gente. Não conseguia entender aquelas musicas todas repetidas centenas de vezes, aquelas mesmas musicas repetidas e repetidas até cair no sono. Amoleci as durezas, perdi admiração pela rigidez toda que desenvolvi naquele cotidiano em que deveria ser forte para ficar ao lado dela. Precisava estar ali como cão de guarda para controlar toda a fragilidade que trazia o significado que dava para a solidão. Aquele quintal imenso interditado nos domingos porque queria estar so na rede para remoer as dores que lhe vinha pelo futuro desandado. Ficava quente, sentia o meu rosto aquecendo, as minhas mãos impacientes, era tanta inquietação. Não entendia, queria entender porque demorava tanto naquele quintal enquanto estavamos ali na sala. Queria que estivesse ali, afinal, era domingo e eramos somente os três naqueles tempos. Ela não vinha e as musicas infernais continuavam até o momento em que pegava no sono. Sabiamos que dormia porque o som parava, o toca fita no repeat deixava de rodar. Olhava para a cara dele e entendia que também ficava infinitamente aliviado pois agora dormia e silenciava aquelas dores. Não compreendia porque aquele exilio se estavamos ali. Queriamos ela ali, mesmo em silêncio, mas queriamos ela ali na sala que se encontrava tão vazia. Quantos anos para entender essa distância que tomava da gente. Quantas dores também vivadas para entender que precisava das malditas musicas no repeat. Ruminava magoas que poderiam ser terminadas com mais vida. Acho que não entendia esses momentos em que nos dispomos a colocar os cabelos para cima e um vestido de cor diferente das sempre habituais para estabelecer como ritual, essas quebras da continuidade. Tentando dar lucidez para essa desordem momentânea estabeleci rituais para que me tirassem dessa saga de ruminar magoas. Desculpe-me querido, mas precisei te apagar de onde pudesse emanar uma parca vida de ti. Foi mesmo como as cafonas novelas mexicanas, fiz o que disse que faria. Tirei o skype, o msn, o orkut e toda essa parafernalha eletrônica que pudesse me trazer de você uma minima vida. Disse que eu faria e fiz. Foi esse o ritual, foi esse o dia em que decidi colocar o vestido de cor diferente para simbolizar a quebra da tal continuidade. Não quero ruminar magoas, entende? Se aparecerem, ja sei que estou velha para os dramas, aprendi cedo vendo-a no exilio dos domingos enquanto existia tanta vida la na sala – não quero os exilios enquanto ha tantas ruas. Nesses dias so quero a ausência, negar a sua existência, partir ao radicalismo para evitar as mesmas musicas no repeat. No metrô, Nostalgie tocando Bob Dilan - I want you. E pensei em você, na historia recente, na minha resignação declarada e no amor que poderia ter te dado e que as circunstâncias barraram. Ando curiosa, você sabe, inquieta-me o fato de existir essas milhões de linguas que ouço por aqui. Mas ajuda-me com as dureza não permitindo nem ao menos as fantasia que preenchem a solidão. É pratico e sensato, devo ter me apaixonado por isso, pelas suas durezas que são também as minhas. Desculpe-me pela forçosa ausência, talvez sejam essas tais durezas, mas não podia ver nem se quer um sinal de sua existência para entregar-me ao meu deslumbramento com todos esses vocabularios desconhecidos. Não consigo a poderação, ja devo ter te dito, tenho um puta problema com as ponderações e os radicalismos são sempre as melhores medidas. Não quero mais saber sobre o seu cotidiano, sobre as andanças do final de semana, sobre o clima de São Paulo. Quero começar a dar sentido para palavras que não fazem ainda o menor sentido. Tenho curiosidade, você sabe, preciso entender essas sutis diferenças que as fronteiras proporcionam. Os dialogos intimos em linguas que estavam antes tão distantes, os tais temperos, a textura dos tecidos roçando na pele que não são como as texturas ja conhecidas. Desculpe-me pela nunca tentativa de ponderação e o radical rompimento de cotidiano. Fiz por mim, pensei em mim e quis ter-me aqui desse jeito solto como não me via mais resignada por esse amor a você. Pedi para que mentissem se um dia não aguentasse de curiosidade e perguntasse sobre você, pedi mesmo que implorasse, que mentissem – Nossa, não sei. Pensou que faria assim, ja entendeu que faria mesmo assim. Desculpe-me querido, mas as ponderações, os comedimentos - ainda não os adquiri. Sentirei um universo de saudades suas, mas aquelas palavras que ainda me fazem sentindo sacudio essas dores acentadas e pôs-me a tentar tirar o tal vestido do armario. Foi como se esse ritual doloroso matasse não as realidades, mas todas as fantasias as quais estava aprisionada. No fim, lendo as palavras daquela carta te agradeci por libertar-me de uma ficção que estava até mesmo pra mim, mal formulada, incoerente e cujo roteiro distorcia todo o desfecho. Te carrego comigo, infinitamente comigo e sempre lembrarei de você como aquele que pela generosidade revestida de dureza, fez-me conhecer dialogos que talvez nunca conheceria. Porém, para isso, com toda essa minha falta de ponderação, tive que impedir a entrada dos minimos sinais da sua existência em minha vida. Desculpe-me, mas creio que ja soubesse que não agiria diferente.
Escrito por annacbt às 21h30
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A gente perde espaços quando descobre muitos deles. Voltar? Voltar para onde se ja não me vejo em nenhum lugar? Eu daria tudo, daria tudo para ter aquela sensação de quando estava conhecendo as ruas de São Paulo. Voltar do trabalho em direção a Teodoro Sampaio como se fosse a mais grandioso epopéia. Não sei se era a minha autonomia conquistada ou se eram os cheiros e as cores de São Paulo que me faziam querer estar viva, andando e observando minuciosamente o mundo. Entre a Arthur de Azevedo e a Cristiano Viana, não era nada, era so o trajeto para casa, mas ao mesmo tempo estava ali o encontro com toda as minhas imprudências, os atrasos, os sonos no stock do trabalho, as noites não dormidas. Aquela impessoalidade de São Paulo, tudo interminavel, a falta de limites da recente autonomia. Voltava para o interior como se eu fosse ja tão maior que aquilo. Por que não consigo olhar para Paris e enxerga-la desse modo minucioso, reparando as formas das letras dos anuncios de tantas lojas. Quando vai se estabelecer, Carol? Doi quando olho no espelho e percebo que meus dentes não condizem mais com as minhas ambições. Carol, os dentes vão amarelando e o rosto vai carregando a marca dos muitos sorrisos. Vai querer ter vontade de ir morar no Vietnã pra sempre? Viver nesse improviso em que se encontra? Talvez seja essa a piração, talvez seja essa a dor, não posso mais ter vida improvisada, não consigo mais aceitar a idéia de que o desconhecido é responsavel pela minha liberdade. A loucura esta até mesmo no comedimento, sabia? O seu comedimento é a sua maior loucura, reverteu todas as referências. Essa reversão, essa transição que te faz acordar cada dia outra é a sua maior loucura. Vai querer ir para onde agora? Tem pouco tempo. Não se permite a vida improvisada pra sempre, você não vai se permitir. Era melhor quando não tinha consciencência dos meus limites. Tenho limitações, porra, e eles me pertubam, sei melhor sobre eles, não sabia, demoro para perceber o obvio. Diga-me o obvio, às vezes não enxergo – Não quer mais ficar no trânsito, entende? Mas também, virar o tal jatoba?Sera um enorme prazer ser um grande jatoba que fincou as raizes onde encontrou as melhores condições. Jatoba, vai virar um jatoba igual a sua amiga Carolina. O desconhecido da uma puta preguiça e estou de fato cansada. Se ainda o desconhecido fosse a superação das expectativas, mas na maioria das vezes é sempre uma puta frustração. Puta confusão. Estou detestando essa sensação de que tenho mesmo um destino, em que me encontrar mais confortavel – são as marcas dos limites. As ruas fedidas, as todas desagradaveis luzes que começavam a aparecer quando os homens saiam de seus trabalhos em busca de uma economica diversão. Talvez seja so ali em que me encontre. Todas as cervejas do mundo não valem o gosto daquela tomada de frente para o bueriro fedido tampado com carpetes azuis molhados pelas inundações. Não devo ter perdido as origens ainda – platonismos. Se mamãe escutasse isso, se ouvisse as minhas categorias de uma vida saudavel e feliz. Confio na sua sensatez, diga-me. Estou numa puta confusão de referências? Acho patético tudo aquilo em que acreditei. A vida imprudente e libertina, a boemia, as noites interminaveis em rodas improvisadas pelas esquinas da Augusta. Acho isso tudo tão patético, mas talvez, mais patético ainda seja essa minha cautela de classe média apavorada. Lembro-me de que abria a nossa casa para o mundo, chegava nas tardes quentes de Barão Geraldo sempre acompanhada por homens desconhecidos. Abria aquelas imensas janelas com o cigarro na mão e inclinava seu farto corpo, mostrando que queria aprender qualquer coisa que pudessem ensinar – era tão curiosa! Esse ritual se repetia todas as semanas e os visitantes eram sempre outros. Tinha inveja dela, na verdade era um misto de admiração e inveja, mais admiração talvez, pois a inveja, de certo modo, aparece quando existe um equilibrio entre os competidores. Quando são assim, opostos, sem nenhum equilibrio, como era entre eu e ela, ficava mesmo a admiração. O que tinha por ela era infinita admiração e curiosidade. Via-a tão forte sobre aqueles homens que se incurralavam entre a parede e a sua inconveniente vontade de extrair toda informação que podia. Ficavam tão fragéis diante dessa imensidão de questionamentos e perguntas que partiam sempre com o por do sol. Assustados, percebiam os perigos daquela falta de medo e petulância que logo nos primeiros gestos nos eram revelados. Em contra partida, trancava-me no quarto com preguiça de interagir, mas observava de longe a sua disposição com o tal desconhecido. Lembro-me de quando apareceu por la um argelino chamado Frederico. Foi um fuzuê entre elas, um deslumbramento, uma ansiedade para saber as historias que carregava o estrangeiro. “Basillic”, nunca me esqueço da euforia de saber que manjericao em francês era “basillic”. A origem dos magrebinos. O que eram os magrebinos? – tudo tão fantasioso - Quis sair para o mundo descobrir os milhões de significados que possuiam as mesmas coisas encontradas em lugares diferentes. Carrego-a infinitamente em mim e agradeço-a em silêncio por esses minutos em que pude observa-la. Penso que se estivesse aqui ja teria se misturado, organizando bandos desiguais para encontros em que pudessemos nos conhecer. Não esta aqui, eu estou, contida, do meu jeito, preferindo os encontros familiares, sem muitas misturas. Porém, tenho parte dela em mim, um pouco acoada, discreta, mas imensa comigo, sempre prestes a abrir aquelas enormes janelas e coagir com toda a sua curiosidade o desconhecido.
Escrito por annacbt às 06h51
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As vezes as pessoas ficam numa superficialidade que eu não consigo chegar, as vezes é melhor me calar para não interferir nessa desagradavel superficialidade. Nesses dias você anda essa bola de incômodo dentro de mim. é, anda esse incômodo mesmo e o meu desejo mais profundo é tira-lo por inteiro, como se tira aquela placa de gordura das carnes ainda cruas para ficarem mais magras. Queria que saisse inteiro como fazem os açougueiros com as peças de cochão mole, pegam a faca e removem a placa branca de gordura de uma so vez, de uma so vez, em um instante a peça esta livre da gordura concentrada. Queria poder visualizar aonde você se concentrou em mim, poderia removê-lo também pedindo no açougue a faca afiada que removem as gorduras. Queria saber em que parte de mim esta concentrado, entende? Seria tão mais facil te remover arrancando o coração. Tolices, tolices porque não te encontro assim, facil, concentrado em uma parte obvia. Deve estar por tudo, impregnado, como as gorduras espalhadas das carnes de segunda. Pelo menos dessa vez permiti que se concentrasse, dei permissão, bem verdade que uma permissão com dias contados porque sabia, e sempre sei com a razão, que não dariamos certo. Nunca penso que os amores funcionam quando são desse jeito, concentrados. Detesto essa insegurança que me traz, insegurança de amor, sabe? Insegurança por medo infinito de perda. Você me apunhalava, e eu continuava como resignação besta de quem perdeu o interesse pelas outras coisas do mundo. É, perdia o interesse pelas outras coisas do mundo, e a visão se reduzia, os espaços se incurtavam, as conversas alheias eram indiferentes, os jornais não lidos e o peso de estar completamente presa somente a um interesse. Ficava pela dor, acho que era nesse ponto que se concentrava meu amor-resignação por você, a dor que me trazia, ficava esperando que a dor fosse tão forte que instanteneamente estaria livre. Pedia de certa forma que me machucasse porque somente pela dor poderia me desprender de você, por isso escutava quieta as declarações indiretas de indiferença a mim. Poderia ter ido ao açougue perto de casa pedir a faca emprestada para tirar essa gordura pesada de que se faz o amor. Podia ter aceitado a segurança de um amor estaval, a aventura novamente, as historias do Leo, mas fiquei, decidi por aguentar as suas feridas. Um dia a dor seria tanta que diria com toda espontaneidade – perdi o interesse por você. Mas as coisas foram mudando, e se concentrava em mim. Com todo egoismo, não fazia mas diferença se estava ou não ali, eu estava, eu era concentrada naquele meu infinito interesse por você. Estava ali. Você? Não sei. Mas acordava entrelaçado a mim, precisando da segurança que somente meu amor resignado lhe daria. Deixava, ambos deixavamos porque tinhamos um prazo, a rejeição sempre estaria la mesmo que não estivesse, entende? Poderia ter ido embora, poderia não existir mais, mas estava la e iria te culpar, sem medir as vivências, sem racionalizar para ter a clareza dos fatos. Esse escurecimento do amor é que me mata, que me faz odia-lo, parece que é sempre a via do não esclarecimento. Poderia não existir mais a rejeição, mas ela sempre estaria la. O que poderia fazer? Eu teria que fazer, você não deveria fazer nada, era eu quem deveria desamar para enxegar a aceitação que so as manhãs quando acordava entrelaçado a mim me mostravam. Pedia infinitamente que estivesse comigo, não verbalizava, mas pedia em cobranças sutis, dos que so sabem amar com discrição. Lembro-me do dia em que decidiu ficar, por desespero talvez, por tentativa de curar aquelas feridas de abandono e substituir o que lhe faltava. Parecia promessa de religioso, perguntei algumas vezes: Fez alguma promessa em que me incluiu? Religioso, você sempre cheio de crenças religiosas. Fez promessa, não fez? Era pura compaixão e tentativa de organizar a vida que andava uma bagunça. Tinha medo, disse que tinha medo. Por que tem medo de mim? Talvez percebesse o que eu não percebia. Ainda aqui, não recuperei o interesse pelo mundo, tento te ver em outros homens, os movimentos sempre rapidos, as tais idéias sempre parcialmente ditas, as musicas detestaveis, o pão macio com manteiga, a sinceridade com que chorava, a sempre necessidade de me explicar as coisas. De certa forma, obrigou-me a estar com você, não ficaria se não me obrigasse, entende? Obrigou mesmo às vezes tendo a impressão que quase me chamaria por outro nome. Não deixou eu fugir de novo e por isso também fui entendendo essa aceitação-recusa: Você gosta mais de mim mais do que imagina. Você sempre esta certa. Fui ficando como ficam as mulheres resignadas. Te disse algumas vezes: Tenho vontade de me dividir quando estou com você, não precisa ser com você, mas tenho vontade de me dividir, mesmo não sendo você, entende?. Ando com medo, sabia, ando com medo de ter me enganado e de ter vontade de me dividir somente com você. Como acordar entrelaçada a outras pernas que não as suas, como abraçar alguém com outras medidas que não as suas, como aceitar outras escolhas que não as suas? Queria identificar em que parte se concentrou em mim, poder te tirar com uma faca, tirar essa camada pesada de gordura da qual é composto o amor. Pra você tão mais facil se entrelaçar em outras pernas que não as minhas, você tão mais livre do que eu. Te invejo por essa generosidade de doação, por essa carência que permite sempre se dividir e te detesto por esses mesmos motivos. Você não vai vir comigo, entende? Ainda estou em prazo de ter você por aqui. So tenho medo de se prolongar, entende? Ando prestando atenção ao redor, ando tão desesperada para te tirar de mim que faço esforço para achar agradaveis outras medidas. Você falaria: Vai Carol, você precisa mesmo de um companheiro para os dias de frio. E te detestaria por isso. Eu quero so que você fique sozinho. Tão egoista o amor. O meu desejo é que esteja sozinho e encontre mulheres que te façam lembrar de mim. Sei que é ingenuidade, sei que se for para lembrar de alguém, não sera a mim que comparara as outras, sei que sente um infinito de descompasso entre a gente e por isso imagino que diria: Vai Carol, você precisa de um companheiro para os dias de frio. Detestaria essa generodidade permitida somente quando ha mais fraternidade do que esse amor perverso dos amantes. Eu te gosto com toda essa perversidade dos amores de amante. Não, não seriamos amigos. Não acho que seriamos amigos. Talvez nunca seriamos amigos. Não, você não seria meu amigo de infância. Ele não foi. Te senti comigo naquela ultima semana, estava inteiro la, estava com saudades e me viu mais bonita do que costumava me ver. Tive vontade de dizer: Esta se apaixonando. Talvez fosse essa paixão alimentada pelas despedidas, mas estava pontualmente apaixonado. Eu não havia mudado, a minha pele era a mesma, estava no mesmo peso, não havia cortado o cabelo, o que eram outros eram os olhos com que me analisava.
Escrito por annacbt às 10h36
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Ele dizia que no meio das muitas partes, dos muitos fragmentos, daquele amontoado de idéias soltas havia ainda muito pensamento inteiro, muita concisão. Pensei noites sobre isso, li e reli aquele trecho para entender também o que ainda era idéia inteira em mim. Acordei assustada com o sol que entrava pela janela propositadamente não fechada, saí da cama para descarregar aquela estagnação de energia que estava circulando meu corpo. Eram as muitas ideais inteiras que se misturavam com os frangalhos deixando-me confusa. Quando encontrar a medida? Queria que essas idéias inteiras não me traíssem, queria confiar na minha sensibilidade para saber o momento em que devo parar, entende? Devo parar porque todas as idéias já estão em frangalhos, não existe mais nada inteiro. Acho que desandei, entende? Desandei como as massas de bolos mexidas por insistência, líquidas perderam o ponto, mãos que se misturam sem continuidade de movimento. A exatidão, a paciência e coragem de viver na medida exata. Deus, existe a medida exata de vida? Posso ter a exatidão da parada? São esses frangalhos em que me perco. Pergunto à Michelle, pergunto à Letícia se exagerei, perdi a conta. Lembro da Denise Stoklos dizendo que exagerou, exagerou e não foi pela primeira vez, exagerou pela segunda vez, perdeu a medida e exagerou. Tirem-me a garrafa de vinho, a caixa de bombom - provavelmente vou exagerar, tirem-me porque comerei, beberei até ver a comprovação física do meu exagero – corpo empanturrado e bêbado. Quando deixo você partir sem exagerar, entende? Posso continuar mesmo nesses frangalhos, aceitando as idéias que já estão tão misturadas. Onde estão as receitas de bolos, as mínimas dicas, os segredos que acompanham esse final positivos de vida – resultado de sucesso e lucro como as lógicas das cínicas estatísticas empresariais. Ah, ainda se eu acreditasse que poderia viver nessa exata medida. Se acreditasse na realidade dessa minha periódica obsessão pelas dignas medidas, exatas medidas. Prometo no desespero cobrar-me à constante análise do exato momento em que devo parar, mas perco essa estratégia e desando a massa do bolo que em minhas mãos vejo líquida a escorrer entre os dedos perplexos pelo consciente excesso de movimento. Exagerei, Deus exagerei e perdi a medida. Prometi e agora a culpa da qual estou tentando me livrar. Perdi a medida porque foi essa insistência na esbórnia dos dias vividos sem medida. Ah, se conseguisse ainda perder a medida e ficar tranqüila com os excessos...Mas a medida, essa ideia católica que não me larga, a medida exata das coisas, os excessos estão vinculados com pecados. Tenho tanto medo de desandar e não ver a medida das coisas e afogar-me nessa falta de ar dos que não conseguiram deixar de ir para a direção infinita das águas. O tempo, pensei já tanto sobre o tempo e ainda não o entendo, será que esse momento-limite é extenso ou apenas está contido num curto intervalo de tempo? Se for sutil, se esse tempo da percepção acontecer em instantes poderei não perceber. Quando descobrir que as coisas devem ser interrompidas? Quando tirar as mãos das massas para que não desandem com excesso de temperatura. Devo intervir na vida para não permitir à deriva. Não esqueço o Sartre, não esqueço a liberdade, não esqueço o Freud e o tal desamparo. Porque a tristeza vem dessa sempre incerteza das coisas que manuais não ensinam. Somente eu saberei o momento de parar, o momento em que estamos em excesso. Gostava tanto dos excessos, do romantismo que esconde os limites, das paixões que cegam a ponderação, gostava tanto da desmedida, do desequilíbrio, da queda e agora, essa idéia das medidas, da exatidão para o equilíbrio que não leva à deriva. Quando sei que exagerei se meu corpo não demonstra claros sintomas? Se há febre, há doença, mas se há excesso de vida, se há extrapolação de vida, há sintomas nítidos que me façam parar, que me façam entender que estou em desequilíbrio que não é ele físico? Se uso meus olhos insistentemente nas consecutivas 300 páginas dos Desassossegos estarei posteriormente fatigada de tanto ver. Mas, e quando me fatigo de sentir, estarei com os órgãos cansados, diga-me que órgão estará cansado? Poderei ver que exagerei de sentir? Algum vómito surgirá à boca como aviso desse exagero? Ah, porque esse desamparo de nunca saber a medida das coisas. Escutava nessas sessões estúpidas de compulsivos alimentares que o problema não é comer, mas a medida do que se come. Aquelas estúpidas velhas burguesas falsamente magras não sabiam a dificuldade de saber o limite do vivido – estúpidas velhas burguesas. Dizer não à coxa inteira de um frango frito, pegar as migalhas e sentir-se satisfeito com elas apenas. Ah, como saber a medida das coisas, como ficar em paz ultrapassando todas elas, se lambuzando na gordura saturada, insaturada, super-saturada do frango frito gorduroso que está lá inteiro para ser devorado em excesso? Tanto comedimento da minha parte, tanta cautela com a medida...ah, foda-se a medida, foda-se o comedimento, quero exagerar e sentir mais que à vontade do vómito. Nunca me importei tanto com os excesso, glorificava-os como sinal de rebeldia, mas agora isso, essa ponderação toda, essa cautela toda com a vida vivida. Ah, da primeira vez queria pecar pelo excesso, e disse, e disse bêbada na mesa do bar – quero dessa vez pecar pelo excesso! Mas como se essa alma comedida e prudente se permite a esse excesso? Deus, cautela nos mínimos atos, nos mínimos toques, nas mínimas palavras... sou só ponderação, evitando o costume, a continuidade por medo de perda. Tanto comedimento por medo, tanta medida por medo, prometi viver somente nesse momento os excessos, mas mesmo assim, sempre tanto comedimento...
Escrito por annacbt às 21h11
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Esse medo da doença, essa crença no acontecer maléfico, a fragilidade física que nos barra de um viver pleno. São as ruas as camas dos garotos franzinos que fazem de suas finas camisas, cobertas? Vou olhar, virar o pescoço para fixar a imagem desse descaso. Insistente, direcionarei todo o olhar para aqueles pés encardidos, as mãozinhas fechadas em reflexo ao frio de julho. A cama no trânsito, as manhãs indecifráveis, anestesias despercebidas. Esses céus noturnos ainda não amanhecidos em luz de sol, propriedade de um mundo que os recebe somente quando todos dormem. Não seria demasiado viver nos dias, no movimento dos que trabalham? Invertem as lógicas, essa vida organizada lhes cabe cheia de hostilidades. Posso entregar-me ao assistencialismo, lavar todos aqueles pés encardidos, deixar as linhas dos eruditos que confortáveis morrem de culpa. Tão atados aos medos, ao possível câncer, à possível cárie, ao certo mau atendimento dos serviços públicos. Quantos medos que me barram a existência plena. Posso viver acreditando na minha utilidade intelectual? Posso deixar aqueles pés sujos e esquecer a minha inclinação para o assistencialismo mais baixo? Somente a solidão que me dá palavras. Nós, Daltinho, não descobrimos paixões específicas. Esquece, esquece de tentar descobri-las. A sua grande paixão é a própria vida, o hábito e seus pequenos prazeres. Somos assim, apaixonados sem especificidade, sem os treinos de 12 horas, sem os pés calejados em virtude dos movimentos repetitivos, dos corpos desenhados cujos trejeitos são materializações dessa obsessão estranha dos que podem amar com tanto fervor uma única coisa. Causam-me tanta inveja, os apaixonados obsessivos, causam-me uma dolorosa auto-repulsa. Nomeio as minhas tentativas de ingênuas atividades sem finalidade. A paixão está na própria vida, Carol, as suas paixões não são específicas, os seus calos estão por todas as partes desse cotidiano apaixonado em que tudo cabe, entende? Disseram-me que precisava de cuidados. Tão difícil permiti-los, sempre nas costas as malas do vai-e-vem, a passagem das noites nos aeroportos desconhecidos. Sempre tão satisfeita com a firmeza. Carol, você verbaliza sempre que agüenta. Sim, essa é uma paixão, os limites e seus rompimentos, a auto-suficiência. A física fragilidade e a expansão do infinito. Como aceitar aos cuidados? Essa solidão tão logo escolhida, essa solidão que me dá palavras para nutrir a tentativa da tal paixão específica. A mim, tão mais fácil o desamparo que o amor, entende? Olha, não me constranja com esses cuidados, posso fazer tudo sozinha. Que sofrimento antecipado, Meus Deus, barrar as vivências por puro medo da perda. E se me acostumar com tudo isso? E se tudo isso acabar, entende? As vizinhas de mamãe tiveram que se reacostumar com a solidão depois de anos de casamento estável, precisaram entender que os cuidados haviam acabado. Sou a do hábito, demoro a acostumar-me com as coisas, gosto da mesmice de sempre, comer o mesmo número 5 de sempre no bar da esquina de sempre. Entende o porquê da ponderação com esses prazerosos cuidados? Não quero me reacostumar comigo mesma – uma mesma sem os cuidados. Pode ser tolice, evitar vivências, mas tão difícil mudar os hábitos, criar novas necessidades que são supridas somente coletivamente. Tenho medo das dependências, por isso, a dificuldade em aceitar tais carinhos, entende? E se acabarem de um dia para o outro? Tenho medo de observar a dependência e perceber que ultrapassa a minha existência, que não posso esforçar-me para reconquistar os carinhos porque não serão mais livremente dados. Prefiro evitá-los. Tão mais fácil depositar a crença somente em si, mesmo percebendo com o tempo que toda fragilidade da solidão é ainda mais frágil que a fragilidade dos que têm os cuidados. Nessa entrega à vida média, dos que aceitam os cuidados, as paixões específicas, sua alienação, tenho medo de acostumar-me, entende? Tenho medo de passar pelas camas que estão no trânsito e simplesmente não as enxergar, medo de estar tão apegada às minhas próprias superficialidades e ver as calçadas rústicas de São Paulo somente como calçadas, entende? Precipitamos os cânceres, as cáries, cuidamos incondicionalmente das nossas dores sem ver que as dores alheias são também as nossas dores. Mamãe sofre com a possibilidade da doença, está tão entregue ao medo de perder algo da vida que deixou de perceber as calçadas, saca? Tenho tanto medo desse meu egoísmo infinito, das paixões que são a sustentação dessa toda alienação. Treinarei meus olhos – olhos torneados como o corpo da bailarina que treina, treina...que treina, pois a paixão pela perfeição, a força da constante repetição faz dela pura resignação de atos vividos. Tenho medo porque os obstinados são sempre os do sucesso porque treinam, treinam. Eu posso ser a do sucesso treinando os olhos, torneando o pensamento para nunca ver rua- rua? Tão mais fácil sair daqui correndo de novo, Carol. Escuto e me irrito sempre quando pedem para eu observar os botões das flores que se abrem e ver a perfeição de toda a natureza. Estamos longe dessa perfeição, a natureza é sádica e definha, mata lentamente os corpos, corrói com úlceras, amedronta com paralisias. Perfeição? Somos tão imperfeitos, rodeados de paixões que barram os olhos torneados a enxergarem a tal rua-acumulo de corpos...ah, se pudesse sair correndo nessas todas manhãs ainda não amanhecidas.
Escrito por annacbt às 22h57
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Olha, será que alguém suporta amor demais? Entrar num daqueles quartos gelados e ver neve pelas janelas e frio nos degraus das escadas que barram qualquer vontade de contato. Olhei pra São Paulo, segunda-feira, sempre uma vontade de sair fugida para qualquer lugar invadido por um silêncio de solidão. No ultimo andar de um prédio, na cobertura, na auto-suficiência completa, tirar as escadas e barrar os elevadores que levam resquícios de existência para perto. Tomar banho numa água acolhedora e proteger-me desse excesso todo de existência a qual a minha fragilidade momentânea não pode dar continuidade. Precisava de solidão, entende? Sempre esse lance com as doações. Não posso corresponder a um terço das expectativas. Esses olhos todos, puta troço esquisito, puta peso contraditoriamente prazeroso, vaidade. Meu cérebro anda demorando alguns segundo para registrar meus movimentos, perdi os limites, perdi os medos, parece que é mesmo consumação sem limite de vida, é vida vivida que invade outras existências. A dialética, a dialética que quero viver, a moralidade que faz com que recue, eu perdida nesse infinito de possibilidades. Nas páginas do livro lido - Mulheres entendem melhor esse lance de dialética, saca? Fiquei confusa, nomeamos mais, entendendo melhor por essa coragem de assumir a contrariedade de tudo. Agente tem que controlar tanto as grades que separam as propriedades, respeitar as barreiras e contentar-se com a solidão a qual todas as posses nos remetem. Entupimos de medo a nossa rala existência e esquecemos da necessidade de destruir os muros vizinhos. Estou confusa, essas partidas, as coisas sempre por completarem-se, a ansiedade de perfeição, as despedidas que me fazem sair pela Augusta de coração cheio, ar que expande as veias e medo de perder os pertences, os pertences que são somente os elos, as relações de amor sem calma as quais se transformam em totalitarismos. Tão católicos, somos ainda tão católicos. Carol, você morre sozinha com essa volatilidade. Morro, mãe, vou morrer sozinha naquele apartamento embolorado que a Michelle brevemente descreveu como sendo o espaço da minha velhice. Perdi a crença em mim, entende? No espelho outra, distante daquela imagem que sempre reconhecia pelas manhãs. Será que havia perdido parte do catolicismo, será que aquela ausência estava agora em mim? Ah, somos ainda tão católicos. A culpa esbarrando na escassa tentativa da prática dessa tal dialética insistentemente decorada nos anos de faculdade. Perdeu fronteiras, Carol, desconstruiu propriedades, mas as ruas ainda estão esburacadas pela Augusta, as madrugadas da desordem são ainda respostas ao seu repleto desejo de negação dessas tais manhãs que vai organizando. Não dá para se encontrar muito longe do que você já conheceu, Carol, não aceita a bajulação que somente os lugares devidamente iluminados permitem. Alivia a alma, vai! Ando desconfiada das teorias, tão sem saber aonde ler para acreditar, entende? Escutar os velhos e deixar que eles me aproximem da grande verdade da vida? Sempre esse esforço para aceitá-la e entendê-la sem toda a perversão no qual penso que se insere o maior de nossos bens. Aquela cortina de borboletas presas com os fios de náilon que faziam parte das minhas lembranças de infância, aquelas borboletas aprisionadas coletivamente pelas linhas transparentes que perfuravam seus miúdos corpos, aquela prisão tão coletiva e acolhedora que faziam delas cômodas...sempre essa lembrança do prazer da estabilidade que evitava grande parte dos medos. Nunca consegui, lembrava da cortina e me via como a borboleta contorcida, desesperada para ganhar os limites distantes da janela. Não entendia os medos, nunca entendi. Medo barra as revoluções, barra esse rompimento que nesses dias preenchem-me de falta. É toda essa contradição, ânsia para esticar os excessos de pele do meu corpo como expansão física dessa imensidão que se cria pela liberdade. Preciso ver o lance físico, saca? Materializar esse rompimento com a superfície esticada da minha própria pele, visualizar em meu corpo o rompimento dos fios de nailon, as fibras comprimidas sendo esgarçadas por esse desejo de querer inquieta sempre mais. Preciso ver as grandes distâncias das janelas dos aviões, ver a Sibéria infinita do meu pai, escutar já distante as palavras em português como ecos de ternura dividida. Preciso de pausa, é vida demais concentrada, é esgotamento da alma, vida vivida em excesso, transbordando nos recipientes amesquinhados que não comportam grandes volumes.
Escrito por annacbt às 18h42
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Augusta Excesso de prazeres em despedida. Fui sentir o cheiro de esgoto para lembrar da esquina encardida do Bar, fui subir e descer a rua observando as luzes avermelhadas dos bordeis com suas putas engorduradas em roupas centímetros menores que seus tamanhos habituais. As calçadas esburacadas, o movimento noturno, o meu desejo de ver aquelas gentes em frangalhos às 7 da manhã resistindo à noite ainda não dormida com o copo de cerveja quase envergado. Antes, há um ano e meio, eu era toda entregue à Augusta, eu era somente na Augusta, no seu descompasso em meio aos negócios lucrativos realizados da Paulista logo ao lado, eu me entendia misturada à decadência dos que negam para disfarçar a pouca afinidade com as exigências da vida. O Eulália, o cafofo, o seu Antônio observando tantas histórias, a Dona Cláudia lá debaixo sendo subornada com berinjela e palha italiana para acalmar-se das festinhas destruidoras do 5 A. Quanta nostalgia, Carol! Estou somente somando vida vivida antes de partir, Querida, é pura despedida isso tudo de relembrar os fatos, é enredo para histórias. Lembra, viver é acumular história e relembrá-las é ganhar consciência de viva vivida. Sou agora somente despedida, preciso ter clareza de que não deixo falhas de existência por aqui, que vivi sem acolher-me na água quente da placenta materna. Estou no mundo, agora entro novamente para o trânsito, os encontros, as muitas línguas, a mistureba de culturas que carregam os cheiros das origens. Kobasknovit, na Rússia se tempera carne de panela com Cominho? Radija, na Argélia as comidas são fortes sem delicadeza? Pierre, ensine-me a entender a sutileza das uvas, suas regiões, as diversas maneiras de serem colhidas? Eu disse que dessa vez não perderia a estratégia, sentir esse fracasso dos que recuam, não agüentar os vazios, pois as paixões, a fragilidade dos que vivem entregues e fiéis a si, nos fazem não racionalizar os fatos. Fui tomada pela paixão, deixei a tristeza de encontrar-me longe da Augusta e de tudo que a rodeia ter controle sobre mim, sobre a minha escolha. O carinho, Querida, o seu carinho, o Tosquinho, a Kátia, era tão difícil, era tão vazio estar nas casas lacradas que barram a liberdade dos ventos que desorganizam as folhas soltas nas mesas. Dessa vez não perderei a estratégia, tenho que entender as minhas limitações, não sou do tipo que encontra tudo pronto, a trajetória sempre penosa, sempre no cuido do mundo e a necessidade de extrapolar os limites que me são impostos. Não perco dessa vez a estratégia porque detesto os limites, volto cheia, sem mágoas e um amontoado de linhas escritas embaixo dos braços. Não me perdoei pela pouco vivido. Carol, você voltou cheia, estava no envolvimento completo, voltou diferente, sei lá, você ainda não percebeu tudo isso? Eu quero mais, eu sempre quero mais, eu inquieta porque nunca estou satisfeita com o que tirei da vida, por que não tive amantes kosovares? Por que não me organizei para aproveitar o acesso e ir conhecer o Japão? Entende, estou falando disso, estou falando das distâncias, dos limites, é questão de espaço, vida se relaciona com espaço, com falsas afinidades que o tempo se encarrega de explicitar. Eu quero entender das coisas, é pura burocracia de vida vivida, é sempre assim que acontece. Estava esperando mesmo, era isso, o quarto revelou a espera, o minimalismo, a recusa de contratos prolongados, as raízes que dificultam as partidas. Vivo num drama de 6 anos, compro ou não compro uma cama? Fixação relaciona-se à cama. Normalmente as coisas acontecem fácil, os fatos cotidianos são vividos pelas gentes sem que se tornem um grande drama. Nunca consegui, sempre vivo sangrando, existência sempre arrancada, sempre uma dor nascendo no cotidiano banal. Primeiro beijo, um esforço, queria sair correndo daquela língua pegajosa que invadia o céu da minha boca. Por que adultos fazem isso, que troço sem graça. Maldito moleque bonito me atazanando a vida. Fui levada pela pressão, pelo meu medo de sempre esquisita, ser a única que detestava línguas pegajosas. Meu Deus, detestei a língua dele, detestei ele tentando ser gentil, maldito moleque bonito, malditas amigas que queriam que eu ficasse com o moleque bonito. Ainda se fosse feio teria um desculpa, mas o maldito era bonito demais. Meu Deus, que língua nojenta, não devo gostar dessas coisas. Como a Paulinha pode andar de mão dada com o Luis Fernando em pleno sol das 2 da tarde? Meu Deus, como aquele beijo dos dois era um troço ridículo, como ela podia gostar e não ter vergonha de ficar enrolando a língua dentro da boca dele no sol das 2 da tarde em público. Meu Deus, tem alguma coisa errada comigo, não gosto dessa coisa gosmenta que as amiguinhas gostam. Ficar gorda evita meninos bonitos, as gordinhas não precisam se atracar com línguas gosmentas, o moleque bonito vai se assustar, não vai querer casar mais com a gordinha – ele, o garoto bonito, insistia em me chamar de noiva. Engordei, quase explodi, virei um monstrinho bonachão e os garotos bonitos se afastaram de mim. Estava estrategicamente livre das línguas gosmenta e dos moleques bonitos que revelavam a minha tardia afinidade com as línguas, as bocas, os sexos e os passeios amorosos às 2 da tarde. Quinze anos, nenhuma língua, muita estratégia e sacos de bolachas engolidos inteiros para manter os moleques bonitos longe de mim – estrategista desde sempre, apavorada com a vida, louca para vivê-la sem grandes intimidades – que grande farsa que é você. Puta estratégia, puta medo, parece que estou tirando o atraso de toda essa economia de vida. Será que vivo com essa necessidade toda de vida vivida por essa castração dos dias passados? Esse processo automático ao qual muitos estão submissos – não consigo, não vivo sem sangrar, sem tomar consciência de que os processos são tensos e me perco entre o medo, a vida, esse lance do fracasso e do sucesso. Sangrei, sangro faz dois, talvez três meses, sei lá. Consciência da minha completa fragilidade, da necessidade de gritar e pedir sustentação porque sozinha não poderia assumir toda essa liberdade que faz de mim inquieta antes mesmo de acordar. Li de novo Pessoa, li a poesia que Fabinho escreveu-me antes de comigo, esperar o avião partir em 2008, li no avião tensa pela muralha entre mim e o mundo que se quebrava naquela tarde de março o poema que dizia assim: ´Nada me prende a nada Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo Anseio com um angústia de fome de carne O que não sei que seja Definidamente pelo indefinido Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar` Ontem a minha Margem do Rio estilhaçou os limites, fez-me chegar à compreensão da inexistência da divisão ingênua entre Orientes e Ocidentes. Quanta confusão se estabelece nessas tardes de feriados em que vou visitá-lo, a dor por seu desprendimento, a admiração e repulsa que aquela liberdade miúda me causa, o susto pela separação que existe entre ele e as tais superficialidades as quais nos prendemos. Parece que desistiu de dar a manutenção às coisas, tenho medos periódicos de que largue tudo, até as palavras cruzadas e as arvorezinhas do quintal. Se der um bonsai, uma orquídeas, um lago e peixes, será que retomará a vontade de viver? Vou lhe comprar um livro que explique os nomes e as origens das plantas, um aparelho para perder barriga e diminuir os tais diâmetros de abdômen que estão em excesso segundo a sua própria vaidade. Pai, você está bem, deveria somente parar de fumar e fazer caminhadas matinais. Carol, seus antepassados são da Sibéria, você sabia que os Takedas saíram do Sul da Rússia e atravessaram o Mar do Japão há 10 mil anos? Pai, mas não existe semelhança entre nós, os tais orientais e os russos, somos de origens opostas, ao meu ver, somos miúdos e amarelados e os russos altos e braquelos. Deu risada e me olho com desconfiança e subestimou a minha dúvida e a minha necessidade constante de sempre questioná-lo. A minha Margem do Rio cria mundo, faz a história como lhe agrada e diminui todas as fronteiras entre mim e aquele Atlas gasto que pega todas as tardes que vou lhe visitar. Subi no ônibus cheia, maravilhada por conhecer mais um pouco daquele mundo tão irreal e sem limites que constrói pra si. Papai não tem medo do frio, papai não tem medo de ter existência sem excessos e aparatos, papai gosta de aeroportos para conversar com garotas Filipinas em línguas inexistentes, eu sou papai com maiores cautelas, mas é papai quem faz eu entender essa necessidade de disparar para o fantástico do trânsito, das línguas, dos mundos, papais quer que eu saiba das origens das coisas, das montanhas e dos ventos que a Sibéria sopra para o Japão e que gela sua parte Oeste. Entendo de Taiwan, do feudalismo tardio da sua pequena ilha, das dominações e conquistas dos povos que lutam. Papai distorce a história e faz eu querer saber de tudo. Acho que acaba me contando um literatura, os fatos bem distantes do que leu nos livros oficiais, mas adoro ouvir suas fantasias, os devaneios que faz seu universo, fisicamente tão restrito e mesquinho, transformar-se em milhas, em centenas de quilômetros rodados, em conversas de botequim com os moradores que vão convertendo as oficialidades da história em mitos, contos e literatura.
Escrito por annacbt às 00h48
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Ando acordando nas manhãs silenciosas para deixar os desejos soltos, converter o cotidiano em poesia nas bananas amassadas com aveia, no regar das plantas secas que encontram-se na sala, na organização dos pratos no armario. Não sou a da ação, longe dessas coisas todas, enervo-me com a necessidade de completar as lacunas da vida com prazeres. Tudo tão superficial. O amor, Querida, o amor é algo superficial? Eu sempre acreditei que fosse, eu sempre neguei o amor e agora sinto-me num abismo de durezas, de intolerância às imperfeições. Não encontro as paixões de um dia as quais estava tão acostumada, as empolgações que disfarçam a carapaça que me protege e enverga as lances que o medo nunca permitui à perfuração. Evitei tanto, Querida, evitei tanta energia gasta com os homens. Achei o amor, esse amor homem-mulher, amor- erotico, amor de casais, amor de encontros, parte dessas preocupações desnecessaria da vida. Por quê? Que prepotência achar que amor desorganiza o tempo, atrapalha o funcionamento das coisas. Ando deslocada, você me entende? Ando deslocada porque aceitar a tudo que me cerca, viver com afinco, doar-me a vida...nunca fui muito boa nisso, nunca soube entregar-me sem egoismo. Vou as ruas para ver o sol que amarela as paisagens e sentir. Encontrar-me com o universo que me furta desde o primeiro instante por tirar-me dos conceitos nos quais criei resignaçõe. Por que somos tão tateis e foge-me a lembrança das palavras. Peço que me dê cotidiano sem adornos mas, estou tomada pelas durezas. Na porta do elevador enfio todas os dedos da mão dentro da boca, aperto o torax com força para sentir os pulmões prestes a explodir. Dou-me à vida e suspendo o egoismo. As minhas potencialidades estão relacionadas ao que nego, à constancia do cotidiano que são as tais lacunas preenchidas com prazeres. Tenho garantias de que sou essa das potencialidades, do prestes a acontecer , mas por pura arrogância, fica nesse limear entre o fracasso, a invisibilidade e o sucesso. Estou cansada de querer viver somente as importâncias, percebe a incoerência de tudo isso, percebe as tais durezas e essa massa amorfa de magoas que nascem da recusa da trajetoria? Quero entender essa cegueira que foge à racionalidade. Estudo as palavras, reviro-as para retirar delas a compreensão dessa confusão, porém, nessa vivência da vida que pulsa, perco os conceitos, perco a sobriedade e me vejo tomada pelo banal. Não lembro dos dialogos, suspende-se o tempo. Estou toda ao inverso, procurando viver sem grandes entendimentos. Fujo dos que adornam os conceitos para fugir da vida - também o faço e sinto o fardo de ambos. O trânsito, Querida, anda regulando a vida, anda tomando a cidade. Desvio dos sinais que fecham, caminho para encontrar uma rua em que os carros esperam os pedestres. Tenho pressa em passar para o outro lado da calçada, tenho pressa sempre de chegar na calçada que esta na direção do meu local de chegada, não consigo ficar no oposto dos lados, submeto-me a espera dos sinaleiros perdendo tempo parada vendo o movimento dos carros, mas quero chegar logo ao lado que abriga meu destino. Como se fosse inadimissivel continuar a caminhada do lado oposto da chegada. Isso é pura ansiedade, como o Fernando disse, como Fabinho disse que Fernando disse, é a pressa dos que ja dormem inquietos. Tenho pressa, Querida, preciso sempre chegar para ir, é como se contabilizasse a vida vivida, é querer extração do maximo no minimo de tempo, é essa inquietação que faz transfomar tudo em cobrança de vida vivida, é pura burocracia de vida vivida, exigência de maximos. A narrativa em descompasso, rapida, sem pausas, os pontos sendo tempo demais, as virgulas tempo ponderado, mas perdido. Lobo Antunes também tem pressa e abusa das virgulas. Não usarei mais o ponto, vou disparada como os carros na Nove de Julho, vou meio desgovernada para o destino, sem parar nos sinais vermelhos que regulam a vida. Petulante, jogarei-me em cima dos carros para que eles respeitem ou matem de uma vez a minha fragilidade. Foi despedida subta, negação de vida para vivê-la, evitar dramas, vida negada, vida vivida porque negada. Não, não consegui suspender o tempo, me perdi na impaciência e no amor prorprio. Para que dialogos? Tenho pressa, não adiante as explicações, essa tal inquietação dos que não respeitam nem o sono, os pontos, as virgulas, os semaforos. Tudo corre rapido e as noites estão ai para negar a calma das manhãs. Sempre ao elevador, os planos de historias, os tais prazeres que preenchem as lacunas da vida, sempre a ânsia aos fatos, a vida, entende? A vida com as lacunas preenchidas de pura vida. Negação de vida que é vida. Fomos despedida subta sem grandes explicações, fomos vida interrompida que é pura vida. Não precisamos de dialogos, a compreensão foi mutua, estamos com pressa demais para andar no lado oposto do destino. Atravesso a rua furtando-a dos carros porque ando apressada, sem tempo para ficar caminhando no tal lado oposto, entende? Desepedida subta, as noites estão ai, a vida e seus encontros estão metros da porta do elevador e tenho pressa, pressa de chegar a calçada e atravessar para o lado que encontra-se mais perto da chegada.
Escrito por annacbt às 11h36
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Lamentavel o mundo não ser um grande clitoris bem massageado Tanto prazer concentrado. Por que então meu corpo todo não poderia ser essa carne inescrupulosa que se abre ao minimo esforço? Por que me renegaram o prazer a tão minima parte? Poderia eu, como um todo, ser revestida por essa esponjosa carne submissa. Não me contento com o prazer de um bife bem passado em meio à divisão do expediente. Ah, se todos os pontos dos meus dedos, Se todas as cuticulas de minhas unhas, Se todas as infimas partes fossem tão sensiveis quanto esse pedaço de carne. Mexer, mexer E o desejo extrapolando em gritos involuntarios Sem pudores burocraticos que se vestem de certezas O mundo feito de dor, Acostuma-se com a ausência dessa concentração de vasos sanguineos dilatados Não quero o cansaço das horas medidas nos cartões de ponto Quero o suor do orgasmo descomprometido A força invasiva contrariada A plenitude da aflição Transformemos o mundo numa grande vagina despudorada Risinhos compartilhados, Esforços repetidos Plantada em horas de quase nunca No adentro da madrugada, Seu cultivo sera de margens Timida, nunca substituira o expediente A carne do gozo Desespera-se ao desprezo E ansiosa Aguarda a inversão das logicas, dos numeros, das horas... Da anatomia do mundo sistematicamente organizado, Em uma grande vagina despudorada
Escrito por annacbt às 10h18
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Medelim, eu gosto de Medelim. Da pra colocar nome de filho de Medelim ? Acho que não orna, acho que fica melhor em nome de restaurante. Bistrô Medelim- Bistrô ilegal. Gaucho, você aceita um bistrô chamado Medelim? Querida, você fara a farofa clandestina? Você dara palavras aos cafés como o combinado? Vamos passar as noites enrolando poesia e aconchegando-as aos pires brancos brilhantes do Café, Bistrô, sei la? Escutei uma musica sobre uma tartaruga que queria voar. Eu voei. Eu estava inteira la, estava voando, estava sem arrependimentos, inteira la. Podemos chamar o Chilli picante de Pablo Escobar, eu quero o Pablo Escobar e todos esses pseudos-vagabundos como nome de pratos, quero ilegalidade, saca? Cocaina em potes de açucar, Pablo patrocinando as Farcs, a gente enrolando poesia, cafés saidos com palavras, conversas paralelas de balcão. Atilio pedindo bem quente Pancho Villa com bastante insubordinação. A guitarra sussurando triste lamentos dos negros e indios estrangulados. Eu inteira la, em colera, querendo sair correndo para diminuir a ansiedade. A tartaruga querendo virar ave, a tartaruga de movimentos lentos questionando sua passividade no mundo. Que venha Zumbi e todos de Palmares fartarem-se nas mesas generosas do Bistrô Medelim, que venha a natural sacanagem dos indios pelados e seus flertes espontâneos não criminalizado pelos malditos padres bonachões que à noite dormiam pensando nas tetas das negrinhas de 15 anos. Podemos montar uma banquinha de dvds e cds pirateados e colocar o Tosquinho para vendê-los e agradar os clientes. Katia e Dr. Roberto começando, na mesinha perto do banheiro, um romance meio ridiculo. Carol, terminei o livro rapido, dei prioridade a ele dentre todas as minhas leituras para empresta-lo ao Dr. Roberto. Queria ele de volta, sabe? Queria ele de volta com um bilhetinho chamando-me para jantar. Esperei seis dias, imaginei que leria rapido, havia me dito que leria rapido porque sentia-se entediado pelas manhãs. Esperei mais 10 dias. Acho que não terminara a leitura, fiquei ansiosa. Sera que estava em duvida quanto a mim, sentia-se culpado pela mulher e pelos filhos? Eu esperando ansiosa , mas depois de 15 dias o livro com um bilhetinho na anti-capa convidando-me para o jantar - Conheço um bom lugar, um pequeno Bistrô na Augusta chamado Medelim. Carol, sai com o Dr. Roberto meio sem jeito, meio pai e filha, meio querendo esconder-me da burocracia que o acompanhava e pensei no Medelim. Você pode arrumar uma mesa no fundo, la no canto atras do biombo do banheiro?
Escrito por annacbt às 11h06
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Por que decidi abandonar-me de mim mesma ? Acordo às 6h naquele silencio das manhãs ainda não levantadas e pergunto-me sistematicamente porque decidi me abandonar. Por que, por que decidi abandonar-me? Os alimentos saudaveis, a parafernalha das lojas de cosméticos, os cremes para os cabelos, a caminhada para o trabalho, as tentativas de recuperar-me e dar vida a essa carne amorfa que caminha, que so caminha esquecida de tudo. Confia no tempo, Carol. Você disse tantas vezes sobre a temporalidade ocidental, a redução do homem a nenhuma circunferência. Você não esta confiando no tempo, Carol. Ando com medo da liberdade, ando com muito medo dessa maldita liberdade que permite a escolha. É o desamparo, foi o excesso de liberdade, foi isso que me fez morte. Estou morte, sou essa da continuidade de nada, da trajetoria perdida, do desânimo com essa vida que deve ser vivida. Podemos dar um tempo da vida? Se esconder em casa, arruma-la, fazer as unhas é se esconder da vida? Queria mais pausa, saca? Queria a grande pausa de uns anos, sair por ai e não ter o armario organizado. Cacete, estou detestando essa organização a qual estou submissa. Calcinhas e meias organizadas, nada embolado no armario, a cama arrumada porque nem deixa-la sem os lençois puxados me permito. A liberdade me fodeu. Fiquei aqui com esse metodismo chato das familias médias, justo eu, justo eu que detestava e discursava contra as ordens. Vida negada inteira, negação de mim. Não Fernando, não faça isso? O que anda pensando, Carol? Não ando pensando Fernando, não ando tomada pelo mundo, sou so essa que sobe e desce a Augusta para fazer Oficios estupidos que enchem a vida de burocracias e preocupações mediocres. Ja pensou sobre as preocupações? Um diabo tudo isso, uma puta energia gasta com baboseiras. Chamar um imbecil de Dignissimo, combinar excelentissimo e ilustrissimo! Um diabo isso tudo, uma puta energia colocada em coisas que não haviam necessidade. É necessario falar sobre o amor, a trepada, a risada compartilhada, e não sobre a combinção dessa merda burocratica toda. Olha, ja disse, recuso-me a perder o meu tempo com essas inutilidades que enchem a vida. Fernando, quanta intensidade. Fernando, ja te disseram que vc é um cara sensivel? Você quer ter uma filha? Eu quero ter uma filha. Podemos ter uma filha. Não vou deixa-la como você. Você não entendeu nada, você competiu a vida inteira, você é esse do maltrato. Fernando, quanta delicadeza. Por que tanto maltrato consigo? Eu queria ficar mais perto. Entendi o lance da impessoalidade, entendi os dramas, por que nos encontramos, por que nos encontramos logo agora? Olha, não sou sempre assim, geralmente tenho mais calma comigo, mas é que perdi vida, entende, perdi vida e fiquei assim, arrastando-me. Se te dissesse que perdi vida por que tive liberdade você entenderia? Você me entendeu, eu te entendi. Enchi a cara e posso ter perdido o rumo do dialogo, mas lembro que nos entendemos. Fernando, a Katia disse-me que fiz tipo, que estava mesmo te enganando. Puta sensibilidade, você percebeu rapido,não foi? Sabia que perceberia. Eu não te enganei, eu estou sem vida, era muita intensidade e eu estou sem vida alguma. Quer conversar? Não quero conversar agora, estou em desconstrução de tudo e te deixaria muito confuso. Eu estou muito confusa, conversar aumentaria a distancia entre a gente. Me da a sua mão, vai. Você entenderia o amor-habito que passa longe de ser comodismo? Fernando, quero você perto, amor-habito, rotina compartilhada que é so amor. Acustumaria comigo, acostumaria com a desconstrução continua de tudo da qual mesmo esforçando-me não sei se posso ficar distante? Olha, te amaria por habito, algo muito longe de ser comodismo, você entende? Você me entende, sei que entende. Sabe, não preciso ter cuidados com você, é so honestidade, não preciso medir as palavras porque sei que me entende. Entende que precisamos de tempo? Olivia, gosto de Olivia para meninas e Fredrerico para meninos. Você não é o da ação como estava acostumada, gosto disso, gosto de não medir as palavras. Fernando, amor é somente habito, sei que me entende, nos entendemos. Podemos ter outra temporalidade para nos entendermos. Não seja duro comigo, não deve me maltratar como te maltrata. Preciso dizer mais o que? Amor-habito que é so amor. Sou dura demais, fui sempre dura demais comigo mesma, sei que também foi, não precisa me dizer. Desconstrução implica esse aprendizado de flexibilização consigo. Precisamos, ambos precisamos. Fernando, perdi o raciocinio. Não somos os da ação, penso demais, me perco demais, e vejo que isso também acontece com você. Vai ser duro comigo se for duro consigo, vamos nos perder se continuarmos mais uma vez toda essa rigidez construida. Eu quero o tal amor-habito, a desmistificação desse conceito amor-protagonista, entende? Fernando Olivia é um nome suave, você não acha?
Escrito por annacbt às 21h01
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Sabia que perderia os significados , sabia dessa flexibilidade toda que dou a eles. Eu louca no meio dessa dança escorregadia, eu explodindo por tudo, eu transbordando por tudo nesse sistematico cotidiano repetitivo que no final do dia perdeu o significado. Sistematizar a vida? Ter objetivos e chegar longe como disse o picareta do numerologo? Chegar aonde? De manhã, ao abrir a cortina, penso quantas vezes mais terei que abri-la e desse modo, ja estou confusa quanto a trajetoria. Mudo de significados, perco-me e tenho medo das todas manhãs repetidas. Nunca posso pensar na tal manutenção da vida, eu sempre penso nisso, porra, sempre me chateio por isso. Carol, você precisa dar manutenção à vida. E é isso, assumir viver é dar manutenção constante à vida. Não, pelo amor de Deus, você tem coragem de juntar manutenção e constante, substantivo e adjetivo de continuidade e me dizer nesse momento? Olha, eu so estou tentando silenciar esses malditos fantasmas. Você sabe, a continuidade de tudo faz com que eu perca a graça. Não quero perder a graça de tudo, entende? Abrir todos os dias a janela, dar essa tal manutenção constante à vida faz com que eu perca a graça de tudo. Vai ser sempre aquilo. No elevador de manhã o Raimundo me informou que faz 20 anos que ele trabalha no Ministério Publico, faz 20 anos que entrega o maldito Diario Oficial às secretarias, 20 anos sorrindo para entregar o jornal. Eu morreria. Devo ja estar morta, vida-morte de novo, perdendo os significados, perdendo projetos, planos, linha reta e essas porras todas que impulsionam as gentes. Eu bem perdida nessa. Eu tentando dar a tal manutenção constante a vida. Olha, vc viu, o apartamento entrou em decadência, a tal manutenção não foi dada, voce estranhou ao chegar, as paredes eram amareladas, os azulejos estavam encardidos, as luzes eram escuras, você se assustou, lembra? Precisa sim dar manutenção à vida e ela é constante queira você ou não. Manutenção constante, é essa a loucura, são esses os fantasmas todos, é isso? Eu preciso silenciar fantasmas, eu tento deixar os significados sob controle, mas ja disse, eles são soltos demais, gozam de mim, envergonham-me porque perco o controle, perco tudo e quero sair correndo, rodopiando no salão junto com os significados que se perderam. Essa luta com os malditos fantasmas, porra. Sempre tendo que silencia-los, eu queria era me jogar com todos eles também, sair assim mesmo, cheia de petulância para o mundo. Carol, caralho, para de reclamar da mesma coisa. Vc tem que ter projeto, o seu Guru picareta disse, traçar metas para chegar em algum lugar, você não sabe o que quer, precisa se conhecer e encarar que o maldito numerologo tinha umas certas razões, vai! Eu entendi tudo hoje, entendi o que quero, quero igual o Fernando quis, ja disse que gosto muito do Fernando? - banquerio anarquista - o Fernando ja havia pensado em tudo isso. Quero revolução, saca, ja disse isso, quero revolução, porra. Desejo profundo, quebrar tudo, lixo estrutural, quebrar, porra, sair metendo fogo e legitimando como generosidade feita ao mundo. Olha, eu bem louca nisso tudo. Daltinho ouvindo a minha ira revolucionario me olhou e disse – que bonitinha! Nem o Daltinho me leva a sério com os lances de revolução. Eu fora desse tempo maldito também, viu. Quando entrei na faculdade achava cafona esse lance de proclamar a revolução, mas agora, descubro que não era pieguice, mas a falta de uso desse discurso é que o deixava empoeirado e fazia, aos meus olhos, bem piegas. O lance é dar ênfase em discurso esquecido que precisa ser atacado de vida. Ataco a REVOLUCÃO de vida. Acho que você foge de coisas e fica falando de revolução. Ando pensando sobre coragem, ando pensando o que dizem-me sobre coragem – você foi muito corajosa nessa! Eu morrendo de medo de esquecer a revolução, assumir a continuidade, a manutenção e esses troços todos que se não pensados tem até uma certa graça. Eu preciso pensar, preciso do inconformismo de tudo, preciso rejeitar a manutenção também para conseguir ser mais eu. Talvez se vivesse rendida ao cotidiano fizesse dele algo mais prazeroso. Hedonismos mesmo, dias compostos de feriados, trânsito e vontade de andar pelo mundo e descobrir tragos diferentes. Fazer o que em Cuba, Carol? Descobrir o Rum, fumar charuto, ensaiar uma salsa. La tem muita vida também, você sabia Anguito 1? Eu quero vida, vida junto com os meus significados soltos. Carol, desconstroi, vive aqui. Aqui é completo ataque de vida, ataque de vida cotidiano, é isso! Vida pra você viver, janela para abrir e toda manutenção de vida. Manutenção de vida é pura vida, ataque de vida, você quer significados? Eles estão todos por aqui também. Que relação foi essa bizarra, que fez você acreditar que somente longe tera o tal ataque de vida? Perco a solidão por aqui, assunto delicado. Eu sei, eu sei, estou sendo bombardeada de vida. Aqui tem excesso de vida e eu transbordo, estou transbordando por todos os lados, ando aflita porque sinto esse ataque direto que às vezes não sei viver. Tenho medo de ser fim à literatura, tenho medo de, sem dramas, perder esses fantasmas. As gentes, muitas as gentes têm medo de perder a felicidade, o dinheiro, eu tenho muito medo de perder a melancolia, tenho medo, porra! Tenho medo de perder a melancolia e viver a manutenção de vida. Eu vivendo na manutenção de vida, eu bem esquisita nessa também. Entraga à manutenção de vida é entrega ao fim da minha melancolia? Olha, você sabe me responder? Cadê o numerologo maldito pra me responder, responde pra mim. Você anda muito inquieta, tenho que te dizer de novo, precisa ter calma, anda atormentada, o que te aconteceu? Vai me avisar se estiver ficando louca, vai falar que estou me entregando sem ponderação aos significados? Eu tenho medo da vida, tenho mesmo medo dessa manutenção que ela exige. Tenho medo, porra. Troço bem arriscado, colocar energia em tudo, saca? Eu transbordando. Sabia que vejo em seu quarto o reflexo dessa loucura toda? Você jogou tudo fora, por que jogou tudo fora? Você acha normal esse minimalismo todo, dar suas roupas, deixar os seus livros, mandar até a cama embora? Eu tenho preguiça, é isso, você se contenta com essa resposta? Eu tenho preguiça de dar a tal manutenção, eu não quero os bibelôs, ja disse, eu tenho medo também de querer muito os bibelôs, não quero o egoismo dos que têm que proteger tudo, por isso é melhor se livrar de tudo. É melhor dar o livro antes da tensão de empresta-lo e não devolverem. Sera que isso é puro egoismo?Tenho medo mesmo de me ver entregue à estupida manutenção às coisas, eu so quero dar manutenção às gentes. Entendo a contradição disso tudo, mas o que você acha estranho eu digo que é normal, que é prioridade e não decadência de tudo. Eu não quero os bibelôs porque sinto-me mais livre, mais no transito, mais cheia da possibilidade de partir facilmente? É piração, é pura piração, mas te disse que voltei desse jeito. Voltei cheia de excessos, voltei prisioneira de uma liberdade estupida que me enerva todas às manhãs que abro as cortinas. Voltei negando o que sou, por isso a negação também das coisas, das pessoas, do pais. Estou tentando de tudo, quero a calma que você me ofereceu, quero entender as coisas, quero desconstruir tudo isso e viver cheia de vida sem achar que somento o trânsito pode oferecer-me. Preciso transbordar sem culpa, entender que não tem problema acalmar-me com o cotidiano que vai mesmo se repetir todos os dias, estou desconstruindo para tentar ,de fato, viver mais o ataque cotidiano de vida, mas compreendo que essa coragem, essa coragem bem delineada me escapa sempre, que os esforços são sempre melancolicos porque de certa forma é negação de tudo. Mas estou dispostas, estou desconstruindo tudo e aceitando, deixando-me aceitar todas essas repetições as quais dão ao cotidiano vida e o faz transbordar. So preciso mais uma vez de calma, eu preciso de calma e coragem porque esse que sera bastante delicado
Escrito por annacbt às 08h46
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E quando as horas são contadas e quando a gente descendo decide subir e quando a gente encontra a morte e quando a gente desiste da morte e quando a gente descobre a vida e quando a gente descobre o habito e quando a gente se irrita com o contra tudo da vida e quando a gente descobre que o habito de vida é pura vida, a gente mesmo enraivecido, decide viver! Decidi viver.Cinco garotas e um banheiro, novas historias começando. Nada de aeroportos, drogas em tampax, linguas diversas, garotos australianos. O lance agora é a divisão de um banheiro – O Fedido. Se todas as partes do Eulalia tem um nome, o disputado banheiro encontrou o seu – O Fedido. Maldita hora que meus avos vieram para o Brasil. Essa cafonice de destino serve para alguma coisa, pelo menos, explicar o porquê de disputar O Fedido com outras 4 garotas. Ainda com inveja dos Alemães, questiono. Vovô, existia a América do Norte apos a Segunda Guerra Mundial, ela ja demonstrava certa soberania mundial. Explique-me, parar no Brasil, parar na fedorenta Augusta, parar no decadente Eulalia para dividir O Fedido em 5 garotas? So explicado pelo destino. Destino em tempos de crise, crise particular minha, crise de cafonice mesmo, eu no Ministério Publico tornando-me cafona – Processo vira destino, repressão vira mensagem de Deus, ou coisas desse discurso cafona dos que reproduzem. Ai, Carol, controla a arrogância! Esta dificil, viu. Não aguento mais, porra. Eu cansada de enfiar o rabinho entre as pernas, quero mandar todo mundo se foder. E ainda pensando em revolução. Puta idéia piegas, você perde o argumento so em citar essa palavra. Sei la, arrogâncias, mas esse discurso cafona, caralho-incômodos. Eu enfiando o rabinho entre as pernas todos os dias e subordinada voltando para a casa querendo chutar qualquer lata de lixo para descontar a raiva engolida. Subordinação. Hey, troco o processo pelo destino, é o caminho da cafonice, do discurso vazio dos subordinados, dos que enfiam o rabinho entre as pernas e sobem a Augusta com um monte de merda engolida. Olha, falaram que esse pais era piada, mas não explicaram muito bem. Arruma um emprego publico e entenda. Eu enfiando o rabinho entre as pernas por causa da 7ª camada da estabilidade. Toda nobreza tem seu preço, eu pago minha nobreza enfiando o rabinho entre as pernas, eu pago a nobreza da estabilidade com cancer futuro na garganta. Eu engolindo merdas, sapos, e todas essas porras que o ditado popular, ao seu modo cafona e verdadeiro, nomeia. Processo virou destino, subordinação virou dadiva de Deus. Você largou a Madame Penjon, Carol, largou e quis a nobreza da 7ª que daria a estabilidade. Não desvia, volta na historia do Fedido. Fedido, banheiro caquento dividido por Anguito 1, Anguito 2, Catia Flavia, Querida e Carol. Porra de vida, ninguém quer dividir um banheiro por 5, por isso que tentei explicar o “destino”, o PROCESSO HISTORICO dos meus avos fugidos da guerra. Crise, ou mais uma dessas explicações rasas do discurso cafona dos subordinados, especulação imobiliaria, mais um bom argumento para o pagamento dos 1800 que morrem no Eulalia. Divisão do Fedido por 5, Catia Flavia, 5º elemento do conjunto caquento da Augusta. A gente sobrecarrega o banheiro para aguentar os 1800. Cafona ter o que não se pode, eu quero revolução, eu quero R E V O L U C Ã O, saca? Quero morar no Eulalia e ter um banheiro so pra mim. Revolução se faz consumindo bolsa Chanel e morando no Eulalia com muito conforto. Ingênuo são aqueles que pensaram que podiamos fazer revolução sem uma bolsa Chanel, ingênuos são os que pensam que revolucionarios insubordinados não precisam de luxo e vida boa. Que pieguice associar revolucionarios com restrições, barbas e pingas baratas. Eu quero revolução com sac Chanel e champagne e é somente essa que dara certo. Porra, facil entender essa logica, faz-se revolução para que a técnica seja usada em nosso beneficio. Bolsa Chanel é agregação de técnicas e sua popularização é revolucionaria. Diguem-me, respondam-me, por que popular deve ser ruim, caralho? Eu puta com isso. Caralho de novo; perco o argumento e falo que quero queimar o Ministério Publico inteiro e todas as instituições politicas que comando porcamente, com o maldito discurso piegas, o Brasil. Perco a cabeça, falo em revolução, em bolsa Chanel e ninguém me entende. Preciso de tempo para explicar. É o tal conhecimento emancipador, mas leva tempo para explica-lo. Essa contradição é a liberdade, é a Madame Penjon, mas dentre membros do discurso cafona perco o argumento, perco a teoria do Boaventura e falo na revolução. Carol, você lembra do Miltão, ele ria ao falar de crise e revolução, para ele era mesmo tudo essa grande piada, ele tinha a calma e a elegância que você não tem. Você perde o argumento. Volta a contar-nos sobre os cinco elementos la do Eulalia, é mais divertido e você se distrai. Olha, estou tentando, estou esforçando-me para aceitar todo o kit que vem junto com a vida estavel, a vida com as tais 7 camadas da estabilidade, mas perco a paciência, a razão e falo em revolução. E te disse, queria um bebê que cagasse muito para ocupar-me e esquecer essas idéais profundas de revolução, e te dissse, iria comprar plantinhas para regar, granola para cuidar da saude, essas coisas que dão um prazer raso e leve. Até Ricardo, até Ricardo reviveu...encontraria-me outra com Ricardo, encontraria-me mais piegas longe das idéias de conhecimento emancipatorio. Eu juro, por Ricardo aceitaria parcialmente o discurso regulador, o discurso cafona instituido por um tempo, aceitaria para viver o que não vivi, entende, aceitaria para desconstruir magoas. Acho que Ricardo tem medo de tudo isso, dessa confusão toda, da não estabilidade de nada que não posso e não quero controlar. Não conforto-me com a 7ª camada da nobreza, da estabilidade, mas flexibilizaria por Ricardo. Tenho medo também, tenho medo de Ricardo ser muita literatura, entende? Seis, sete, oito, nove, dez visitando O Fedido, Ricardo sendo o sétimo, Danilão da Querida sendo o sexto. O Fedido não comporta, deixa o Ricardo para la. Revoluções – mudo de pais, tento a vida subordinada, fujo da vida subordinada, mas sou a mesma. Encardida virando sempre a cara para os poderes reguladores, chutando a lata de lixo para descontar o argumento muito bem articulado que foi engolido, criando um cancer com resto da merda que volta entalada na minha garganta.
Escrito por annacbt às 22h25
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